] quarta-feira, setembro 19, 2007
 
diásporas, êxodos, banzo
fim de outubro faz 5 anos que eu estou em poa. recentemente notei que a cada dia eu pertenço menos a pelotas e, não por gosto, mais a porto alegre. na academia tem até aquele termo muito erudito que fala de uma coisa que só na carne pra saber: a pertença.
sou de uma família de refugiados. imigrantes, migrantes, emigrantes. de nômades, inclusive. lá no fundo de portugal, os mouros. e os judeus fugidos, refugiados no catolicismo tosco de uma oliveira. esses cruzaram o oceano e trouxeram pro brasil o banzo dos portugueses. à mesa, a mãe me dizia que doía muito ser imigrante. que imigrante sempre carregava um aperto no peito.

e os polacos, que chegaram aqui "Origem desconhecida. Polaco", sem os nomes registrados direito. depois desce do paraná pro rio grande, pra rio grande, pra dom feliciano. primeiro bizo. depois a avó. depois meu pai, refugiado de rio grande, estudante em pelotas.

é o aperto de nunca pertencer. nunca, a lugar nenhum.

colega de doutorado, conversa no ônibus, em comum algumas questões humanistas e humanitárias, objetos de pesquisa negros, brasileiros. cabo-verdeano. banzo. no início do longo caminho até o campus, a esposa brasileira longe, em outra cidade, e o banzo. o que fica é o sentimento de nunca pertencer a lado algum. senti nele aquela mesma coisa de que a minha mãe me falava. e aquela mesma coisa que, em menor escala, eu sinto muito.

o colega resume: a gente não pertence nem a um lugar, nem a outro. eu leio tanto isso em bauman. deslocar-se, evadir-se, evaporar do mapa, refugiar-se, ser expulso, fugir, asilar-se.

chego a pelotas e procuro pelas pontas abertas dos meus mapas geográficos de significado. e não acho mais. entre tantos colegas, encontro alguns mais estrangeiros que eu. uns não falam a língua. uns não entendem a língua. sou colega de caxias, canguçu, pelotas, ijuí. de passo fundo, belém do pará, santa maria, rio grande, rio de janeiro. de vários banzos. de banzo que sente na pele a falta do sol. de banzo que sente nas narinas a falta da chuva. e de banzo que sente a falta de pertencer. num lugar, são refugiados que teimam em voltar. noutro, invasores, aliens, estrangeiros que estupram as estatísticas populacionais procurando trabalho. e eu aqui, no meu sentimento de não-pertença. que é um sentimento de todos, mas todos separados. porque não que cada um seja único porque vem de um lugar diferente. todos não pertencem. mas cada um é um só, porque quando a gente não pertence a lugar nenhum, é como se estivesse sozinho.

bem no meio da rua da praia. mas sozinho. a gente e aquele banzo, um negão bonito, dois metros de altura, de olhar tão triste, de dentes muito parelhos, voz profunda, e que canta um blues sentido, sentado numa cadeirinha de madeira. não é bobagem que as pessoas se matem por ele.

[ Penkala ] 17:55 ] 4 comentários

 
eu uso óculos




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