] quinta-feira, setembro 20, 2007
 
Yom Kipur
todas as vezes que eu falo sobre religião com alguém, a pessoa, se sabe um pouco da minha situação, diz sempre algo como "é que tu não tem fé", ou "ok, tu não tem fé, mas se tu tivesse tu ia fazer *** hoje", e tal. eu logo me apresso (e sem resultado, porque as pessoas não constumam entender e sempre voltam a fazer a mesma inferência) em dizer que I DO HAVE FAITH e que fé não significa "acreditar em Deus". fé é mais que isso e nem todas as fés se centralizam em um Deus.

aí eu vou tentar explicar o significado de "não ter Deus" no budismo, porque as pessoas ficam doidas e realmente não conseguem compreender o conceito complexo de não existir Deus numa dada religião. porque se não tem Deus, pras pessoas, não é religião.

bom. eu tento ignorar, mas eu também não sou de ferro de ter que suportar alguém dizendo que eu não tenho fé porque não acredito em Deus.

mas enfim.

(e as pessoas que são mais espiritualizadas são as que melhor compreendem. normalmente as espíritas. os "católicos" com quem eu converso, de modo geral, não concebem o conceito. vai ver é por serem devotos de uma tradição, e não de uma religião. se fossem religiosos, se espiritualizariam, mas como seguidores de uma tradição, simplesmente seguem, e seguem, sem refletir sobre isso).

aí eu explico que o budismo não é adoração de um Deus. pra mim isso não teria sentido. em quê isso ajuda? é uma filosofia, e como tal exige reflexão, aprofundamento e prática. não repetição de rituais de forma vazia. prática. penso que o mundo é assim, vivo de acordo com isso, sabe? o budismo é uma religião ateísta porque não se dá em torno de um Deus. não existe isso. existe, toscamente resumindo, um exemplo a ser seguido (o Buddha), que é um ser espiritualmente iluminado por suas ações como homem. é isso. simples assim. e conectado ao mundo real como uma coisa que se faz todos os dias. não se tira o budismo das costas quando se vai pra aula, ou se entra numa sala de cinema. isso, eu acho, é a fé a rigor. se tu acredita em algo, que isso se constitua e seja constituído na tua pessoa.

e eu acredito que o ser humano deve ser bom simplesmente porque ser ruim afeta tudo. não por temer inferno (e eu temo. já pensou, um lugar pro qual o verão de porto alegre é ar condicionado no freezing?). acredito em ser bom porque pessoas e animais e plantas e tudo sofrem as conseqüências de todos os atos. coisas ruins geram conseqüências ruins.

e é por isso que eu acho muito interessante o Yom Kipur -- o Dia do Perdão, uma data do calendário judaico onde se ritualiza a expiação dos erros. porque o Yom Kipur é um dia onde as ofensas a Deus são "perdoadas". mas não as ofensas ao Outro. porque não é simplesmente assim, faz merda, espera o Yom Kipur (que neste ano é na noite de 21 de setembro) e aí tá limpo, porque tá tudo perdoado.

perdoar é uma coisa muito séria, quando se fala de religião. as pessoas estão acostumadas a viver num mundo (a cultura ocidental, especialmente) de culpa e perdão. sentem culpa o tempo todo, mas procuram a todo momento uma forma de tirar de cima de si a culpa (desculpar-se). usam recursos até bastante elaborados pra isso. porque a culpa é grande e conforme a sociedade adentra o século XXI, ela fica maior e mais complexa. alguns sentem culpa pela miséria alheia, então doam moedas de 10 centavos aos miseráveis. sentem culpa pelo planeta estar podre e com o ar e a água sujos, então elas olham a propaganda essa do posto de gasolina (colé mesmo? o Ipiranga?) e sentem que seus problemas acabaram, porque gastar dinheiro com uma certa gasolina faz com que a empresa plante algumas árvores que vão ANULAR as emissões de gases tóxicos do seu carro. assim funciona a expiação de culpa pós-moderna. por dispositivos oferecidos em pacotes bastante bem pensados numa reunião de brain-storming.

é cansativo fazer coisas responsáveis, então tem sempre "um imigrante latino que faz os serviços inferiores que nós americanos não queremos fazer".

perdoar é complexo, e se aplica a muito mais coisas que nós imaginamos. perdoar ou ser perdoado com soluções mágicas (reze um terço e devolverás à mocinha abusada a alegria de viver em um mundo onde velhos cretinos e impotentes não usam meninas de 8 anos como objeto sexual, apague seus pecados rezando duas ave-marias) é tradição. fé é muito mais que isso. quem tem fé mesmo compreende que Deus (pros que acreditam nele) absolve os crimes cometidos contra ele, perdoa as falhas humanas na manutenção da própria fé. mas que a vida ainda está profundamente marcada pelas conseqüências dos atos de cada um de nós. não se trata, o Yom Kipur, de perdoar. e sim de pagar pelos erros que se comete. é simbólico (sim, porque jejuar pelos erros cometidos contra Deus não apaga os erros cometidos contra o próximo). no dia seguinte, o jejum termina, mas cada ato de covardia e irresponsabilidade gera um sofrimento. que o jejum não apagou e nem vai apagar ano que vem. deve-se pensar antes. porque, como diria o meu pai, um batizado católico que acha missa de sétimo dia uma temeridade, pedir desculpas depois que tu arranca o braço de alguém é até ridículo.

[ Penkala ] 20:43 ] 6 comentários

 
eu uso óculos




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