] quarta-feira, março 19, 2008
 

É quando a gente entra em sala de aula com a lista de chamada, a responsabilidade pelas avaliações e com o nome escrito no programa da disciplina como PROFESSOR que se tem a nítida noção do quão difícil é ser professor. Todos nós já tivemos um, ao menos. E provavelmente tivemos teorias sobre como dar aquela aula melhor que ele. Eu tive vá-rios professores nessa vida. De alguns eu fiquei com trauma, de outros tenho muita saudade, e de outros, ainda, guardo no bolso reserva da mochila a minha gratidão por terem me ensinado tanta coisa. Mas a gente nunca tem noção do quanto é difícil ser professor a não ser que entre na sala de aula com uma folha de chamada, um programa de disciplina em teu nome e o poder real de decidir qual é o melhor dia pra aplicar uma prova (e principalmente, o poder de escolher as questões).

Eu sempre soube que minha vocação era estudar, não interessaria se isso seria um ganha pão. Na faculdade, eu percebi que não era exatamente só estudar a minha vocação, mas toda a vida acadêmica. E então eu quis ser professora. E os professores eram meus amigos. De verdade. Alguns, claro. De outros eu fugia, porque eram terríveis. Com muitos a gente saía pra tomar um café quente no bar gelado da faculdade. Mas só agora me dou conta de que professores não são nossos amigos. Eles são nossos mestres (ou não, claro, que nem sempre uma pessoa consegue ser mestre de alguém). É que nem pai e mãe: só viram amigos mesmo depois que tu sai da casa deles e não depende mais da tutela paterna. Lógico que tu sempre tem a proteção deles como pais, mas enquanto eles te criam, não podem ser teus amigos. Do contrário, caga tudo.

Assim é com os profs. Ok, na pós-graduação é o máximo de proximidade que tu vai ter de ser amigo de professor. Até por que, em muitos casos, tu é colega dele. Mas de resto, bom, ser amigo de professor não rola. Por que o cara tem que te dar zero se tu tá colando. O cara tem que te cobrar um monte de coisas das quais tu vai querer te livrar num momento ou outro. E ele vai ter pega contigo se tu resolver chegar atrasado todos os dias nas aulas dele. Afinal, ele tá lá pra te formar. E tu é um jovem estudante e a gente sabe que jovem + estudante = problema. Tu até quer estudar, mas tu não sabe disso. Tu até é uma pessoa bacana, mas tu quer provar que é invencível. Tu até é responsável, mas tem um fascínio secreto por parecer o fodalhão, e fodalhão, pelo menos na história do cinema, é o tipo James Dean, que não tá nem aí. Pior, é tipo Marlon Brando. Eu sei, eu sou estudante também.

Mas o mais difícil de ser professor é que tu tem que engolir a tua própria insegurança pra enfrentar uma sala de aula com 25, 30, às vezes 40 jovens estudantes que são uns cagalhões, mas ficam muito perfeitos fingindo que não. Tu sabe porque tu já foi uma e, eventualmente, continua sendo. Tu tem que te convencer o tempo todo de que tu estás ali virtualmente por que sabes mais que eles, apesar de saber, teórica e empiricamente, que não, tu não necessariamente sabe mais que eles. O que tu tem a teu favor é o tempo. E o tempo, sabe, né?, ele não perdoa a cara, os peito, a bunda, as pelanca debaixo do braço, mas até que é bacana quando se trata de cérebro (ok, depois dos 60, nem tão bacana). A gente aprende, com o tempo, a usar aquilo que a gente APENAS SABIA quando tinha 20. E a gente sabe muito melhor as coisas que sabíamos quando tínhamos 20. É uma questão de qualidade. É difícil porque tu tem que decodificar caras de aluno. Relativamente fácil fazer isso porque tu ainda é aluna. Então tu decodifica e o que aquela cara te diz é: “estúpida, tou aqui perdendo meu tempo, já sei tudo o que tu tá dizendo”. Às vezes a cara diz: “ok, não entendi nada. Agora me explica como se eu tivesse dois anos”. Mas é dureza. Tem que manter a voz, o tom, tem que manter cada um dos olhares presos, e evitar que eles façam contigo o que tu muitas vezes fizeste com os TEUS professores. Tu tem que fazer palhaçada e engolir em seco quando metade da turma fica com a cara aquela, a que diz “estúpida”.

Tu tem que conquistar a turma, mas sem dar a eles mais abertura que o necessário. E tu tem que aprender a lidar com a arrogância natural da juventude. Isso tudo sem deixar que eles te odeiem.


Foda, hein?


Mas eu adoro. E é ainda mais legal quando tu dá aula de uma coisa que tu realmente adora. É absolutamente empolgante quando tu tem que preparar aula de montagem e levar filmes do Chaplin e do Eisenstein pra sala de aula, e falar de como a montagem constrói sentido. E ficar lá na frente que nem uma palhaça, superempolgada com filmes que nasceram junto com a tua vó.

Eu-sim-ples-men-te-a-do-ro.


[ Penkala ] 16:04 ] 8 comentários

 
eu uso óculos




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