] sexta-feira, março 07, 2008
 
Sempre pensei muito em filhos. Não necessariamente nos sustos ("puta, não tava querendo isso agora, plis, dá negativo!" ou "e isso quer dizer que talvez eu venha a nunca poder ter filhos?"), nem nas horas em que todo mundo tem filhos na minha volta e eu vejo as carinhas das crianças. Nem nas lamentáveis horas em que eu me pego emocionada vendo All Stars micro numa loja. Eu tenho pensado neles pelo abismo que vai separar nossos mundos. Como quando a Alice me achar estúpida por dizer que no meu tempo o máximo da tecnologia era revelar foto 3x4 em 1 hora e do quanto eu fiquei surpresa que finalmente tinham resolvido fazer revelação de foto em 5 minutos. A Alice já vai nascer em um mundo onde várias coisas não vão ser novidade. Ok, isso não é também nenhuma novidade. Mas é comigo que acontece. Eu vou ter a memória do conceito de mundo em que carta demorava 2 dias no mínimo. O Pedro não. Ele vai nascer em um mundo onde, quando ele chegar a ser adulto, velhas burocracias vão ser tão ridículas quanto esperar 4 meses pra saber o sexo do nenê.

Pedro e Alice vão debochar da minha cara quando eu disser que tinha que pedir que o empacotador do super colocasse as compras na minha sacola trazida de casa, e não nos sacos plásticos. E vão fazer um esforço muito grande pra entender que quando a Internet surgiu na vida de mamãe e papai, a bixo de jornalismo aqui precisou de alguma boa explicação pra entender a lógica de uma home page.

Será que eles vão compreender no que consistia gravar músicas do rádio em fita k7? Será que vão viver em um mundo onde será preciso economizar água a fu porque ela é caríssima?

Tenho medo de não ser uma boa mãe, mas tenho mais medo ainda de não poder ser mãe. Minha mãe não teve esse medo. Minha avó, igual. Pensar em tentar engravidar mais de 2 anos e depois ter que fazer tratamento porque não podia ter filhos normalmente não passou pelas preocupações da minha mãe, e da mãe dela, e da mãe da mãe dela. Medo de trombose por uso de anticoncepcional, também não. Nem de infarto por stress. Minha mãe é psiquiatra, mas nunca pensou antes em se tratar pra resolver os traumas que ela com certeza teve. Assim como nunca tinha imaginado que um dia eu seria a filha chata que diria pra ela não usar tanta água enquanto escova os dentes, ou que ela deveria separar o lixo pra reciclagem.

Será que os fios já serão totalmente obsoletos quando formos instalar o primeiro computador do Pedro? Será que a Alice não vai ter um choque quando eu disser pra ela que camisinha era uma coisa que as meninas muitas vezes esqueciam, no meu tempo? Será que o Pedro vai querer estudar cinema e um dia eu vou ter que explicar pra ele que meu pai tinha um JVC maravilhoso e que alugávamos umas 10 fitas de vídeo por fim de semana? E que muitos cineastas não tinham grana pra pagar seus filmes porque revelação era uma coisa cara? Será que a Alice não vai querer fazer medicina que nem a vó dela e vai achar a coisa mais absurda fazer estágio em um hospital que não tem câmera endoscópica?

Ao mesmo tempo que tenho medo de dar ao Pedro e à Alice um mundo estragado, tenho esperança e estranhamento, porque vou dar a eles um mundo de coisas que eu nem sequer imaginaria hoje em dia. E vai ser bizarro se eles forem caretinhas e acharem muito chato a mãe ter tatuagem, piercing e os cabelos roxos. Se eu noto um abismo de gerações quando converso com gente de 22 anos, como vai ser quando meus filhos tiverem 18 e eu tiver, sei lá, 50, com muita sorte?

[ Penkala ] 21:39 ] 5 comentários

 
eu uso óculos




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