] terça-feira, março 11, 2008
 

Tenho um amigo que diz que quando ele pensa que eu sou budista, fica imaginando a cena em que eu enlouqueço vendo um pobre monge fazendo aquele paciencioso ritual de encher copinhos com água e tal. Essa seria uma caricatura minha bem própria, mas eu jamais faria isso com um monge. Ocorre que se eu estivesse a um passinho de formiga da pura perfeição espiritual, apenas uma micro-coisa me proibiria de me tornar um buddha, e essa coisa seria minha profunda e absoluta raiva da imbecilidade da humanidade.

Ou seja.

O cara vai lá e inventa a clorofina. Veja bem, clo-ro-fi-na. Que eu conheça, a não ser eu mesma, jamais existiu ceromano que conseguisse fazer uso da clorofina de forma no mínimo normal. E como as pessoas adoram limpar as coisas com aquela porcaria!

Tenho aversão. Porque me dá engulhos o cheiro. E tenho aversão a todas as pessoas que eu já vi usarem clorofina. Fora eu.

Porque toda vez é a mesma merda. Pode ver: lavar banheiro com clorofina pura é uma belezura. Fica tudo branquinho, né? Porque, veja, jogando ácido nas paredes dá o mesmo efeito. Corrói toda a sujeira, claro. Mas aí, no primeiro banho da pessoa, depois que o vapor se condensa nos azulejos, um desavisado se encosta na parede com a roupa e tá feita a merda. Ou o desavisado abaixa as calças pra sentar no vaso quando o chão do banheiro tá recém lavado: basta pra barra da calça ficar fudida. Considerando que a barra da calça deste ceromano aqui é sempre preta ou cinza ou escura o suficiente pra não suportar clorofina, eu tenho trauma de entrar em banheiro com chão molhado. Levanto a barra da calça feito aqueles véi quando vão sentar.

Muito, mas muito trauma.

Aí que já vi outras criaturas, durante 10 anos, colocarem clorofina na bancada da lavanderia. Perceba que bancada de lavanderia é o mesmo lugar onde tu pousa as roupas pra depois colocar na máquina ou quando tira da máquina, antes de estender. O resultado disso todo mundo sabe: sempre tinha uma roupa corrompida pela amiga clorofina.

Em sendo eu uma pessoa que usa praticamente só roupa preta...

Por isso, quando da primeira e única vez que chamei a senhorinha lá pra faxinar o apê, a primeira coisa que eu falei, temendo por todas as minhas camisetas pretas e todas as calças pretas e tudo preto nessa vida: “não usa clorofina de jeito nenhum”. “por quê?!?”, ela perguntou, já provavelmente pensando que eu estava tolhendo o ponto alto do dia dela. Numa fração de segundos eu realizei a cena, na qual eu estaria dizendo que não quero roupa estragada e ela dizendo “magiiiiiiiiina, eu tomo cuidado”. Que nem a criatura lá na casa de mami, que “nãããããããão, mas eu nunca uso clorofina nas roupas!”. Não, né? Só espalha pela bancada da lavanderia.

Respondi bem séria: “tenho alergia, só tem clorofina aqui em casa pra coisas extremamente urgentes e especiais, mas eu mesma nunca uso, porque tenho u-ma-ler-gia-que-fi-co-es-pi-r-ran-do hooooooras”. (ia falar que me dava engulhos, o cheiro?!)

Depois, na hora de ir embora, ela fez uma espécie de check-out: “não quebrei nada nem esqueci de limpar nada, né?”

(Detonou a parede preta da sala com a delicadeza peculiar pra largar a escada. Mais umas duas demão de preto naquela parede pra corrigir o estrago.)

Aí finalizou: “olha, eu aproveitei que tu tava longe e usei clorofina pra lavar o tanque de roupa, que tava muito escuro”. Tanque de pedra, vejam.

Amiga, olha, tanque de lavar roupa + resquícios de clorofina + roupa pra lavar = não, tu não toma cuidado com a porra da clorofina, né não?!

Ainda bem, né?, que eu não uso o tanque pra lavar roupas.

Mas o que eu acho mais desafiador do ponto de vista intelectual, e que contribui mais pra que meu iluminamento espiritual seja cada vez mais adiado, é a categoria de pessoas que lavam calçadas, marquises e terraços com clorofina. Eu adoro mesmo, até vou entrar numa comunidade dessas no orkut (tem?).

Certa vez eu andava pela calçada quando ouço um barulho de água sendo baldeada. Logo, uma cascata de água escorre do terraço/marquise por baixo do qual eu estava passando e atinge o chão. O chão, porque por acaso estava eu bem abaixo do terraço. Mas os respingos e alguns pingos voaram sobre a minha roupa.

Pausa muito séria pra pergunta: qual é o tipo de filha da puta cretina que acha que pode dar banho nas pessoas que passam numa calçada no centro da cidade?

A concentração de clorofina era tamanha naquela água que imediatamente a minha camiseta ficou petit pois. É com dois t isso? Azar.

Xinguei a filha da puta cretina. Ela me xingou de volta (?????!?). Eu perdi uma das camisetas que eu mais gostava.

Agora de novo. Marido e eu correndo pra pegar ônibus e, dobrando uma esquina, nos deparamos com uma cascata de “água”. Poças no chão, a cascata vindo do céu e uma avenida supermovimentada do lado, acompanhada de uma mega obra da prefeitura pra tapar um buraco que dava em Pequim. Todo o repentino cuidado pra não tomar um segundo banho não foi suficiente. Camiseta novinha com bolinhas de clorofina. Com os cumprimentos da churrascaria da esquina, agora reformadinha.

Mais uma vez: quem é o tipo de pessoa cretina e filha duma grande puta de merda que pensa que pode lavar sua marquise/terraço e o chão com água cheia de clorofina? Numa calçada movimentada e pública?

Será por isso que não vai sair nunca a minha iluminação? Porque eu odeio clorofina e quero que minhas roupas continuem pretas? Ou será por que eu tenho uma enorme vontade de encher de porrada essas pessoas sem noção?


[ Penkala ] 14:06 ] 7 comentários

 
eu uso óculos




CLICA QUE VAI:
www.flickr.com
Penkala's eu, casa & coisas photoset Penkala's eu, casa & coisas photoset

BLACK BIRD SINGING:

Get Firefox!








Powered by Blogger


RSS