] segunda-feira, abril 28, 2008
 
esse tal de Usher

ou

Nunca mais!
Nunca mais! Nunca mais!

na pré-adolescência eu era dark. e entrada na adolescência também. imaginem o que era isso na época em que não existia emo e nem butique de dark/punk/gótico! eram bons tempos.

pois eu era dark, mas raramente me vestia de preto, porque eu tinha 12 anos e minha mãe é que comprava as minhas roupas. na época, a única manifestação dark de que eu poderia dispor era o delineador. uso delineador desde os 12, portanto.

mas eu era dark mesmo. me tornei dark quando, já nerd e fã de Beatles desde os 9, eu comecei, com 11, a ler uns livros da estante da minha mãe e me deparei com um tal Edgar Allan Poe. logo depois, porque o livro era do mesmo tamanho e cor (preto) e ficava do lado desse do Edgar (Contos do Grotesco e do Arabesco), encontrei um tal Franz Kafka (O processo). aquilo pra mim era a tradução de tudo o que eu sentia e, mais, de tudo aquilo que eu escreveria caso tivesse talento. foi quando, oficialmente, comecei a escrever. e foi aí que eu descobri Augusto dos Anjos. só com 14, vejam, é que fui usar calça rasgada, roupas pretas, botinas estropiadas (e pretas). mas nessa época eu percebi que tudo aquilo que eu sentia era muito mais punk que dark, porque eu não era só uma chorona escrevendo sobre morte, mas uma revoltada que queria que o sistema se explodisse. ou que me sentia presa no sistema, como o sentiria Kafka.

a contradição é que eu era militante política desde os 11 e, mais tarde, quando entrei pra faculdade, tive um breve devaneio hippie/grunge. digo isso assim abertamente antes que venham na minha casa e encontrem aquela foto minha com vestidão longo e camisa xadrez, nuns cabelão Alanis Way. eu avisei.

os ídolos, Kafka, Poe e Che continuaram, embora eu tenha retrocedido aos 14 anos e percebido que eu estava certa ao abraçar o anarco-comunismo do meu avô e redondamente errada em pensar que o meu eu punk era adolescente e meu eu hippie é que estava certo.

e foi então que eu continuei dark/punk e, anos depois, acabei presenciando o admirável mundo novo e aquilo que eu levei de tempo pra achar coisas do Poe nos meus 12 anos foi transformado em eras se comparado ao tempo no mundo fantástico da internet.

e veio o orkut, e uma das primeira coisas que eu fiz no orkut foi criar uma comunidade chamada CASA DE USHER. nela eu abriria espaço pros fãs do Poe, sujeito que tem a foto estampando o perfil da comunidade. a descrição dela é assim: "Aqui jazem os que sabem porque nunca se deve apostar a cabeça com o diabo." os fãs de Poe sabem muito bem o que significa essa descrição.

hoje, entrando no meu perfil, vejo um scrap assim: "Oiie ! Só uma duvida vc é a Dona da comu "Casa de Usher"? Quem é esse Usher? See nao poder responder tudo beem! BjO"

A menina, com um nome fantasia e uma foto no melhor estilo "uso o photoshop pra fazer montagens góticas assustadoras", teria tudo pra ser uma versão minha há 18 anos. Mas eu juro que eu me senti bem Dirty Harry depois de vasculhas as comunidades da moça, e morrendo de vontade de perguntar "you've got to ask yourself a question: Do I feel lucky? Well, do ya, punk? " (trocando, lógico, o punk, que na época do Callahan era o que hoje ele chamaria de "emo"). Não tive opção outra que não a de responder como uma vovó, dizendo que A QUEDA DA CASA DE USHER era o nome de um conto do EDGAR ALLAN POE e que aquela comunidade era dedicada aos fãs do escritor.

e foi assim que o meu eu de 12 anos chegou do meu lado, sentou e me disse: "podias bem ter respondido com poesia e oferecido versos muito íntimos pra essa guria!". mas como vovó, eu deixo passar. não por ser boazinha, mas porque na hora meu espírito de porco sempre dá uma escapadinha e eu retardo na resposta.

. . .

Vês! Ninguém assistiu ao formidável
Enterro de tua última quimera.
Somente a Ingratidão - esta pantera -
Foi tua companheira inseparável!

Acostuma-te à lama que te espera!
O Homem, que, nesta terra miserável,
Mora, entre feras, sente inevitável
Necessidade de também ser fera.

Toma um fósforo. Acende teu cigarro!
O beijo, amigo, é a véspera do escarro,
A mão que afaga é a mesma que apedreja.

Se a alguém causa inda pena a tua chaga,
Apedreja essa mão vil que te afaga,
Escarra nessa boca que te beija!

(Augusto dos Anjos, VERSOS ÍNTIMOS)


[ Penkala ] 14:34 ] 6 comentários

 
eu uso óculos




CLICA QUE VAI:
www.flickr.com
Penkala's eu, casa & coisas photoset Penkala's eu, casa & coisas photoset

BLACK BIRD SINGING:

Get Firefox!








Powered by Blogger


RSS