] segunda-feira, abril 21, 2008
 
que estranho vazio é esse que eu tenho sentido? que falta de propósito é essa que eu tenho sentido? que falta de sentido é essa que eu tenho vivido? é como se eu tivesse um dia me acordado me dando o seguinte recado: vou ali fazer *** e já volto. só que voltei a dormir e, quando acordei, me dei conta de que tinha saído, mas não sabia se o recado tinha sido um sonho. e, pior, não lembro de que recado era.

há meses me espero, sentada na sala no escuro olhando fixamente pra porta. é madrugada e não chego. um dia se passa e eu não chego. parece que estou escutando a chave entrando na porta, mas eu nunca chego. pra onde eu fui?

o que eu queria dizer com "já volto"? onde eu teria ido?

eu sinto como se tivesse saído de mim mesma. me afastei, aos poucos, sem nem olhar pra trás. de repente me dou por conta e, abrindo os braços na altura do peito, pergunto, olhando pros lados pra ver se conquisto adesão, "ué?!". ninguém adere. ninguém me olha no olho. ninguém parece compreender por que estou ali, cara rachada, esperando por algo que não sei o que é.

a cada dia que passa, a minha ausência é mais surreal. me ausentei de mim mesmo numa tarde morna de verão e nunca mais voltei. talvez faça mais tempo, não sei. mas eu fui. e não tive notícias ainda.

sem mim, não consigo fazer nada. não consigo estudar. não consigo me interessar pelos interesses que eu tenho. não consigo me gostar. assim, ausente, é difícil mesmo manter o amor. as distâncias corroem, e o tempo lava os últimos pedaços, ainda presos por mero acaso. não me reconheço. estou esquizofrenizando? emburreci ou será que saí levando o cérebro? é como se tudo o que eu dissesse passasse por um alto falante sobre a minha cabeça, que está vazia e nela reverbera uma onda sonora distante e sem sentido.

é como perder o controle motor. quando se quer pegar uma coisa e não se consegue porque a mão escapa. quando se quer fazer um traço sob o olho e não se atinge a pele, mas o globo ocular.

então eu páro, seguro a mão. a sensação é de que o controle nunca mais vai voltar. mas eu espero passar e eventualmente passa. eu, apesar disso, ainda não voltei. está demorando. eu sinto solidão. porque não há maior solidão que a solidão de si mesmo. é como se eu fosse um autômato. ando indo ao banheiro. ando tomando chá. ando me alimentando da mesma maneira horrenda dos últimos anos. mas falta alguma coisa e o buraco, cada vez mais alargado, começa a secar sem preenchimento. assim as bordas criam casca e curam, com o tempo. e nunca mais, se eu voltar, vou poder me preencher.

outro dia quis me achar bem bonita pra esperar meus trinta anos. apesar de não fazer sentido pensar em 30 anos, assim como não o faria se fossem 29 ou 31, ou 27, pensei que estou ausente faz tempo demais.

estou sozinha sentada num trem em alta velocidade e eu sou muda. só eu conheço a senha pro maquinista dobrar ou parar na estação que eu quero. só eu tenho a chave pra entrar em casa. eu vejo a paisagem passando, mas estou sozinha. há muitas estações eu desci e desde então o trem não para. por estar sozinha, tenho vontade de sumir. e se eu sumir, não tenho como me reencontrar. porque só eu mesma carrego as chaves e as senhas e as coisas todas necessárias pra chegar e entrar. é uma espera impaciente, mas sedada, porque sem mim, eu também sou ninguém.

e ninguém é mais sozinho que eu agora.

[ Penkala ] 00:17 ] 1 comentários

 
eu uso óculos




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