] segunda-feira, julho 07, 2008
 
a vida é hardcore

meu pai e minha mãe sempre foram pessoas generosas. cada um a seu modo, sempre foram generosos. minha mãe faz esparro, como toda mãe portuguesa. mas sempre dá tudo o que pode. meu pai não faz esparro. ele simplesmente dá e não questiona. mesmo assim, nunca fomos criadas como mimadas meninas que tudo podem. até porque não podia, né? minha infância foi maravilhosa, mas durante muito tempo não tivemos dinheiro pra muita coisa. só que o pai e a mãe davam jeito de tudo. eles tinham a crença de que as crianças não deviam ficar sabendo dos bastidores. ou seja: do quanto era difícil tudo. e, mesmo assim, sempre nos passaram a exata medida do que era a vida. nada era de graça. é preciso se esforçar. trabalho é o único jeito honesto de conseguir as coisas. estudar é a única maneira de conseguir subir no mundo do trabalho. ser melhor em tudo, mas não achar que é melhor do que ninguém.

tanto que a gente, quando começou a sair, esperava o pai dizer: "guria, tu não precisa de uns pila, não?". (agora me lembrei da actea) eu, pelo menos, sempre saía sem pedir um puto pila. principalmente na época da faculdade, que já achava de bom tamanho eles pagarem a mensalidade. era sempre o pai que me chamava de volta e dizia: precisa do que? 10 pila?

e o pai sempre me fez lembrar, apesar de eu ser uma idiotinha, que a vida real era dura. de um lado, eu tinha a total noção de que a vida é dura. na teoria. só quem tem 15 anos mesmo pra achar que saber teoria é saber a prática. porque na prática a vida real é dura, e tu só descobre isso quando tu toma uma no meio da cara. então eu era idiotinha e quando entrei pra faculdade eu mal sabia pegar ônibus sozinha. nem pagar conta num banco. porque meus pais também acreditavam numas de que eles tiveram que trabalhar desde criança e saber das merdas da vida desde cedo e que, portanto, iam nos poupar de ter que crescer na marra. eles fizeram o que podiam, claro, e o que achavam que era o melhor pra nós. na teoria, dava certo. e eles achavam que na teoria podiam nos mostrar que a vida real era dureza.

mas eu sou a irmã mais velha. peguei a época de maior dificuldade, estudei em faculdade particular (depois de sair da escola pública da vida toda) porque meu curso era só na universidade privada. minha mãe tinha recém se formado médica quando eu entrei pra faculdade, então a vida ainda tava se estruturando. na faculdade, não arranjava estágio e nem emprego (estágio em jornalismo em pelotas não existia). me virava como dava. eu fazia cartões pintados à mão pra tirar uns trocos. e depois camisetas. mas nunca tinha um puto pra comprar livros (deve ser por isso que eu sempre compro livro quando posso agora). depois da faculdade, com meu primeiro emprego, continuei pagando a faculdade (os 50% restantes, da "bolsa" que eu recebia durante o tempo que estudei). aí juntei dinheiro e comprei umas coisinhas e saí de casa pra casar. e depois, saí de pelotas pra trabalhar em poa e, quem sabe, fazer mestrado. depois entrei no mestrado e tive que largar o emprego. aí o pai deu uma força e acabou de pagar as mensalidades que faltavam. depois entrei no doutorado, trabalhando. depois perdi o emprego, mas continuo no doutorado. duas coisas, das mais azedas que meu pai dizia, eu sempre guardei comigo, e são as verdades teóricas e práticas mais certas que conheço: a) a vida real é dura; e b) tudo o que a gente faz tem conseqüências.

mas aí a minha irmã, que teve que ir pro colégio particular pra poder ter uma formação melhor da que o público tava oferecendo naquele momento, e que depois escolheu um curso e, com cursinho, passou na faculdade pública que ela tinha escolhido, a minha irmã pegou pai e mãe mais amaciados. além de amaciados, numa fase mais light. com a vida mais ganha. não teve que trabalhar, e nem teve que fazer uns troco pra comprar suas coisas, porque o pai era justo e, se
tinha dado a faculdade pra uma, ia ajudar a outra comprando os livros e essas coisas. apesar de tudo, a minha irmã nunca soube, na prática, o que a teoria do pai e da mãe ensinavam. e com o tempo ela deixou de acreditar na teoria. porque os pais cometem erros terríveis quando querem fazer o maior dos acertos: não deixar o filho passar dificuldade. porque, sério, eu não tenho nada que reclamar do que os meus pais me deram ou deixaram de me dar. e não tenho nenhuma espécie de sensação de desequilíbrio com relação ao que eles deram pra mim e pra minha irmã. tudo o que eles deram pra ela eu acho que, por mim, beleza, porque eles sempre foram justos. não nos tratando como iguais, mas tratando cada uma de acordo com as suas necessidades.

mas os pais cometem erros. e o erro dos meus pais foi achar que é muito bom poder dar aos filhos tudo o que eles precisam antes de eles se governarem. meus pais estão cansados. envelhecidos. e, na flor das possibilidades, dão pra minha irmã tudo o que ela precisa. mas estão sofrendo as conseqüências de não darem o que ela mais precisa nessa vida. noção. porque ela tá faz tanto tempo no ninho que acha que "a vida real é dura" e "tudo o que a gente faz tem conseqüências" é só uma lenda urbana. pai e mãe nunca enxergam que uma porrada "a vida é dura" style dada por eles é muito menos dolorida que uma dessas dada pela vida itself. pai e mãe sempre acham que não podem causar dor a um filho. e não enxergam que tem dores que são importantes.

é muito difícil ser pai. se eu, que estou enxergando de fora, estou aqui muito mal, e achando tudo muito surreal, imagina os meus pais! que acabaram de perceber que, pro bem da saúde deles, e pro bem de todos os dentes da boca da minha irmã, é melhor que ela leve porrada deles que da vida. e que se deram conta agora de que eles não sabem mais como é dar porrada em filho, porque eles passaram anos sentindo o enorme prazer que é poder fazer tudo o que o filho quer. e é muito surreal, e muito dolorido também, ter que lembrar pros teus próprios pais daquilo que eles sempre te disseram: a vida é hardcore. pelo bem da irmã mais nova, pela sanidade dos teus pais mais envelhecidos que velhos, pela manutenção da tua consciência de irmã mais velha que sempre quis dar conselho, tu ter que conversar de cantinho com teus pais e dizer verdades é muito surreal. se criar filhos adolescentes é um desafio pra poucos, criar adolescentes tardios, de 25 anos, é pior ainda. porque tu pensou que nunca mais ia ter que dizer: "não é não e tá acabado" e, de repente, tu te vê tendo que chorar no quarto, escondido, de novo, porque fazer uma coisa "pro bem" do filho nem sempre dói menos.

[ Penkala ] 20:51 ] 0 comentários

 
eu uso óculos




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