] quarta-feira, agosto 20, 2008
 
eu vi wenders (parte II)

vim falar sobre wenders de novo. a fala dele. por coincidência, um dos temas da conferência dele no Fronteiras é um dos pensamentos que mais tem ocupado a minha cabeça (fora todas as coisas relacionadas ao doutorado, o que já é muuuuuuuuuuita coisa. e fora o fato de que eu preciso descobrir como lavar a louça sem sentir, por mágica): o sentimento de lugar.

na verdade, não só de lugar, mas mais que isso, o sentimento de pertença.

eu sou filha de imigrante. e meu pai nasceu em outra cidade. e os meus avós são todos de fora. uns da colônia, uns da europa, os bizavós todos da europa mesmo. já é hereditário, então, o sentimento muito forte de não pertencer ao mundo. o sentimento de não ter casa.

moro em poa faz 6 anos agora no fim de outubro. e não me sinto em casa em nenhum dos três lugares em que já morei aqui. mas aos poucos também não me sinto em casa no lugar onde nasci.

quando deixei pelotas, levei comigo, como todo o andarilho em marcha, uma pelotas minha. ao longo dos anos, nessa pelotas minha fui colocando coisinhas da minha pelotas, mas imaginárias, porque só podia tê-las de memória. acontece que sempre que eu levo a minha pelotas pra pelotas, elas não se encaixam. e cada vez se encaixam menos.

wenders falou de nascer em uma alemanha envergonhada e culpada. um país quase totalmente destruído (ele nasceu em 45). e de, desde que se conhecia por gente, querer deixar sua terra pra trás. por isso se autodefine como um viajante. diferente do turista, que está irremediavelmente não em casa, o viajante não tem casa. e a cinematografia dele só comprova isso. filmes tão ímpares como BUENA VISTA SOCIAL CLUB, um documentário feito em cuba; ASAS DO DESEJO, o belíssimo filme em berlin; O CÉU DE LISBOA, na própria lisboa... um cineasta que sempre busca o que existe nos lugares e nas pessoas. que busca um cinema da experiência (pelo amor de deus, eu tinha escrito esperiência, maldito escrever como se diz, caraças!). "obrigado pela diversão", diz ele aos filmes norte-americanos. mas não é o cinema que ele quer fazer e nem o que ele quer ver. se chega a um lugar e se depara com 15 filmes na programação de um cinema, e um deles é um documentário, é esse que ele vai ver.

é a tal da experiência, o sentimento de lugar que é como nenhum outro jamais poderia ser.

"pra começar, não tentem imitar eles", responde wenders (tradução minha) pro gerbase, que pergunta ao gênio como lidar com o cinema norte-americano? wenders quer um cinema que ninguém mais poderia fazer. ele quer isso pra si e pros outros. porque no fim, é só isso que interessa mesmo. a diversão de um blockbuster é boa, mas isso não move o mundo.

apesar de não ter fronteiras (pro próprio pensamento, pro seu cinema, pro que pensa do mundo, pros próprios pés), wenders fala que as fronteiras também são boas. porque elas ajudam a definir as identidades. e as identidades são aquilo que ninguém pode tirar da gente. mas, infelizmente, reflete ele, o mundo se encaminha pra uma enfadonha mesmice, pra uma uniformidade. embora a desigualdade social continue, todos os lugares estão absurdamente se parecendo com todos os lugares. vá até a china, meu amigo tão afeito ao bum dessa nova civilização. é uma profusão de Kentucky Fried Chicken, McDonald's e Burger King por todo lado. assim como porto alegre, lisboa, barcelona, belo horizonte... todos os lugares estão querendo ficar iguais. assim não há choque quando os turistas sairem de casa e forem visitar outras culturas.

apoiem a produção local, diz Wenders.

o que fazer com esse cinema norte-americano?, perguntou gerbase. wenders responde: não se preocupem com eles, eles vão sobreviver.

o que fazer? parem de achar que o cinema norte-americano é melhor que todos. ele é o melhor cinema norte-americano de todos. no mais, ele é apenas diferente. porque o que constitui o cinema não é a qualidade de som e o orçamento gasto nele. é o que ele nos dá. apreciem o local, sejam abertos a todos os cinemas, eu diria. tem gosto pra tudo, mas não há só um sabor nesse mundo. não enquanto a gente não experimentar de tudo um pouco.

por que os norte americanos se deram bem na indústria do cinema e por que eles fazem isso tão bem e por que é tão admirável e por que o estilo de vida deles domina? porque cedo, diz Wenders, eles entenderam que aquilo tinha força. em cada filme está lá a identidade orgulhosa delas. e nós vestimos essa identidade desde sempre. só que essa não é a nossa identidade.

as imagens, ele disse lá na conferência, são a mais potente arma do mundo.

e foi por isso que eu fui lá agradecer pro cara.

porque ele é tudo isso.



mais sobre a conferência:

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FRONTEIRAS 2
FRONTEIRAS 3

[ Penkala ] 23:06 ] 2 comentários

 
eu uso óculos




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