] quinta-feira, setembro 18, 2008
 
dizer que ENSAIO SOBRE A CEGUEIRA (filme de Fernando Meirelles baseado na obra homônima do Saramago) é um filme forte é muito pobre. irresponsável, até. porque não é um filme forte, não. é um filme duro, isso é. mas não é forte porque a realidade está ali, tal qual como vemos. ou deixamos de ver. o mérito de Saramago neste que é um dos principais livros do século XX não é outro que não o mérito maior dele: enxergar. Saramago enxerga a humanidade como talvez muito, mas muito poucos sejam capazes. E esse poder é tamanho que nem os mais reacionários, nem os mais cínicos, nem os mais idiotas são capazes de levantar voz contra o que ele é ou diz. Porque, como um velho de 890 anos, ele viu tudo, vê tudo, sabe tudo e compreende tudo. E, como um jovem de 16, ele critica.




ENSAIO SOBRE A CEGUEIRA não é senão a mais óbvia e mais perfeita metáfora sobre a humanidade. isso, de ser óbvio, tiraria seu mérito (não o literário, que Saramago tem uma das melhores e mais elegantes escritas da história) não fosse o fato de que a maioria das pessoas sequer compreende o que ele está dizendo aqui, que dirá achar óbvio.

porque pra mim não há nada mais próprio que chamar ao que estamos vivendo há décadas de cegueira. não a cegueira mais óbvia ainda de não vermos os pobres, os desesperados, as guerras, as obscenidades. a cegueira vil de quem não enxerga absolutamente nada, ainda que a luz esteja por toda parte. as luzes não se apagaram. pelo contrário, elas se acenderam todas juntas. e somos cegos estúpidos topando em quinas de mesas que não existem. escorregando, pelos cantos, em nosso próprio excremento. desesperados pela impossibilidade de ver, nos tornamos todos muito feios. uma feiúra que os outros, tão feios quanto, não enxergam. a não ser quando nos toca.

por muitas vezes me peguei pensando, como no momento em que a esposa flagra o marido médico transando com a ex-prostituta, que bondade tem limites e que se fosse comigo, eu matava. depois, tirando a carapuça de quem sempre vive pensando "se fosse comigo", imaginei que se fosse comigo, eu talvez não fosse, na realidade, a que enxerga. não por falta de "bondade". não que aquilo fosse bondade, ela "perdoar". eu não estaria enxergando porque me veria como alguém que, ao contrário dos outros, enxerga muito bem. eu estaria no lugar de superioridade que a extrema bondade esconde nessas pessoas que são puro altruísmo. a esposa não foi boa ao perdoar. ela sequer perdoou. ela simplesmente, com os olhos que tinha, via naquele homem, assim como em todos os outros ali dentro, não mais um homem, mas um ser que é capaz de gritar por um pedaço de pão, mas não é capaz de limpar as próprias fezes do chão.

se ninguém em ENSAIO SOBRE A CEGUEIRA tem nome, não é porque isso é estilo do Saramago, mas porque não existe como dar nome a absolutamente toda a humanidade. o que importa, se ali estão todos aqueles que não somos nós e, ainda, todos nós?

ENSAIO SOBRE A CEGUEIRA é um filme que mostra a nossa própria incapacidade de enxergar. tenho até vergonha de dizer isso aqui como se fosse, assim, um insight. o triste é que filmes como esse são alvos da prolixa sabedoria dos intelectualóides enquanto que estes repetem, pra si mesmos, sem que ninguém ouça, que acharam óbvio de mais.

mas é claro que é óbvio. o óbvio é ouro em terra de imbecis. o olho não é título em terra de cegos? pois eu sinto muito avisar, mas mesmo os que acham que compreenderam o filme, ainda estão cegos. porque a cegueira branca é aquela que cega por insistência da visão. é aquela que cega depois de tanto pedir pra ver. é aquela que faz de um olho são um olho cego porque de tudo o que havia pra ser mostrado, tudo já foi mostrado. os cegos da cegueira branca são cegos porque acham que tudo está aí para ser visto, que já viram. não se furtam em dizer que já viram. apressados, já vi, já vi. a cegueira branca é luz.



a cegueira que Saramago descreve como um documentarista, e que Meirelles mostra como um Eisenstein histérico no esforço de dizer a verdade, essa cegueira é a luz primeira, a luz que primeiro nos deixa tontos, depois nos ofende as vistas, depois, ainda, nos queima a retina pra, dum momento para o outro, iluminar de tal forma o mundo que seria capaz de fazer a luz do dia durar 24 horas.

calvário não é o da cegueira. é o de quem, podendo ver, precisa compreender a condição de cego, precisa tropeçar, fingindo espanto, precisa se deixar levar pelas guias dos que não sabem outra coisa se não rodar em busca do próprio rabo, e aí, fingir que não enxerga. calvário é o de quem precisa anular a si porque os outros viraram incapazes. ou sempre foram e só agora assumem. calvário é o de quem já percorreu os caminhos mais difíceis, volta a ser simples, enxerga tudo pela frente e ainda assim é tomado como básico, enquanto que na verdade é a única chance de visão.

quando a esposa está pouco atenta ao papo do marido, está mais preocupada em fazer tiramissu, em bater o merengue, em servir a mesa, tomar um vinho que não faz dela menos atenta, todos pensamos que ela é simplória. se nós tivéssemos visto tudo, e nossos olhos enxergassem com tamanha clareza, estaríamos todos mais preocupados com o tiramissu que com qualquer outra coisa.

a óbvia crítica ao Estado, que é de lei em Saramago, "parece" mesmo passar batida no meio de tanta coisa. mas o filme é certeiro quando mostra a ministra da saúde achando que é como todo mundo, também por causa da cegueira. se é na cegueira que ela pensa que se iguala a todos, é mesmo na incapacidade de ver os outros que ela se coloca lado a lado com cada idiota sem rumo que perdeu a visão. se igualando aos outros ela, ao contrário de mostrar empatia, demonstra que sim, como os outros, ela não enxerga um palmo além do nariz. metáfora disso é seu pronunciamento, vestida de branco, para a televisão. quem é o incapaz de raciocínio que chega ao cúmulo de usar a TV para informar cegos?, chegam a se perguntar os quarentenados.

por que a esposa vai com o marido pra quarentena, embora esteja livre da doença? não é tão óbvio quanto pensar que ela queria cuidar do marido, que sem ela ele estaria perdido, apesar de ser ele um "curador de cegueiras". tenho duas hipóteses, as quais podem estar juntas: ou ela estava torcendo pra ficar cega também, porque só assim compreenderia a estupidez de todos os que não enxergam; ou ela foi porque simplesmente não faz diferença: para os que enxergam, é viver numa prisão, num regime escravo ter que servir de guia. pra ela tanto fazia ir com ele ou ficar. ela só seria livre quando todos enxergassem mesmo... e isso só dependeria de suas vontades murchas.

quando, ao final do filme, a esposa pensa ter ficado cega, olhando pro céu tão branco e estupefata de que os cegos todos finalmente começariam a enxergar, não era por medo de ficar cega, mas por medo de estar tão cercada por cegos que pudesse pegar deles a triste doença de não enxergar.

neste momento eu acho que o Fernando Meirelles deve se sentir um rei, porque até Saramago ele mesmo, com uma generosidade honesta que só os mais críticos podem ter, afirmou que o filme é tanto quanto o livro. e ser capaz de mostrar a cegueira no cinema não é pra todos. ter só Cidade de Deus, O jardineiro fiel e Ensaio sobre a cegueira no currículo já bastaria pra ele morrer como um dos melhores diretores de cinema do século XX.



"a única coisa mais aterrorizante que a cegueira é ser a única que pode enxergar..."

...

"Desta vez, a expressão do pessimismo de um escritor de Portugal não vai manifestar-se pelos habituais canais do lirismo melancólico que nos caracteriza. Será cruel, descarnado, nem o estilo lá estará para lhe suavizar as arestas. No Ensaio não se lacrimejam as mágoas íntimas de personagens inventadas, o que ali se estará gritando é esta interminável e absurda dor do mundo." (SARAMAGO, José. Cadernos de Lanzarote - Diário III. Lisboa: Caminho, 1996. p. 58)

[ Penkala ] 13:39 ] 4 comentários

 
eu uso óculos




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