] terça-feira, outubro 07, 2008
 
falta pouco pro dia dos professores. na faculdade onde trabalho, teremos feriado. na faculdade onde dou aulas como estagiária docente, não. devido às circunstâncias, eu estou adorando, mas não sou das favoráveis ao feriado nesse dia, uma vez que já temos o dia dos trabalhadores pra folgar. e não tou sendo cú-de-ferro, hein?

apesar de não ser pelo feriado, nem contra e nem a favor, na verdade, acho que os professores todos merecem respeito. e não estou dizendo isso como uma. estou dizendo como aluna. e não é o feriado que me dá respeito, mas cada ação de cada aluno.

óbvio que já debochei de professor. já fiz piadinhas. como toda adolescente, como toda criança. no nível, claro, do normal. tão normal que eu não fico ofendida imaginando que meus alunos, eventualmente, devem fazer piadinhas a meu respeito pelas costas. alguns, claro. ninguém é obrigado a gostar do professor. assim como nenhum professor tem que gostar dos alunos.

eu faço todo o esforço que está ao meu alcance pra que a maior parte dos meus alunos goste de mim. não a ponto de erguer busto meu numa praça (sairia caro, visto que teriam que usar uma quantidade enorme de material), mas a ponto de querer vir pra minha aula todas as vezes e ter prazer em assistir a uma aula minha. porque eu sou totalmente contra quem acha que aprender é um sacrifício, ainda que um sacrifício válido/necessário.

aprender não é sacrifício. se faz sacrifícios pra aprender, mas os inevitáveis, como queimar a mufa estudando conceitos complicados, ou trabalhar pra pagar a mensalidade, ou correr pra poder chegar na aula a tempo, mesmo sacrificando outras coisas.

e num espaço pequeno de tempo duas situações envolvendo professores me chamam a atenção por serem da ordem do surreal. primeiro foi a recepção dos representantes do CPERS pela tropa de choque da Brigada Militar, quando aqueles tentavam ser recebidos pelo governo estadual, em protesto que se deu em frente ao Palácio Piratini. apesar de achar que o CPERS está tendo que calar a boca depois de sempre criticar os governos petistas e muitas vezes envolver uma ideologia direitista no meio de suas (justas) lutas, já que agora estão sendo mais desrespeitados que nunca pelo governo conservador e truculento da Yeda, a questão que me avilta é a tropa de choque. contra professores, caramba! polícia militar foi criada pra combate a guerrilheiros, na época de mais repressão da Ditadura. e mandam o choque pra cima dos professores? o que que é isso?

a outra questão aconteceu hoje. eu entendo alunos que trabalham. eu já fui e continuo sendo uma aluna que trabalha. embora não mude muito a situação em questão, ao contrário da maioria dos meus alunos eu ajudo a sustentar a minha casa, já que não vivo mais com meus pais, portanto meu trabalho é essencial. eu sei o quanto é difícil trabalhar e estudar. principalmente em se tratando de comunicação, que é uma área onde se abusa muito dos horários dos funcionários e, mais ainda, dos estagiários. é uma área onde muitos estudantes trabalham como profissionais, ainda que não tenham diploma, pois nem todos os cursos da comunicação exigem diploma (atualmente, quase nos encaminhamos pra que mais um deles deixe de exigir diplima, aliás).

a maioria dos meus alunos trabalha. a maioria, portanto, passa pelas mesmas dificuldades que todos aqueles que trabalham e estudam passam. as mesmas pelas quais eu passo, já que tenho o doutorado e meu trabalho e meus frees e etc e etc. mas considerando que precisam do crédito da minha disciplina, (quase) todos buscam chegar na hora e (quase) todos buscam vir a todas as aulas. alguns entram 15 minutos depois e pedem desculpas. outros chegam antes mesmo do horário. e alguns chegam quando falta menos de 20 minutos pra aula acabar.

em uma turma grande, o barulho é enorme quando o desconforto generalizado dos (imensa, esmagadora maioria) que se esforçam pra chegar cedo percebem a má fé de quem, aula sim outra também, chega no final da aula. seria cômico não fosse uma das muitas faltas de respeito: atrapalham a turma, que está prestando atenção no conteúdo. seria ridículo, não fosse a outra das faltas de respeito: tendo pedido, no primeiro dia de aula, pra apenas vir nas provas e entregas de trabalhos, mas passar na disciplina como aluno não presencial (disciplina teórica, com exercícios e absolutamente presencial), e tendo recebido um não como resposta, os alunos vieram à metade das aulas, e sempre 20 minutos antes destas acabarem (1h20 de atraso, portanto).

seria, com certeza, absurdo, não fosse a tentativa de vencer pela insistência e arrogância. o argumento, no primeiro dia de aula, foi que trabalhar em agência é complicado, que se sai nos horários mais absurdos. eu sei. eu compreendo. trabalhei em e com agências. o mercado de trabalho nunca é fácil, e as agências são uma das fatias mais complicadas. mas assim como não se tem a cara de pau de pedir pro chefe pagar salário a quem não comparece ao trabalho, não se deve ter igual cara de pau de pedir pra apenas vir para as provas e entregas de trabalhos e ainda assim passar na disciplina. não se deve, principalmente, ter a cara de pau de insistir e chegar nos 20 minutos finais da aula.

e eu seria sacana com todos os alunos que (e eu sei disso) saem mais cedo de seus trabalhos em agências ou o que seja pra chegar em minha aula. eu seria sacana com os que pegam engarrafamento na goethe, com os que ficam travados na ipiranga, com os que pegam o universitária lotado, se permitisse a dois alunos, que trabalham na mesma agência, o benefício da ausência premiada. eu estaria dizendo a todos os alunos: vale a pena ser sacana, viu?

quando se está no final da faculdade e se consegue emprego, das duas, uma: ou concilia os dois, ou escolhe um. considerando que a faculdade está sendo cursada justamente pra dar suporte a esse emprego, justamente pra poder garantir o emprego ou o contrato no final de um estágio, a escolha, que é difícil, sempre deve ser pela faculdade. ou, do contrário, o aluno precisa assumir: o emprego é mais importante, então adeus faculdade.

alunos que estudam de graça deveriam dar ainda mais peso para a faculdade.

o que acontece é que hoje presenciei o momento mais surreal dessa ainda curta carreira como professora. e vou até assumir, agora que é passada toda a revolta e indignação, que a culpa é minha.

eu sou o tipo de professora que releva. que entende. que dá chance. que dá mais benefícios que a maioria dos professores que tive na faculdade deu. mas eu sou, também, adepta do respeito. eu exijo respeito em sala de aula, porque, principalmente, respeito cada um dos meus alunos. respeito cada um como gente, como alunos, como estudantes. respeito também porque são trabalhadores, a maioria. e também exijo disciplina. não abro mão de prazos respeitados à risca na entrega de trabalhos, a não ser que o prazo seja maleável por definição prévia.

prova? bom, a prova começa 18h30 e acaba às 20h10. querem chegar depois do horário?, por mim, sem problemas. mas assumam a) que vão ter menos tempo pra desenvolver uma prova dissertativa e b) que não poderão entrar (o que significa ZERO na prova) caso algum outro colega já tenha saído da sala.

regras estas que seriam risíveis visto que, além de muito frouxas, são bem o contrário da maioria das regras do mundo real. mas eu faço isso justamente porque eles são adultos e devem respeitar as regras por respeito e não por medo.

definido isso, enquanto 99% da turma entra em alvoroço tentando adivinhar que questões vou perguntar na prova e quantas serão, a afronta surreal:

primeiro, uma revolta quanto à impossibilidade de entrar depois que um colega sai, já que a prova é com consulta e dissertativa. eu me pergunto, nesse momento, se eu não merecia tomar porrada, já que em nenhuma prova eles podem chegar depois do horário e quem tá dando chance de mais sou eu. respondo a verdade: por respeito aos colegas e para que depois, quando não tiverem tempo de desenvolver as questões da prova, não reclamem.

aí, a arrogância:



- e se chegar depois de um aluno ter saído...?
- perde a prova - eu respondo.
- ah, então ou perde a prova, ou perde o emprego?

aí eu, que estou, nesse momento, incrédula de estar ouvindo isso, ME pergunto: mas então poderia chegar aqui faltando 5 minutos pra prova acabar e seria capaz de pedir pra fazer a prova em casa? é isso ou eu tomei cachaça e não me dei conta? mas respondi:

- vocês precisam fazer uma escolha. vocês precisam da faculdade pra se formar. sem diploma, comé que vocês vão trabalhar? ... - nisso os alunos outros todos estão assistindo à cena com talvez mais perplexidade que eu. e talvez mais perplexos que eu teriam ficado se eu mesmo não tivesse batido recordes de incredulidade quando um dos dois alunos revoltados responde:

- ora, como eu venho trabalhando até agora: sem diploma!

se alguém ainda está lendo até aqui, um alerta: é isso mesmo. é um par de alunos achando absurdo não poder fazer a prova na hora que quer, visto que também assistem à aula a hora que querem (não mais, é claro, quando forem ver que estão com o dobro de faltas permitido e, portanto, rodados), e usando como argumento o trabalho, pro qual, aliás, não precisam de diploma.

e não precisam, de fato. nenhuma entidade obriga que eles tenham diploma pra trabalhar na área. mas aí falei, e essa foi a frase última que a minha voz permitiu, porque quando eu fico estupefata eu perco a fala literalmente:

- então por que tu estás fazendo faculdade?!

...

a culpa, com certeza, é minha. é minha a culpa de achar que tratando a todos como adultos, teria comportamento adulto de absolutamente todos. a culpa é minha por permitir que entrassem a hora em que quisessem no dia da prova, desde que assumissem o tempo que teriam pra fazer as questões. e infelizmente, nas próximas provas que eu aplicar na vida, vou ter que concordar com a maioria dos professores: ou chega na hora, ou é zero na prova e pronto. porque se tu dá uma chance a todos e um ou dois entornam o caldo, a maioria acaba tendo que perder a chance. se tu dá, a quem não ter respeito, uma mão, aí o braço todo, de repente, se torna aviltante pra quem quer todo o resto, e com cereja em cima.

infelizmente, portanto, vou "comemorar" meu primeiro dia dos professores com um sapo atravessado na garganta. sapo, claro, que não vai ser tão difícil de engolir quanto o que os revoltados vão precisar mastigar e digerir, mais cedo ou mais tarde.

[ Penkala ] 22:32 ] 4 comentários

 
eu uso óculos




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