] sábado, janeiro 10, 2009
 
falta de decoro

certa vez ouvi de uma publicitária que jornalistas tem espírito de free-lancers. acho que têm mesmo. mas o meu jornalismo free-lancer (que sempre beira mais a publicidade, porque trabalho com informação visual e algumas coisas aí se confundem) é necessidade mesmo. impossível seguir meu objetivo de fazer mestrado e doutorado se eu trabalhasse em jornalismo formalmente. isso sem contar que planejadores gráficos, diagramadores e infografistas trabalham muito e não ganham nada quando se trata de viver "de carteira assinada".

e daí que eu fico bem feliz da vida porque, em 8 anos de diplomada e 10 anos trabalhando com planejamento visual e gráfico, sou bastante respeitada naquilo que eu faço. e eu adoro fazer projetos gráficos. e isso fica, claro, cada vez mais no plano do frila, porque a minha carreira é a pesquisa e a docência e ponto final. design, planejamento visual e gráfico e coisas afins fica pros frila mesmo. uma ótima pra ajudar no orçamento (é o que me tira de certos sufocos, como quando preciso dum HD, de livros, de filmes, de ir prum congresso, de coisas assim, e não tenho pilas) e uma coisa que adoro tanto fazer que chega a ser relaxante.

* nerd alert! *

mas eu adorar fazer, fazer por amor, me sentir relaxada quando faço não significa que eu tenha que engolir propostas indecorosas pra fazer trabalhos de graça. principalmente agora, que só pego trabalhos de frila de planejamento gráfico pela grana mesmo, porque dá trabalho e eu ando atolada tendo que escrever a qualificação.

o que, ato contínuo, abre espaço pra reclamação. que é meu talento maior aqui. o que faz com que alguém pense que é digno fazer uma proposta pra uma trabalhadora que consiste em fazer um projeto gráfico pra uma revista, em menos de 10 dias (incluindo aí reuniões de briefing, revisões e finalização do projeto pra mostrar pro cliente), apresentar pra um cliente que está sendo prospectado e só receber pelo serviço caso o cliente aceite o material e queira fazer, de fato, o projeto virar revista? o que faz uma empresa achar que uma trabalhadora, que faz planejamento gráfico profissionalmente, vai se estressar durante um bom tempo, queimar a mufa fazendo um ótimo projeto gráfico e correr o risco de não receber nada por isso só com um "não gostamos do projeto"?

se eu fosse uma estudante, ou uma recém formada precisando fazer nome, isso já seria uma merda. mas agora, neste caso, não é nem merda, é uma puta de uma falta de decoro fazer uma proposta dessas... como assim "é um projeto de risco, condicionado ao aceite do trabalho"? eu é que vou queimar a minha máquina de criação pra bolar um projeto (com prazo ínfimo). eu é que vou ter que colocar em movimento tudo aquilo que eu tenho de conhecimento e experiência. eu que vou ir às reuniões, e eu que vou apresentar um produto desse talento tão grande que fez com que essas pessoas me procurassem (não é a falta de modéstia, é a real: se eu fosse ruim, não estariam me procurando pra fazer o projeto). e se o cliente diz "nhé", eu não ganho necas. se o cliente ama muito tudo isso, eu ganho, mas a empresa, além de ganhar um cliente, uma conta e muitos pilas, ganha uma comissão pelo projeto, pro qual só teve o trabalho de me encontrar e talvez passar o briefing. em caso de "nhé", só perco eu. e muito. o projeto de risco é mesmo um fanfarrão!

onde se faz curso dessa lábia muito bem programada de dizer pra uma pessoa que, veja, ela precisa aderir a um esquema com um projeto de risco, mas que isso pode render uma conta e, inclusive, muitos outros trabalhos. depois que toma na bunda, prostituta de respeito alguma jamais vai deixar de pegar o pagamento, mesmo que o cara tenha dito "nhé", não? nem que ela tenha que matá mil. pois simplifiquemos: eu também não. é bem fácil de entender.

a dignidade é mesmo uma coisa que vai pras cucuias num mundo onde se pode criar formas bonitas e eficazes de tentar convencer uma pessoa de que faz parte do mundo do trabalho dar um produto e só receber por isso caso o cliente goste, dando a isso o nome de projeto de risco.

de projeto de risco já basta a vida, né? não passei a vida estudando, 10 anos construindo uma experiência danada, nem passarei 10 dias fazendo um projeto do caralho pra ir pra porta da esperança esperando que numa delas esteja o cliente aceitando meu trabalho. mais decoro e menos palavrório corporativo que isso até me envergonha!

[ Penkala ] 15:43 ] 3 comentários

 
eu uso óculos




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