] quarta-feira, maio 27, 2009
 


audaciosamente indo onde ninguém foi

não sou uma trekker (apesar de fazer a saudação volcana sem nenhuma dificuldade desde muito pequena). não sou menos nerd por isso (blá blá blá nerd de humanas também é nerd blá blá blá nhé blá blá). eu fui ver Star Trek porque eu sou geek de cinema. e de filosofia. o que me atrai na ficção científica (fora o fato de eu ser uma aeronauta frustrada, e ser pela ciência desde criança) é que não tem lugar (nem na mitologia grega) onde tenha mais filosofia. não é por nada o "Jornada". a "jornada" é uma das coisas mais importantes na ciência do pensamento.

cóf. estamos falando de ficção científica aqui. não ofendamos este post com alguém aí falando "ãi, eu adoro ***" [insira no *** qualquer idiotice cinematográfica que se chama de ficção científica].

so, fui ver Star Trek por causa do cinema. e da filosofia.

e é óbvio que eu gostei da ação. em se tratando de imagem: fodástico. efeitos incríveis e necessários, tratamento de cor e luz genial.

mas um filme bonito, acima de tudo.

duas coisas eu sempre gostei em Star Trek, e elas estão muito bem colocadas no filme: primeiro, a história explora a questão da diferença. não só pelos amigos Kirk e Spock. a diversidade, especialmente dentro da nave, fica entre raças (vulcano e humanos, por exemplo), entre cores, entre etnias, nacionalidades, sexos. a segunda coisa é que a amizade entre Spock e Kirk fala de uma perspectiva de conflito entre o absolutamente humano e passional e o vulcano - lógico, racional.

Kirk é bem explorado como o "babes guy". em língua vernácula: o putanheiro. uma metáfora (e não apenas metáfora, na maioria das vezes) do sujeito que tem sangue correndo nas veias: paixão. o Spock é racional, lógico. quer entender os desígnios do próprio coração pelas leis mais frias. apesar disso, ele tem paixões - e esconde todas elas (Uhura, a família, etc.). é Kirk que faz com que ele coloque pra fora toda a raiva que sempre foi contida. a raiva machuca, a raiva dá medo, a raiva confunde. mas ela nos acorda. com raiva frustrada, os caminhos estão comprometidos. um comandante jamais comandará uma nave com o coração cheio dela. só quando Spock conhece sua própria raiva é que ele se torna capaz de ouvir o próprio coração - e a raiva de Spock é uma raiva contra ele mesmo, uma raiva contra os desatinos que o lado humano dele teima em cometer. a raiva faz a lógica ir pro espaço (totalmente involuntária essa relação com o espaço. sorry). mas é só quando ela é reconhecida. do contrário, ela deixa Spock cego. cego de lógica, cego de racionalidade.

o Kirk, destrambelhado, é totalmente movido pelas paixões. ele precisa da lógica de Spock, mas desafia essa lógica o tempo todo. quem ensina a Kirk que a razão de ser do teste é compreender que o medo da morte iminente é o que é necessário para comandar é Spock. mas Spock tem isso apenas na teoria. porque o medo a gente nunca sente em simulação. só quando o medo pega real é que a gente é capaz de dizer quem comanda esta porra de nave. a verdade é que o medo da morte é o que move os animais.

pela racionalidade, Spock vai e toma a frente de uma nave desconhecida. as chances de dar certo são de 4,3%. Spock ainda tenta: "se eu não voltar, diga à tenente...", mas Kirk atropela o medo racional e lógico de Spock com a boa, velha, humana e infalível lógica do coração: "vai dar tudo certo". acaba que a maestria do chinelão Scott traz de volta o Pike, o Kirk e o Spock de dois lugares diferentes. e, na hora do horror, é o medo real que faz Kirk tomar a decisão por uma detonação que propulsiona a U.S.S. Enterprise pra longe do buraco negro.

a amizade de Kirk e Spock tem início aí. uma amizade que coloca o ser humano no comando e a lógica e racionalidade como primeiro oficial. Star Trek é diferente de todas as jornadas de herói porque ela trata de um herói em conflito. um herói que não é Kirk e nem Spock, mas ambos. só os dois juntos conseguem ir, audaciosamente, onde ninguém jamais foi. a lógica e o coração. como se eles fossem um herói só (eternamente em conflito interno pelo comando de uma nave).

no final, é o velho Nimoy (ok, Spock) que diz que ele não siga a lógica, mas o coração. seria muito bom se a vida nos desse um glimpse do futuro na forma de um senhor sábio que vem nos dizer as coisas. por parecer paradoxal desejar vida longa e próspera, o Spock velho deseja ao seu eu do passado/presente um "boa sorte". boa sorte no caminho para a compreensão, boa sorte para quando ele estiver indo olhar o seu próprio coração. Spock tomou a decisão racional de abandonar o comando da nave pois estava emocionalmente comprometido. só entendeu isso quando viu a raiva que sentia. "boa sorte", diz o velho Spock para o jovem Spock, no caminho que leva aqueles que têm medo lógico e racional do fracasso e não escutam seus corações. seus corações que dizem "vai dar tudo certo".


[ * ] Pavel A. Checov é a coisa mais fofa naquele sotaque muito querido. difícil fazer um sotaque russo assim tão perfeito (sem o cliché, digo): por isso escolheram um ator nascido na antiga Leningrado. sobre Checov, uma coisa que eu não sabia é que o nome do pai do Checov escritor era Pavel (o velho Paulo, em Português).

[ * ] Fala mais engraçada do filme: "Are you out of your volcan mind?!"

[ * ] o Spock moderno não parece horrores (de jeito) com o Sheldon?

[ * ] bons filmes de sci-fi sempre têm o elemento vintage e a homenagem aos velhos tempos (mais alguém achou aquela "valsa", da primeira parte, uma honra ao Kubrick?)

[ * ] Eric Bana quase irreconhecível como Nero, hein?

[ * ] Simon Pegg (que fez Madrugada dos Mortos) tá muito parecido com o Scott da série dos anos 60.

[ Penkala ] 17:36 ] 0 comentários

 
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