] quinta-feira, junho 18, 2009
 
o caminho mais surreal, mais acidentado, mais longo e mais escuro que uma pessoa pode percorrer é o caminho que leva ao eu. faz frio, faz muito calor, chove pedra (uns pedregulhos de gelo que chegam a assustar), tem uns paralelepípedos desgraçados, não tem uma puta duma luz em quilômetros e (mas espere!) tem aquele esquema de tu estares calçando um tênis fuleiro que não serve pra nada. demora pra tu andar dois, três passos. isso sem contar quando tu escorrega e atrasa tudo. pra quem tem medo de escuro, então, é uma beleza: quando não se enxerga nada, se enxerga tudo. digo isso sempre porque não é agradável estar na escuridão total e dar de cara com um par de olhos abertos te olhando fixamente.

nada é lógico nesse caminho. a engenharia viária é tão péssima quanto a de porto alegre. e tem mesmo vezes que tu entra numa rua achando que está indo numa direção e quando vê sai na assis brasil. ninguém pode ir junto, lógico. porque se a coisa fosse simples assim, tipo poder entrar com a mãe, bom, aí fácil de mais, né? e os psiquiatras não teriam mais como pagar as contas. tanto não tem lógica, que tudo o que tu aprende sobre a vida, nessa hora, perde todo o valor. tu acha que vai poder colocar em prática os ensinamentos daquela semaninha lá que tu foi escoteiro do grupo iguaçú? nah. vais poder usar a habilidade de ficar na ponta dos pés, como quando fizeste ballet? esquece. fez judô e foi até alguma faixa de cor respeitável? grande coisa. o caminho pro eu nunca vai estar no google maps. nem no guia. nem perguntando pro morador mais antigo tu consegue alguma informação.

o problema é a dor e o cansaço, né? porque não bastava o google maps não ajudar. não bastava ter feito ano e meio de aula de caligrafia. nem ter participado do clube de ciências ou fundado um jornal subversivo no colégio. independente de qualquer coisa, te obrigam a seguir esse caminho sempre numa hora que tu tá cheio de coisa pra fazer. azar, desmarca o médico. tá com labirintite? vai ter quem te diga que isso não existe. tá com o canal exposto? azar. pedra no rim? ok, pedra no rim passa. passa pela uretra. vai pra casa e reza que ela desça com carinho. porque, falando sério, o caminho pro eu tem todas as dores essas aí. e mesmo tu sendo homem, tem dor de parto também. e se tu for mulher, mesmo assim vai rolar dor de chute nas bolas. toda dor possível com certeza te acompanha por esse caminho. e não adianta tu levantar a carteirinha do plano de saúde. nem se tu vomitares sangue te deixam entrar na emergência.

melhor passar no corredor de fraldas do super mercado antes de seguir o caminho, hein? das geriátricas, porque nesse caminho tu só embarca quando já tem uma bunda bem considerável. nunca se sabe, né? quando tu vê, não é apenas um par de olhos te olhando no meio do escuro. tem sustos bem maiores. não vou dizer aqui porque cada um leva o susto que merece. eu, por exemplo, fico até com vergonha, mas morro de medo desse negócio de par de olhos bem abertos me olhando. vai ver tem outra pessoa que acha isso nada a ver.

mas assim. a dor passa. (deve passar, e eu espero que passe, porque quando entrei me deram um folheto falando que passa e, segundo meus cálculos, tou mais ou menos chegando nessa parte) e aí, diz que te largam num auditório cheio de gente brega gritando coisas que tu não consegue entender e te mandam escolher entre umas portas. todas diferentes. o que, no fim das contas, não importa muito. tu pode escolher qualquer uma delas, porque dá no mesmo. diz que do outro lado tu ganha um certificado, um livro "eu pra dummies" e uma chave. o certificado tu é obrigado a pendurar, porque parece que tu tem que lembrar daquele caminho pro resto da tua vida. dizem que tem lógica, mas eu acredito só vendo. e a chave eles só fazem tipo assim, na hora. com essa chave tu vai poder abrir a porta que quiser (depois, né? de entrar na primeira porta). tu pode saber o endereço de cor, tu pode decidir ir pra rodoviária e pegar um ônibus (sem seguro) pra uma cidade qualquer aí ou tu pode simplesmente ficar na rua. ou tentando entrar em tudo quanto é casa. o que eu acho meio perigoso, porque se calhar de ser, assim... vamos dizer, a da minha vizinha que tem dois gatos e usa baby doll pra ir pra padaria... não é lá muito agradável, né?

o problema não é exatamente qual porta tu abre. o problema é que vai que é a porta da tua própria casa? normalmente é, né? mas assim, sendo a porta de casa, o que tu faz? repete com a tia aqui, ó: "usa o livro". o "eu pra dummies".

eu estou bem ansiosa pra receber a chave. vou pra minha casa, que lá tem as coisas de que eu gosto. mas depois desse caminho todo, tem umas outras coisas que eu acho que não conheço ainda (tu ganha uns prêmios quando vai passando por umas provas no meio do caminho). se eu bem me lembro, no folheto dizia que eu tinha que descobrir o que fazer com essas coisas sozinha (eventualmente pedindo a opinião de alguém de confiança). não tem manual. mas como eu acredito no que meu coração me diz, tenho certeza de que vou me dar bem.

[ Penkala ] 01:27 ] 1 comentários

 
eu uso óculos




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