] sexta-feira, julho 24, 2009
 
dead man falling

uma das fotos mais caras pra minha tese tá, faz muito tempo, sendo colocada na linha de tiro. O miliciano caindo, da foto mais famosa de Robert Capa, seria fraude. a análise feita leva em conta desde dados históricos precisos até acidentes geográficos do local onde a foto foi tirada. aí diz que a foto, então, teria sido posada.

ok. tem gente espumando por causa dum troço desses. furiosos defensores do gênio da fotografia. extremamente ofendidos pela acusação.

tá, então o Capa deixa de ser um gênio da fotografia porque a foto é uma pose e não um glimpse que une máquina, olho e fato? e quando eu pergunto isso, não estou fazendo uma pergunta retórica. sério mesmo, será que deixa de ser?

pois bem. não sei, na verdade. se for fraude, o que não duvido mesmo, então ele deixa de ser um gênio da fotografia jornalística. mas não um gênio da fotografia.

aos furiosos, eu diria que pesquisem mais sobre fotografia de guerra e falem menos sobre a glória do fotógrafo. é que nem fã do Lennon não aceitar que o cara foi cruel com a primeira mulher, só porque ele é um gênio da música. a foto ser uma fraude só reforça o imenso inventário de guerra que as imagens técnicas construíram ao longo do século XX (e também no final do século XIX). quem não sabe que - como diz a famosa fala de Além da linha vermelha - guerra é um amontoado de dias do mais puro tédio e pasmaceira intercalados com o mais puro horror e correria? nem sempre era possível fotografar a guerra acontecendo, porque nem sempre tinha luta. os fotógrafos, especialmente os do início da fotografia de guerra, não tinham muitas condições de fotografar exatamente no front. e nem sempre, considerando o trambolho que as máquinas eram, dava pra tirar uma foto dum glimpse histórico como hoje se tira do rosto do Saddam morto com um celular bem fuleiro.

quem não sabe que as fotos de guerra servem, especialmente, pra levantar um polvaredo de emoções extremamente complexas? umas servem pra levantar o moral do povo, encher os pulmões dos civis de patriotismo glorificante (e anestesiante). outras servem pra denunciar os horrores. então meio que parece exagero esse alvoroço todo. descobrir que é fraude é, sim, um feito. mas eu diria que nada disso vai apagar aquilo que essa foto significou pra imageria de guerra, e provavelmente nem vá mudar o que ela continua significando. fato é que ali, contida naquele quadro que é a foto, está a imagem de um homem caindo. uma imagem paradigmática*, que sempre vai fazer o mais leigo se perguntar: "donde eu conheço essa foto? já vi em algum lugar...". um homem caindo com uma arma na mão. um homem caindo com uma arma na mão e em preto e branco.

saber o que ela significa hoje depois da mais do que divulgada fraude (ou suspeita, ainda que bem fundamentada) é o mesmo que tentar saber o que ela significava pouco antes da divulgação da fraude, porque no momento em que ela virou uma foto ela já passou a significar aquilo que o Capa quis dizer sobre a Guerra Civil Espanhola, e nunca mais o fato de um miliciano ter sido abatido com um tiro. então, de qualquer forma, ser posada ou não passa a ser até insignificante, considerando o monte de coisas que cerca cada uma das fotos que estão pairando no imaginário do mundo.

só tenho uma pena é de ter que trabalhar a foto com outros olhos, agora. porque o real daquele homem morto caindo me interessava pra tese. se bem que já aprendi, durante todo o meu processo de pesquisa, que o real não existe. isso é tudo coisa da nossa cabeça.

[ * ] tão paradigmática quando será esta aqui em alguns anos. se bem que a do 11 de setembro é ainda mais cruel.

(sobre THE FALLING MAN)

[ Penkala ] 08:20 ] 0 comentários

 
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