] quinta-feira, julho 16, 2009
 
eu lembro que tinha essa imagem muito, mas muito pesada, que ainda hoje não consigo ver outra vez. não lembro se era vídeo, se era foto. só não consegui ver isso mais que aquela vez. foi o suficiente.

uma foca branca, um filhote, com aqueles olhos recondos dos filhotes, sendo morta a pauladas por um ser humano desses que a gente vê todos os dias andando na rua. a crueldade, se tivesse um ícone, seria esse.

mas eu nunca mais consegui ver a imagem porque, desde a primeira vez, eu me coloquei no lugar da foca, com seu cérebro de foca e suas penugens de foca. me coloquei naquele lugar e senti uma dor muito grande, indescritível.

não a dor física. a dor que eu senti foi de me imaginar ali, olhando praquele ser humano, aquele mesmo que minutos antes me observava com seus olhos redondos que enxergam tudo, e tentando compreender por que está sendo tratado tão cruelmente. talvez por ter horror de injustiça, a dor foi grande e, em memória, ainda é lancinante. tentar compreender por que se está sendo espancado até a morte, por que está sendo esfaqueado aos poucos, por que está sendo tratado desse jeito é um esforço que eu nem sei explicar.

não devem existir muitas dores piores do que essa. a não ser, talvez, a dor de um animal que recebe carinho de um ser humano, comida, respeito, e um dia se vê preso pelas pernas e, olhando nos olhos do dono, alguém em quem confiava, se pergunta "qual é o motivo daquelas facadas, qual o motivo pra tanto ódio, tanta raiva, violência?!". qual o motivo pra tanta desumanidade?

quem come carne preferiria nem ouvir esse tipo de relato. quem não come, talvez fique solidário e compartilhe da mesma dor. mas não estou falando sobre hábitos alimentares. nem sobre ética vegetariana. o difícil é constatar que seres humanos que andam na rua, batem ponto no trabalho, lêem livros no metrô, choram vendo filme... difícil acreditar que seres humanos assim, sei lá, que usam cartão de crédito, que odeiam segundas-feiras, que vestem camisetas com frases legais e tal, sejam capazes disso. e o mais difícil é quando tu tá no lugar da foca. com os olhos redondos que ninguém nem teve a dignidade de tapar pra que tu não visse o brilho da faca, sem poder se defender, e se perguntando, perguntando pro ser humano:

por que mereço tanta crueldade? o que eu te fiz pra merecer isso?

a capacidade da crueldade humana é dessas coisas que sempre me fogem da compreensão.

não sei o que é pior pra foca. se morrer assim, ou se querer morrer logo pra que a crueldade acabe. talvez fosse bom que a foca morresse logo, assim talvez sofresse menos. e enxergasse menos a cara do ser humano. e se perguntasse menos qual o motivo pra tanto ódio.

[ Penkala ] 20:00 ] 1 comentários

 
eu uso óculos




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