] terça-feira, agosto 18, 2009
 
carne trêmula

quando eu tinha 14 ou 15 anos não tinha pensado ainda em ter uma tatuagem. arrisco até a dizer que devia achar coisa de gente meio louca. alguns anos depois disso fiz minha primeira. tinha 22, se não me engano. e eu acho que a lenda de que vicia se justifica no fato de que a tatuagem, embora muitos tenham aderido por moda, é uma espécie de relação íntima que se tem com o próprio corpo. decidir fazer uma tatuagem pode ser algo frívolo, algo efêmero, algo superficial (tanto que tem gente que tatua o "brinquedo assassino"). mas pra mim, a tatuagem é uma relação com aquilo que serve de veículo pra quem tu és.

é uma relação carnal, no sentido mais metafísico da palavra.

as marcas da vida permanecem, todas, no cérebro e no coração da gente. independente de lembrarmos delas, elas estão lá. algumas experiências nos marcam o corpo, e é preciso lidar com essas marcas sempre. a maioria jamais vai sumir. pessoas nos marcam, sentimentos nos marcam, violência nos marca, amor nos marca. por que, eu sempre me pergunto, a tatuagem não pode ser encarada como uma marca da vida?

porque os outros enxergam.

eu guardo no meu mais íntimo armário escuro duas violências que mudaram pra sempre a minha vida. ambas foram nefastas e mudaram minha forma de me relacionar com coisas essenciais. num primeiro encontro com uma pessoa, numa reunião de amigos, numa janta na casa do chefe, jamais corro o risco de vestir manga curta e expôr a todos que um dia alguém tirou de mim um dos meus bens mais preciosos e deixou no lugar um corte. mas se eu tirar o casaco e na nuca surgir algo marcado em tinta, todos vão ver. zen, eu já adianto. na minha nuca está escrito zen.

o tempo marca. e as resoluções, as decisões, as transformações. o tempo te dá marcas em troca de experiência. a experiência é o que nos faz melhores do que ontem. a experiência é o que ensina. e aquilo que a gente aprende é saber. ninguém nos tira. fui covarde e passei 10 anos obesa, por achar que um vazio poderia ser preenchido com comida. decidi. não mais. e as marcas ficaram. às vezes tenho vergonha delas, mas não quero, porque elas são a marca de um sacrifício e de disciplina. e de força.

uma tatuagem, pra mim, é um ritual. é íntimo, é sanguíneo, é espiritual. eu escolho marcar na minha carne algo que eu quero deixar nela pro resto da vida. teoricamente. algumas afobadas marcam o nome do namorado/marido à tinta na pele. se separam e ficam convivendo com aquilo ali (e tendo que aturar cara feia de outros namorados/maridos) pra sempre. mas e o amor, que marca a ferro e fogo um coração?

minha segunda e terceira tatuagens foram escolhidas pra representar uma filosofia. e se eu me tornar cristã, o que acontece com o "buddha" marcado no meu ombro, num kanji preto? acontece o mesmo que vai acontecer com minha filosofia: vai se tornar parte do meu passado. pro qual eu vou olhar sempre, mesmo de olhos fechados. o zen, a mesma coisa.

quando a agulha - e a palavra já assusta alguns - começa a rasgar a carne, pra uns é o início de uma dor bastante insistente e irritante. pra mim, é a virgindade daquele pedaço de pele se perdendo. qual a diferença de quando uma mulher abre, pela primeira vez, o coração pra paixão concreta e rasgante de um homem? algumas fazem isso como quem entrega qualquer coisa a qualquer um. outras tornam essa dor, esse rasgo na carne, uma espécie de ritual onde deixam o amor penetrar pela primeira vez o seu espírito. e pra sempre.

os homens gostam de se vangloriar disso. de com sua carne tatuarem na carne de uma mulher o símbolo desse ritual. mas isso é da mulher. o ego deles brilha e reluz, na superfície, porque isso é um prêmio. só que o prêmio não é deles. é daquela carne que nunca vai apagar aquela marca. pro bem e pro mal.

a agulha rasga a carne insistentemente. o som da máquina é um mantra, que às vezes induz ao sono. ou ao sonho. e em algum momento essa dor vai começar a se transformar em algo quase insuportável, ainda que ninguém morra disso. escolho marcar meu corpo como marco, inadvertida e involuntariamente, meu espírito na vida, que traça, no nosso mais íntimo espaço, uma cicatriz que nunca desaparece. por um tempo ainda dói, por um tempo é preciso dormir sobre o outro braço. mas isso passa, e fica a marca. e se a manga da camiseta é curta demais, alguém um dia vai te perguntar: o que é isso?

ninguém pergunta o que é essa tristeza no teu olhar, que tu vai sempre carregar quando te deparares com o intransponível. sempre chega o dia em que tu encontras tuas marcas. ou por passar por um espelho de corpo inteiro, ou por tirar uma foto das próprias costas. desde os oito anos eu me deparo com cicatrizes que me tornaram a pessoa que eu sou, porque a vida tatuou elas no meu peito. elas já me fizeram perder oportunidades, desistir de experiências, ter vergonha de abrir minha blusa.

não mais.

a quarta cicatriz eu fiz questão de não esperar que formasse aquele traço feio. tatuei sobre ela a marca que eu quero levar desse rasgo que a vida me fez sofrer, apesar de ter me rasgado três outras vezes no mesmo lugar. a dor permanece, mas a natureza inventou a dor, entre outras coisas, pra gente acordar. o rasgo vai sarar, independente do que acontecer, independente de perdão, do beijo de desculpa, do fechamento por segunda intenção, que é quando a carne cicatriza com muito esforço uma ferida que ficou aberta e ninguém conseguiu ou quis fechar com uma sutura. mas a marca permanece. porque eu escolho que ela fique ali me lembrando que, se as marcas no espírito nunca vão sair, a memória do corpo jamais esquece as marcas da carne.

escolho o prazer de rasgar minha carne com agulha e tinta, de despir uma parte virgem da minha pele diante de alguém que empunha a máquina irritante, de expôr meu corpo com confiança em alguém que vai me ajudar a registrar uma experiência. tanto sexo foi feito com menos compromisso neste mundo, e mesmo assim é uma marca no corpo! por que não escolher em que cores quero que essa conjunção carnal se espalhe pela minha pele?

pras quatro cicatrizes mais doloridas da minha vida, olho e vou olhar constantemente. e pro que eu quero fazer com elas eu também quero olhar constantemente. sofre-se um rasgo da vida de forma passiva, mas escolhe-se como se construir sobre essas marcas de forma ativa. e eu escolho que nos meus ombros, que vou exibir com uma certa satisfação lasciva, esteja marcado em tons vivos e em sombras suaves ou pesadas a água e o fogo, a filosofia que sigo e o caminho que vou tomar, a força de um dragão que também me protege, a resiliência de uma fênix que arde até virar cinza pra depois renascer do próprio fim e exibir suas asas coloridas pro vôo mais alto possível.

quem não quiser conviver com as marcas que eu carrego no corpo, não pode conviver com as que carrego no espírito. escolho despir a minha pele, minha vulnerabilidade, minha fraqueza e minhas cicatrizes pra quem deseje, comigo, tornar cada uma delas menos dolorida. é o que se faz com as cicatrizes: se passa o dedo e diz "agora não dói mais". quem feriu pode tratar, pode beijar com o lábio molhado por uma lágrima e dizer: "eu quero que essa dor pare". ou pode deixar o rasgo pro tempo e pra segunda intenção. ou quem sequer conheceu as marcas que tu esconde ou as que tu queres mostrar, pode pedir licença pra descobrir toda a tua dor e todo o prazer nas cicatrizes mais feias e nas tatuagens mais bem desenhadas. como eu disse: escolho encarar minhas cicatrizes de frente, assim como as tatuagens. mesmo as que mandei fazer nas costas. quem me escolhe, que leve tudo isso junto.

[ Penkala ] 00:47 ] 1 comentários

 
eu uso óculos




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