] quinta-feira, agosto 06, 2009
 
E.R.

quem diz que funcionário público não trabalha está sendo injusto. afinal, Lady Murphy tem feito serão lá na repartição em cima do meu processo que é uma beleza. domingos e feriados e a vaca tá lá, trabalhando sem nem parar pro café.

hoje de manhã fico sabendo que o projeto "dragão-fênix" teve que ser abortado, uma vez que o executor estaria impossibilitado, devido a uma peste qualquer.

aí tiro o dia, que seria minha folga involuntária na faculdade - devido, aí, a outra peste -, pra traduzir mais zilhares de páginas de filosofia. aproveitando, claro, que a experiência de quase morte de hemisfério cerebral de ontem deu em nada (ou não, diria a Carole). qual não é minha surpresa quando todos os sintomas de ontem começam a se repetir hoje, desta vez provocando dores homéricas nos dois hemisférios, os quais, no caso, somam quase a totalidade da minha massa encefálica. e a dor nas panturrilhas, que não foi do boxe porque o boxe não me provoca mais dores nas panturrilhas e porque o boxe não foi executado esta semana (involuntariamente, por motivos de saúde), começou a aumentar.

o horror. o horror.

leptospirose? os sintomas são de, hein? malária? qualquer outra porcaria bem indigna que eu jamais suporia que fosse pegar na vida?

eu evito, sabe? eu evito sempre ir ao hospital. ou ao médico. se a coisa é séria, eu vou. mas eu suporto até o último minuto, por medo de me tornar a personagem de quem minha mãe - e todos os médicos do mundo - falava nos tempos de faculdade: uma tigrona.

se eu acho que é fiasco, não vou. se não é fiasco, mas é bichice, não vou ainda. se nem é bichice, mas é algo que não vale o tempo dos coitados dos plantonistas, eu evito. mas aí quando eu tou me borrando de medo de morrer duma coisa dessas, e quando eu lembro dum amigo que quase morreu de lépi e secou uns 50 quilos (não tou podendo, no momento), eu cogito correr pro hospital.

eu nem corri muito. fui de T9, que tava até bom na rua e eu ainda tava conseguindo andar (piti alert!).

quando cheguei na curvinha que dá ali na emergência da Puc é que eu me lembrei da peste e das pessoas que correm pro hospital por causa da peste e do número de tigrões com Síndrome Tigróide Humana mas achando que é a peste.

fuck.

4 horas - eu disse qua-tro-ho-ras - na emergência (particular) dum hospital, acompanhada por 972 sósias do Michael Jackson e suas pleuras espirradas, esperando, sentadinha. 1 hora pra chamarem ao balcão, 1h30 pra chamarem pra triagem, + 1h30 pra ser atendida. eu já com vergonha de não ter tossido todo o produto interno bruto do meu peito, como uma mocinha que tava do outro lado da sala. com vergonha de não estar fungando, de não estar mancando, ou espirrando sangue pelo nariz. me encolhendo na cadeira numa auto-acusação eterna de "sua tigrona, que vergonha, ocupando lugar de quem precisa no atendimento emergencial!". já tava achando mesmo que era STH.

e tudo isso, caralho, pra médica me dizer o que eu sempre soube desde criancinha. era o meu estômago, de novo, me sacaneando. e eu nem comi um pepininho sequer!

o que realmente valeu, a nível de estudo, enquanto antropologia, foi presenciar daquelas cenas patéticas que me fazem, cada dia mais, rachar a cara com a humanidade e seus personagens bizonhos. fim de tarde, a emergência esvaziando (um fenômeno bem interessante é que as pessoas sempre vão pra emergência em horário comercial e em dia útil. sério. 100% das vezes comprovei a teoria e assino em cartório se quiserem), e chega um homem, seus 50 anos, de terno e sapato "fino". terno do tipo de quem usa terno desde os 22 anos. chega no balcão, onde todo mundo se debruça agonizando e é corrido pela recepcionista: "tem que pegar ficha!", e conta pra mulher o que tá sentindo. conta no sentido de quem está explicando um problema que apenas ele, e mais ninguém, tem. o tipo do cara desses que fala "... bom, resumo da história...".

a recepcionista ouve com atenção e diz: a espera é de 1h30, senhor. (eu teria gritado, lá do fundo, que era de 2h30, porque era o tempo em que eu estava ali esperando, mas não valia a pena) e ele se aproxima, puxando o casaco pra trás e inclinando o tronco pra perto dela: "mas não tem jeito de..." (não escutei o resto).

"resumo da história", o sujeito queria que, sendo aquilo ali um atendimento particular, seu caso fosse avaliado com maior cuidado. afinal, ele estava com tosse, dor nas costas, espirros, febre e dor de cabeça.

disse pra mim mesma: "aDEvogado".

conformado com o fato de que o problema dele era igual ao de todo mundo ali (menos eu) e de que teria que esperar, o cara senta. aí, claro, puxa papo com o casalzinho do lado, porque esse tipo de sujeito não pode não alarmar meio mundo com alguma coisa que ele venha a proferir, uma vez que é versado no discurso muito pomposo que a escola de direito lhe ensinou e isso só tem fundamento se tiver ouvinte. falou uma coisa parecida com "que absurdo" ou algo do gênero e tomou fôlego pra falar o resto (lá vem).

"eu, como crítico costumaz [puta pernóstico dos infernos!] do sistema político... - não tenho nada a ver, sou advogado, pra mim tudo que é político é *** [não lembro do termo, mas seria algo como o popular FILHO DA PUTA], mas... [e aí falou alguma coisa bem demagógica e pequeno-burguesa-cheia-de-culpa-social e eu só ouvi o final:] e tu imagina o povão?!"

eu quase fiquei satisfeita com a cara de pouco caso que o casalzinho fazia pro discurso do cara. não fosse por confirmar, ali naquela porra de sala de emergência, que não tem uma vez que eu não veja um sujeito desses [aquele tipinho] que eu não venha a ouvir, em seguida, o próprio dizer, no meio de qualquer que seja a frase [mesmo um "me passa o schmier"], um "eu sou advogado".

puta que pariu do caralho voador, como diria a Cris, quase cuspi a pleura também ali, hein?

[quando saí do atendimento, o cara ainda tava esperando ser chamado pra triagem. achei válido.]


PS: tinha esquecido de quando o aDEvogado falou "quero ver quando isso atingir a massa carcerária". nego ali esperando atendimento, com o nariz cheio de porquinhos esperando pra infectar meio mundo, e o cara ali fazendo discurso? calaboca, meo. porra.

[ Penkala ] 20:29 ] 0 comentários

 
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