] domingo, agosto 09, 2009
 

Mein Deutsch ist schrecklich, aber wirklich die Liebe ist Krieg

Se as pessoas prestassem mais atenção na vida, lessem menos poesia de origem duvidosa e ouvissem mais música clássica, elas então veriam que o amor é guerra. Não essa coisa bonita que algumas pessoas cantam por aí. O amor é uma guerra onde quem ganha sempre perde, porque aqui, especificamente, nenhum dos lados vence, na acepção mundana da palavra, porque ambos se entregam pro inimigo. Ou bem os dois se envolvem em batalhas ferozes com o mesmo empenho, ou bem os dois recuam, cedem terrenos, têm misericórdia dos soldados do outro lado.

Assim, o amor é uma dor insuperável, uma guerra sem fim, uma batalha seguida de períodos de chuva e tédio, depois mais uma batalha e outra, sangrentas, impiedosas, cruéis e potencialmente fatais. Por isso o amor não é limpinho. É o mais sujo de todos os sentimentos. É sujo porque é uma guerra onde cada um dos vários pelotões envolvidos luta pela vida e pela morte, e esses são os piores tipos de soldados. Tem sangue, tem poeira, tem fumaça e cinzas. Tem o suor dos que batalham, tem a saliva daqueles que gritam com toda a força porque sabem que em alguns momentos, é tudo isso o que temos pra defender a própria vida.

Se tu já levou uma agulhada de calibre considerável no céu da boca, e pensa que isso é dor, é porque realmente ainda não conhece essa guerra. Se já passou um mês com um nervo exposto, se já esfolou a própria pele, se sentiu o rim expelindo uma pedra, e acha mesmo que isso é dor, é porque não sabe de que guerra estou falando. O amor é uma guerra onde cada soldado entra involuntariamente, permanece por vontade própria e luta, desesperadamente, pra continuar. É uma guerra onde se entrega tudo, onde se faz um pacto de não agressão, mas se agride. Se faz promessas de respeito à humanidade alheia, mas na frente de batalha esquece de tudo isso, caso seja necessário. É uma guerra onde se entra querendo ganhar, se permanece sabendo que é perdendo que se mantém a vida, e é uma guerra de onde se sai ferido de morte, mas não se morre.

Os soldados não são indiferentes aos seus inimigos. Os respeitam, pois reconhecem seu valor. Não são indiferentes porque, do contrário, não lutariam. Quando alguém se envolve numa guerra dessas, é com a força das próprias vísceras. É horrível dizer isso, porque as pessoas pensam sempre em coração de desenhinho, em coisas limpinhas, beleza e lirismo. O amor não é bonito. Olhando de longe, as pessoas até são capazes de achar que os inimigos se engalfinhando não passam de um harmonioso corpo de baile do balé russo. O amor não é balé. E o amor nunca é paz. Mesmo quando os combatentes estão no resguardo da tranquilidade, o amor não é paz. É uma luta silenciosa, onde o inimigo pode atacar no meio da madrugada e iniciar uma batalha ali mesmo, no meio do sono de alguém.

As batalhas. São inúmeras as batalhas que se trava numa guerra como esta. Algumas são mais sujas que as outras, mas só em uma delas é possível agir contra o acordo de guerra, um acordo supremo, um acordo onde os inimigos lutam pelas suas vidas e mortes em uma aliança que não pode se partir. O amor é uma guerra de dois exércitos. Em algumas batalhas, um dos exércitos pode se dispersar, se perder no mar, se afogar no meio da selva, em busca de outros territórios pra conquistar, porque já não sabe por qual território estava lutando antes, ou por que motivos estava lutando. E quando avista alguns territórios que parecem mais interessantes, apagam da memória a luta anterior, os objetivos, o exército contra o qual lutaram. Apagam mesmo. Nessas horas, o outro exército então recua, num movimento ruidoso e dramático. E continua afiando a lâmina de suas espadas, preparando seus canhoneiros, alimentando seu general, estrategistas, oficiais de alta patente e méritos espalhados pelo uniforme. Alimentando estes em detrimento dos outros, às vezes. Recua calado porque deixou no chão alguns soldados abatidos. Não conseguiu carregar os coitados, então se retirou, cheio de pesar. Está em luto, mas precisa continuar. Não tem um soldado sequer que não sangre. Durante a noite só é possível ouvir o lamento, a agonia, o grito abafado nos cobertores e travesseiros, o gemido triste de cada um dos soldados sobreviventes.

Mesmo enterrados em lama, os estrategistas continuam com seus mapas sobre mesas improvisadas. Discutindo a plenos pulmões. Todos feridos, também. Alguns amputados. O mapa permanece o mesmo, e eles apontam pra pontos no território com seus dedos sujos de sangue. Todos estão exaustos, mesmo os estrategistas e generais, que dormem em melhores camas, comem da melhor comida, são protegidos e tratados pelos melhores médicos. Exaustos, feridos, assustados, traumatizados, os soldados esperam, jogam cartas quando conseguem algum alívio pras dores, e se contorcem abraçados nos próprios joelhos quando a dor é insuportável. O território permanece perdido, mas permanece lá.

Então um dia a chuva cessa. A lama seca. O general vem gritando do barracão, ignorando qualquer dor, acompanhado dos oficiais condecorados com honras, e dá a ordem. Os soldados rasos estão tão famintos que mal conseguem levantar, e quando conseguem, gritam de dor. A ordem é encontrar o exército inimigo, de quem ninguém tem notícia há meses. Quando se está envolvido numa guerra dessas, os exércitos sempre sabem encontrar seus inimigos em casos como esses. O problema é o caminho, já que o exército que recuou tem mais baixas do que deveria. E tem medo. Mas um exército tem que lutar. É sua obstinação. Cada um ali foi treinado por oficiais impiedosos pra jamais desistir. Jamais desistir da guerra, jamais desistir dos objetivos.

A raiva no coração dos soldados é reflexo de uma dor muito grande. Mas nenhum deles jamais é indiferente. Por isso eles marcham. O amor é uma guerra e o exército começa uma jornada silenciosa, dolorida, extenuante e potencialmente fatal. Só que é isso ou ir pra casa. Os ferimentos sangram, mas é pra luta que os soldados foram feitos. Eles abatem o inimigo, depois se deixam abater. Recuam e depois pedem passagem. Mas nunca são covardes. É isso ou perder a guerra. A jornada em busca dos batalhões perdidos pode ser longa, cruel, e com certeza vai ser bem suja. O outro exército precisa querer vir lutar também. Por isso os estrategistas se concentram em como explicar que a luta é por aquele território, o território pelo qual lutavam juntos. É isso ou morrer lutando.

Alguns encontram mesmo o outro exército. E continuam a guerra. Outros não encontram seus inimigos, e são obrigados a sair em busca de novas guerras. E alguns chegam a desistir de lutar, e voltam pra casa traumatizados, tipo aqueles veteranos que odeiam o Vietnam, mas jamais esquecem aquela porcaria.


Tudo isso seria muito mais filosófico se fosse escrito em alemão. Só que o meu alemão ist kaput.


[ Penkala ] 20:40 ] 0 comentários

 
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