] quarta-feira, agosto 26, 2009
 
never more, never more, never more

deixei muitas coisas pra trás. fui andando a esmo pela areia, arrastando os pés e, desnorteada, nem bem olhei pro caminho que fazia. a todas as coisas que apareceram dei as costas. a todos os pratos quentes que me ofereceram, eu fiz que não com a cabeça. com o olhar apático, neguei tudo e fui vestindo, peça por peça, uma armadura sólida e triste. que me impedia, também, de andar.

fiquei fraca, e fiquei longe, e fiquei quieta e dormi por muito tempo. em desespero, percorri muitos quilômetros de lágrimas atrás de um objetivo que eu nunca alcançava, mesmo gritando, mesmo rezando, mesmo fazendo tanto esforço que mal podia respirar mais. me ajoelhei, esfolei a pele, inflei os pulmões com a única força que me restava e implorei, porque já não podia mais.

e todas as portas se fecharam com um barulho horrível. todas elas, ignorando minha mão estendida, que tremia, e meu olhar perdido, que suplicava. o desespero era a única coisa mais estrondosa que o barulho das portas, e ao desespero eu respondi com o abandono. me abandonei no chão, encolhi os joelhos até o queixo, abracei as pernas com os braços fracos, fechei meus olhos e chorei até não ter mais fôlego. e dormi.

eu via, sexta, os casais se alvoroçando pra sair. eu via, sábado, as ausências de casa, no telefone, na internet. eu via, domingo, a solidão que parecia que me esfregava na cara uma espécie de soberba, porque predominava, porque era soberana dentro de mim. eu via os dias acabarem como começavam: sozinhos. eu via as exposições de arte que me davam mais asco que prazer, e os pratos da culinária hindu, que me davam mais asco que prazer. e os filmes do Kubrick, que começaram a me enojar.

eu via os feriados, os dias de chuva, as férias, os dias comemorativos, e eu via solidão. eu via os feriados, os dias de chuva, as férias, os dias comemorativos, e eu via dor. eu via os feriados e as quartas-feiras e a crueldade da vida continuava me esfregando na cara que o que eu sonhei, construí, pedi e tanto esperei estava, agora, sendo dado a outra pessoa. sem nunca ter sido dado pra mim. eu vi com os olhos cheios de lágrimas a crueldade que eu jamais mereci. e a vingança, que não entendo por qual motivo veio. e os domingos, e os sábados, e os dias de chuva ou de sol, eu vi todos eles passando, minha saúde passando, minha esperança passando, até quase me deixarem sem nenhum fio de vida no chão. e a necessidade de um corpo que me afagasse, de um coração que me amasse, uma mão que me protegesse, um abraço que me aquecesse, a necessidade de alguém que me acompanhasse no sono... eu senti essa necessidade como dor.

não mais.

nunca mais.

jamais um domingo triste amanhecendo sobre a minha cabeça. jamais um sábado anoitecendo sobre a minha solidão, jamais uma quarta-feira de prazer me humilhando, jamais o cinema, o show, o passeio, o museu, o almoço em luto.

nunca mais.

não mais.

[ Penkala ] 13:46 ] 1 comentários

 
eu uso óculos




CLICA QUE VAI:
www.flickr.com
Penkala's eu, casa & coisas photoset Penkala's eu, casa & coisas photoset

BLACK BIRD SINGING:

Get Firefox!








Powered by Blogger


RSS