] segunda-feira, outubro 12, 2009
 
eu fui assaltada e reagi.

aquilo que a gente segura com violência é o que nos prende ao fio da vida, é o que nos mantém acordando todos os dias, é o que nos garante força pra andar. é o que nos permite continuar. na superfície, os nossos dedos marcam um apego que é dolorido, que arranca sangue. aquilo que eu agarro com tanta violência, que me faz derramar litros de suor no esforço de não deixar ir sem mim, é aquilo que detém os meus segredos mais profundos, os meus medos mais terríveis, as minhas memórias menos verbalizáveis. e se numa fúria desmedida eu me abraço, eu me agarro, e eu grito, é porque estou segurando a minha vida. não a vida, essa que se acaba quando o coração pára. não a vida, essa que se recebe de pai e mãe. a vida que o tempo nos dá. a vida que a gente constrói. a vida que é um emaranhado de complexas paixões. se eu me agarro a isso, é porque me agarro ao tempo. me levem tudo, mas por favor, não destruam as minhas coisinhas!

nessa sacola de espaço imensurável eu guardo as fotografias, as músicas, as imagens, os cheiros, as dores. eu guardo os prezeres. se eu levo ela bem junto ao meu corpo, é porque nela eu tenho as chaves de casa. nela eu tenho anotadas, num caderninho, as senhas. nela eu vou socando cada uma das notinhas daquilo que eu compro. e os papéis de embrulho dos presentes que eu ganho. e os bilhetes. e as fichinhas pras máquinas de pinball.

não sou uma pessoa idiota. se é preciso soltar, se já é hora, então eu não vou cravar mais meus dedos aqui. ainda que me custe a maior dor do mundo, eu solto. ainda que não precisassem me arrancar isso de forma tão desumana, eu solto. deixa que eu solto. deixa eu firmar meus pés, deixa eu sentir que não vou cair, deixa eu me escorar aqui na parede. e aí eu solto. não precisa arrancar de mim. nem precisa me torturar. e nem fingir que eu ainda posso ficar agarrada quando vai vir, na hora em que eu menos esperar, o dobro da força pra me arrancar isso dos dedos. eu solto. se não é meu, eu solto. se já morreu, eu solto. mas custava me deixarem me despedir? enterrar? custava sentarem comigo e me explicarem? em vez de gritar perdeu preibói? eu iria entender. iria chorar, mas iria entender. não sou louca de andar por aí carregando um corpo que já morreu, tentando acreditar que um sopro vai tornar a viver aquilo que está putrefando. deixem que eu enterre. não tirem meus dedos, um por um, dessa sacola onde guardei todos os recibos da minha vida. eu só quero um minuto pra respirar e, pela última vez, olhar aquilo que jamais vou carregar de novo. que jamais vai fazer nos meus ombros um vergão das alças. me dêem um minutinho sozinha. eu choro feio. me deixem chorar de boca aberta. me permitam gritar. um minuto pra eu tentar anotar algumas coisas, passar telefones pra outro caderninho, copiar versinhos, escanear algumas fotos, passar algumas musiquinhas pro meu pen drive.

então eu deixo ir. não precisava violência. não precisava tortura. nem essa faquinha aí apontada pra minha barriga. eu só estava segurando a minha vida, dá licença? desculpa se dói. desculpa se eu não tenho coragem de sentir dor. desculpa se eu reagi apesar de me dizerem pra não fazer isso. desculpa se eu sou assim, meio controladora com as minhas coisinhas. porque quando elas forem enterradas, eu só vou poder pensar nelas. jamais vou poder tirar uma delas do fundo da sacola, ou do bolso aquele das moedas, e mostrar pra alguém. ou sacar meus remedinhos homeopáticos. meus químicos pesados. meus placebos coloridos. quando eu estiver mal. pega com cuidado, pela alça. e não vai jogar de qualquer jeito esse troço no chão, que tem coisa de quebrar aí, hein? e o mais importante: eu agradeceria se não metessem a mão leve dentro da minha sacola e tirassem umas coisinhas. eu sei que a sacola não é só minha, ok? mas não quero as minhas coisinhas, meus medos, meus momentos, e nem os telefones dos meus amigos afanados, na maior. morreu, morreu. porque se eu encontrar meus brincos nas orelhas de outra pessoa, e meus medos na risada de outra pessoa, e o mérito do que eu montei na conta de outra pessoa, eu sou capaz de fazer um escândalo. levem o dinheiro, mas não afanem as minhas coisinhas. agora por favor me deixa dar uma última olhada pra essa papelada que parece que nem tem ordem. já tão pedindo demais querendo que eu entregue a bolsa assim, do nada, de assalto. o mínimo que eu espero é poder fazer parte da incineração, funeral, sei lá. porque se eu tiver certeza mesmo de que morreu, talvez eu entenda. e vá comprar outra sacola. pra guardar meus recibos. mas especialmente os papéis de presentes que me dão. e a chave com chaveiro novo. apesar de ficar morrendo de medo de ser assaltada outra vez. eu não sou uma doida, viu? se eu bati em meia dúzia por quererem me tirar o que era meu, é porque outro dia deixei meu rim na bolsa. e as lentes de contato. e o filtro solar. só tem valor pra mim, isso. depois jogam tudo numa valeta pra só levar o que tem de bom pra trocar por drogas e aí?

podem levar tudo, só peço que deixem meus documentos. é bem complicado fazer uma segunda via.

[ Penkala ] 01:20 ] 0 comentários

 
eu uso óculos




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