] terça-feira, outubro 27, 2009
 
eu te machucaria, se soubesse que isso iria doer. eu te machucaria, se me importasse. eu te machucaria, se valesse a pena. te machucaria, se isso fosse mudar alguma coisa. eu te machucaria.
eu seria mais cruel ainda, se isso fosse possível. seria mais cruel ainda, se isso merecesse alguma consideração. seria cruel, se eu achasse sentido.
eu te mataria um pouco, se tu já não tivesse morrido. eu te mataria, se minha culpa valesse o esforço. eu te mataria, se tu já não estivesse podre.
eu te faria pagar por tudo, se eu não soubesse o quanto tu estás pobre. e te faria devolver tudo o que me tiraste, se não soubesse o quão vazia está essa tua caixa. e te faria reparar cada coisa, se eu não tivesse pena da tua falta de destreza pra reparar erros. eu cobraria cada bem moral que tu quebrou ou me tirou, se eu não soubesse que tu não tem como dar ou devolver aquilo que te falta.
eu faria um escândalo, se não soubesse que estou falando com os mortos. eu argumentaria contigo, se achasse que tenho um oponente à altura. eu te abraçaria e lamentaria uma perda se tu conhecesse a quem eu perdi.

só lamento é o tempo. e as ruas. e os cinemas. e as promessas. e os planos. e os sonhos. e as tatuagens, air-sambas, os filmes, as músicas, os apelidos carinhosos que eu me arrependo de ter pronunciado tantas vezes e que agora ornam o romance alheio construído em cima de um cemitério indígena, e as coisas todas contaminadas com a naftalina que a morte impõe àquilo que precisamos guardar e talvez nunca mais voltar a ver de novo. lamento que tenham me tirado coisas sorrateiramente pra serem dadas a outra pessoa. lamento que tenham deixado de me dar coisas pra dar a outra pessoa. mas lamento, muito mais profundamente, ter deixado um coração, o meu coração, achando que era amor, nas mãos de um açougueiro, que o viu como carne e moeu, jogando minha vida como guisado de segunda numa vitrine às moscas.

mas eu choraria, se não soubesse que tenho é que agradecer. eu te machucaria, se não devesse tanto a isso. te mataria, se não fosse por dever apertar tua mão. eu te cobraria o que me tiraste, se não fosse pela gratidão. eu seria cruel, se não fosse por dever ser feliz. por teres me deixado sem querer algo que nunca vais saber o que é. por teres me levado de carona até algo ao qual não podes te comparar. por teres me atirado num precipício onde, por uma dessas coincidências que a gente não explica, achei aquilo com que sonhava, a planta rara que eu achei que tivesse plantadinha no meu jardim, mas que não. e estava lá, que eu considerava daninha, no meio das pedras do abismo onde caí. se eu ainda não estou tão segura, é por estar machucada demais. mas isso passa. e se ainda não estou só rindo de tudo isso, é porque ainda não consegui colher a minha planta.

eu te machucaria, se tua figura não fosse, agora, apenas uma sombra projetada numa parede velha de alguém sob um guarda-chuva. sombra, apenas. porque é isso que agora és. uma sombra de gente. uma sombra de homem. a silhueta preenchida de negro e vazio que lembra alguém que conheci. eu procuro a origem da sombra, mas só acho mesmo o negro e vazio, comprido, projetado, virtual e imaterial.

[ Penkala ] 00:13 ] 0 comentários

 
eu uso óculos




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