] quarta-feira, outubro 28, 2009
 
Fênix

O dia em que fiz 31 foi um dos piores de toda a minha vida. Fazer 31 me pareceu cabalístico. Quando eu fiz 13 tive uma espécie de Bat Mitzváh (o Bar Mitzváh das meninas). Num ano sabático, vivi uma aventura e sofri um trauma. Minha iniciação na vida foi aí. Quando fiz 31, treze ao contrário, não tive ano sabático nenhum. O dia do meu aniversário ter sido a primeira vez em que pensei a sério em desistir da vida foi simbólico: foi o primeiro movimento de uma transformação.
As transformações nunca são suaves. Mesmo os seios, quando crescem, devagar, machucam. O roçar da camiseta já dói. As transformações são sempre doloridas, sacrificiais, ritualísticas. Ao mesmo tempo se extirpa e se acrescenta. Meu corpo estar em mudança vertiginosa justo neste momento foi, também, simbólico. Pela primeira vez tive no meu corpo a imagem que fazia mentalmente de como eu deveria ser. Tive controle, também. Tive sacrifício, esforço e dor recompensados, mas também marcados em cada uma das minhas células.
As transformações nunca permitem que se negocie. Primeiro, e aos poucos, o corpo e a mente sofrem um processo de morte lenta, agonizante e, o pior de tudo, em consciência. Enquanto a morte nos deixa desesperados, porque parece não haver vida anunciada, temos que lidar com todas as perdas que essa morte acarreta. Sem negociar, porque as perdas são pra sempre. Tudo, absolutamente tudo será transformado. É possível que sobrevivam algumas coisas boas, é possível que a transformação poupe certas partes do esqueleto dessa criatura que, sem pele, sem ossos, sem músculos, sem esperança, se agarra com toda a força nas coisas realmente importantes.
Eu cheguei num fundo de poço assustador quando desisti da vida pela terceira vez. Eu realmente desisti. E, simbolicamente, quem me salvou disso foi justamente quem tinha me posto no mundo.
Não tem noção do que é fundo do poço quem não enxergou ele de perto, quase tocando na ponta do nariz. Não sabe mesmo. Eu era uma que já acreditava ter sentido tudo, e que disse, pra uma pessoa realmente deprimida, que ela deveria ver a vida com um pouco mais de positividade. A lição veio num jumbo. Dizer pra uma pessoa deprimida que ela enxergue a vida com mais positividade é o mesmo que dizer pra uma pessoa paraplégica que acabou de cair que ela deveria levantar. Não levantar como as pessoas em cadeiras de rodas levantam. Levantar como nós, pessoas que temos ainda as pernas, levantamos. É como dizer pra um cego que ele deve fazer um esforço pra ver, ou pra uma pessoa com uma doença terminal que ela deve superar a doença e sobreviver. Percebem a gravidade? Não existe, no cérebro de uma pessoa que entra em depressão, especialmente no estágio mais profundo dela, a positividade. Não que a pessoa não quisesse. Mas é como se a palavra “positividade” não existisse pra ela. Como explicar uma coisa abstrata a alguém que não entende a nossa língua?
Foi como se uma queimada que tivesse início com uma coisa bem pequena tomasse conta de todo um continente. Não restou muita coisa, além do ar, do chão e do que está abaixo do chão. O que ficou abaixo do chão foi a raiz, e foi a semente. A semente que foi plantada já há muito, e a raiz que foi se enfiando solo a dentro pra firmar a árvore que dela dependia. Algumas raízes, é verdade, tiveram que ser arrancadas. Porque não tinham salvação. Mas o ar deu jeito de trazer a chuva. E a terra, com a água e com as cinzas, fomentou a semente. De algumas raízes cresceram, de novo, as mesmas árvores. E no lugar daquelas que morreram mesmo, outras árvores foram plantadas. Algumas árvores foram plantadas desde a semente. Outras, vieram, já criadas, mas podadas e tratadas, com as raízes num saco, pra que reflorestassem rápido a área destruída. E sobraram, claro, as pessoas que estiveram lá, no meio do fogo, jogando água de baldes, ligando mangueiras, sobrevoando a área com planadores de irrigação. Essas são as pessoas que também ajudam no reflorestamento. E com quem o solo tem dívida eterna de gratidão. Porque o fogo nunca ia ser apagado mesmo, mas em alguns momentos um balde d'água ou uma mangueirada foram responsáveis por salvar uma semente, uma raiz. Ou por aliviar o calor.
Toda a transformação implica em dor absurda. E pede paciência. Porque primeiro começa um processo de rompimento da pele. É uma dor horrível, mas não a pior dor que ainda virá. A pele que se rompe vai, aos poucos, morrendo. Mas a cada pedaço que ainda vive, a pele se agarra ao corpo que não quer deixar. E o descolamento dói. E a pele morre. E aí sobra um monstro horrendo, exposto e frágil, sem pele, sem defesa, indescritivelmente inumano. Essa, então, é a dor maior. Porque a água, que é vital, dói. O ar, que é vital, dói. A comida, que é vital, dói. Não dá pra dormir, de tanta dor. Se passa muito frio. E se fica sozinho. Sozinho num mundo cheio de gente, ora veja. Mas mais sozinho que nunca se esteve. A dor é tão lancinante que não permite pensar. Por isso, jamais diga pra uma criatura assim que ela deve se manter bem, que ela deve levantar a cabeça, que deve ter paciência. Alguém alguma vez tentou dizer pra uma pessoa que acaba de ser aberta do umbigo ao coração que ela deve ter paciência porque a dor vai passar?
A dor passa, é lógico. Mas a dor é sempre infinita enquanto dura. Não é por nada que a natureza nos fez equipados com um cérebro capaz de apagar a memória física da dor. Depois da dor, o que fica é um conceito. Se lembrássemos das dores como lembramos da aula de ontem, jamais suportaríamos viver. Pode ir procurar que isso deve estar em qualquer livro sobre neurologia.
Saber se proteger é essencial pra uma criatura em transformação. Enquanto não tem a pele pra defender, que se use o cérebro e se proteja dentro dele! Mesmo assim tem aquele médico residente, sem noção alguma de humanidade, e chega lá, de madrugada, quando tu tá dormindo, e te enfia uma agulha de calibre descomunal, e te injeta algum remédio que arde pra burro e que tu só percebe que é remédio porque depois tu te dá conta de que alguma coisa mudou, pra melhor, a tua situação. Mas o susto, e a falta de noção do cara, e a violência com que ele te fincou são terríveis, e a ardência dura tempo suficiente pra tu ficar chorando o resto da noite. Mas aí tu te acalma, né? Não tem jeito. E continua te protegendo, embora a porta esteja sempre aberta pros residentes sem noção de plantão e eles não se contentem em te enfiar a agulha só enquanto tu pode te defender. Vai quando tu tá quieto, dormindo, tapado até as orelhas.
Então, um dia, a água passa a doer menos. E o ar, também. Sinal de que a fina camada da pele nova, ainda úmida e muito, mas muito frágil, está começando a brotar. Sorte que não teve nenhuma doença oportunista nesse meio tempo. Sorte que nenhuma infecção entrou enquanto o corpo estava exposto. Sorte. Muita sorte. Coça, e não tem paciência no mundo que evite que tu dê uma coçadinha. E quando o processo se completa e a pele, finalmente, está totalmente nova e a transformação está feita, existem as cicatrizes pra curar. Em algumas áreas a pele fica mais sensível, mas noutras ela nasce toda muito forte. Em alguns lugares a pele repuxa cada vez que tu dá um passo, mas isso é a pele se esticando, né? Tu não queria que ela viesse sob medida, ou queria?
Foi assim que vivi um bom pedaço deste ano. Como um continente devastado pelo fogo. Como uma pessoa que perdeu 100% da pele num incêndio. Alguém vai querer emendar algo aqui como uma borboleta, que de lagarta vira um animal alado e magnífico. Me poupe da pieguice, alguém. E de toda a poesia vazia. Porque as lagartas vivem uma vida e, não gostando mais dessa vida, não se gostando mais como lagartas, um dia resolvem se meter num casulo hermético, pra depois abrirem um fecho e dele saírem como borboletas, esticando as asinhas e anteninhas. Como se nada tivesse acontecido. Sem dor, sem desespero. Encasuladas numa pupa protegida. É bem verdade que elas têm seus méritos, porque se transformam de lagartas em animais alados e magníficos. Mas não é a mesma coisa, não. Certos animais nascem lagartas e têm a sorte de passar pela transformação quase inconscientes (ou impunes). O frio, o calor, a chuva, a dor... nada disso entra na pupa. Mas certos animais nascem dum jeito e um belo dia, numa combustão violenta, espontânea ou com o dolo de alguém, simplesmente ardem na pior dor de todos os tempos. Voltam praticamente como eram antes, mas melhorados. Não voam, e nem ganham cores muito mais bonitas. Mas melhorados.

Foi assim.

Eu sobrevivi. Não sem ajuda. Não sem o apoio de muitos bombeiros e médicos (enfermeiros, paramédicos, parapsicólogos e psiquiatras, curandeiros e curiosos de todas as medicinas, anjinhos de toda sorte, valeu, hein?). Mas sobrevivi. E me tornei uma criatura muito melhor. E mais forte. E hoje dá até pra agradecer ao fogo que um motorista fumante provocou na imprudência de jogar a bagana de cigarro pela janela. Agradeço mesmo. Não fosse isso eu não teria encontrado as coisas mais importantes (que o fogo não queima). E nem teria essa pele maravilhosa que eu tenho hoje. Aos 31, com tudo o que sei, mas com 10 anos a menos (e, olha que beleza, sem a idiotice dos 20 anos. Porque aos 20 eu era bem inteligentinha, mas, como toda a menina de 20, eu era estúpida).
Aos 31 eu tirei a carta do Arcano Sem Nome. A Cartomante disse: não te preocupa, que isso na roda da vida é transformação. “Teu ano é de luz”, ela disse. O Arcano Sem Nome, ou A Morte, é a carta de número 13, número que eu sempre gostei. Aos 31 eu tirei a carta da Morte. E tatuei, nessa pele nova, uma fênix e um dragão. O dragão me protege pra sempre. A fênix me lembra que não importa o fogo que destrua, o calor que arda. Ter bom coração faz a gente renascer das cinzas. Só é preciso ter paciência (nenhum fã de Guns n' Roses se manifeste, por favor!).
Aos 31 eu saí do meio desse fogo e, quando abri os olhos, vi que no meu peito tinha um tremor que era reverberação de um coração que estava cheio de sangue de novo. Vermelho, forte, coração. Regenerado. E agora cheio. O que sobrou do fogo foi o que realmente deveria sobrar. E nas costas eu vou levar, pra todo mundo ver, tocar, admirar, esta marca. Que é uma cicatriz. A última depois do fogo. E a primeira de um novo sopro. Que arde sem se ver, que dói e não se sente. Que não sei se é pra sempre, mas sei que me preenche. E é por isso que eu aceito ter sofrido essa combustão. Porque o fogo devasta, mas limpa. As cinzas são morte, mas também fertilizam. O que arde, dói. Mas também faz o sangue correr mais rápido.

[ Penkala ] 19:59 ] 1 comentários

 
eu uso óculos




CLICA QUE VAI:
www.flickr.com
Penkala's eu, casa & coisas photoset Penkala's eu, casa & coisas photoset

BLACK BIRD SINGING:

Get Firefox!








Powered by Blogger


RSS