] domingo, outubro 11, 2009
 
não, ninguém sabe como é ser o cara mau, o cara triste por trás de uns olhos azuis. ninguém sabe mesmo. nas costas, se carrega um mundo. e a dor dos outros nos culpa, na passagem, por acharmos nossa dor a pior de todas. ninguém sabe o que é estar sozinho no meio duma multidão. ninguém sabe melhor o gosto salgado da água vertida do teu olhar oceânico. profundo, bonito, tão interessante. e tão triste. um oceano preso num globo, querendo sair a todo instante, enquanto a garganta segura tudo e não deixa transbordar aquilo que faz força lá por dentro. não, ninguém sabe o que é dar uma aula pra 30 alunos interessados no teu jeito destrambelhado e quando eles dizem tchau profê tu sentir que a tua vida é um vazio. e nem o que é fingir que o óculos tá sujo pra poder limpar uma lágrima grossa, quente e salgada que sobrou do esforço pra continuar.

ninguém sabe o que é ser odiado, ou o que é ser rejeitado. a alma dói quando enxerga as costas das pessoas indo embora. a alma dói a cada 24 horas de solidão. a alma dói porque as costas geladas não encontram alívio pro frio. ninguém sabe o que é estar fadado a fingir o tempo todo, e a rir um riso solto e parecer uma pessoa engraçada quando a maior dor do mundo se alastra e rasga cada artéria, e mesmo assim tu continua vivo.

os meus sonhos não são tão vazios quanto a minha consciência parece ser. eles são azuis também, como o azul de um céu perfeito numa fotografia bem tirada. os meus sonhos são tão repletos, e tão simples. e são complexos e sinceros. e minha consciência, tocando a vida desse jeito, parece mesmo estar vazia. mas não está. é só ilusão dos olhos de quem olha de fora e pensa que vivo num mundo mágico, onde as consequências não me atingem. é que simplesmente pesa demais o baú de dores que carrego dentro da minha consciência. pesam as culpas pelo sofrimento causado nos outros por sofrer. pesam os sofreres. e pesam as dores de não poder fazer nada. ninguém sabe o que é carregar isso e continuar andando, quando o que se quer é fechar a porta do quarto e chorar por dois meses seguidos. ninguém sabe o que é chorar um choro desesperado com o rosto apertado no travesseiro e depois ter que dormir sobre o gelado das lágrimas na fronha. ninguém sabe o que é fazer o máximo pra não tornar a situação pior que já está e ainda ser julgado e criticado por isso. se eu nego muitas de minhas lágrimas por trás de reticências, se eu omito muitas de minhas dores excruciantes por trás de supostas negações, é porque contar sobre elas não faz com que doam menos, mas me traz ainda mais culpa por espalhar entre os meus o sofrimento que não ajuda em nada.

tem horas em que fico muito sozinha, e essas são todas as horas do dia. e levo no rosto a mágoa de alguém que tenta me tirar dessa solidão. ninguém sabe o que é ter que dizer que sua solidão não tem jeito, não tem amigo que cure. ninguém sabe o que é ser vazio no meio de um mundo cheio. o que é ser morto no meio dos vivos. o que é ser ódio no meio da lua de mel dos outros. o que é ser desespero no meio dum caminhão de mudança.

entre os livros, os cds e as ferramentas.

meu amor é vingança. e só eu sei o quanto isso me custa. só eu sei o que dizia naquela etiqueta de preço. ninguém sabe o que é ter uma espada crivada de jóias caras cravada no coração. ninguém sabe o que é se dobrar diante da dor e se afogar nas próprias lágrimas. ninguém sabe o que é acordar com as costas doendo pelo esforço de tentar chorar menos. ou pelo menos mais baixo.

ninguém sabe o que é sentir essas coisas todas como eu sinto. e eu te culpo. não posso fazer nada. não tem como não. ninguém faz mais esforço pra conter a raiva, e nenhuma das minhas dores e aflições pode transparecer. ninguém sabe o que é guardar tudo numa caixa molhada. nem como segurar quando o fundo começa a ceder. ninguém sabe o que é fechar numa mala de mão todas as roupas sujas. pra poder ir embora e nunca mais olhar pra trás. ninguém sabe o que é esconder um monstro dentro de si, ninguém sabe o que é andar com um pé só sem chamar a atenção. e nem o que é deixar ir quando o que se quer é ajoelhar. e pedir por favor não. não, ninguém. ninguém realmente sabe o que é fechar um armário com uma vida se debatendo dentro. e dar jeito de segurar as portas enquanto procura a chave. ninguém sabe o que é sentir sede enquanto carrega nas mãos galões e galões de água, sem poder parar, sem poder abrir a tampa. os dedos cortados, os braços ardendo com os tendões esticados até o limite, o passo raso por causa do peso. o passo lento por causa do esforço. ninguém sabe.

então, quando meu punho se fechar, com as minhas unhas cravadas na palma da mão, abre na marra, antes que eu use ele e perca a calma, antes que eu quebre meu pulso, antes que eu perca meu pulso, antes que eu mate alguém a grito. abre na marra e bem rápido, me algema se for preciso, me deixa atada num poste que seja de concreto e aço, pra que eu não faça a luz de todo o quarteirão acabar. e quando eu sorrir, me conta uma notícia ruim antes que eu perca a dignidade, antes que eu comece a agir como uma louca, antes que eu desça do salto e perca a compostura. antes que eu abra as costelas e exponha meu coração. antes que eu gargalhe todo o meu sarcasmo e ironia. antes que eu ria pra não chorar. porque quando chegar nesse estágio, eu estarei perdida já, e nada do que eu possa fazer vai me parecer constrangedor ou inumano.

e se eu engolir alguma coisa ruim, enfia o dedo na minha goela, me faz vomitar. talvez junto venha o veneno, talvez junto venha o amargo que venho sentindo há muito tempo. me deixa expelir toda a angústia, me ajuda a me livrar do ácido, do que corrói cada uma das minhas entranhas. preciso apenas de um balde e um tapa nas costas quando eu engasgar. preciso apenas de um pano úmido, um copo d'água, um lenço pra limpar o canto da boca. e se eu tremer, por favor me coloca um cobertor nas costas, me mantém quente, por favor, me deixa usar esse teu casaco. porque ninguém sabe o que é ficar doente sozinho e desejar ficar ainda mais doente pra poder se entregar. ninguém sabe o que é rezar pra não adoecer, e na febre ser obrigado a encontrar um termômetro no escuro, de pés descalços. ninguém sabe o que é segurar todos esses malabares no ar como se o tempo pudesse parar, ninguém sabe o que é ter que apresentar o maior espetáculo da terra todos os dias e depois limpar o rosto repleto de pasta d'água e de uma alegria contagiante falsa. ninguém sabe o que é a culpa de ter explodido os balões de todo mundo sem querer quando o seu próprio balão estourou em mil pedaços em um piscar de olhos. não, ninguém sabe o que é carregar essa dor, carregar essa culpa, carregar a sanidade numa caixinha, carregar na algibeira uma arma de fogo que assusta, que afasta, que cria uma redoma de vidro intransponível. que já começa a embaçar com o calor gerado pela própria raiva e dor. não vejo nada. e por trás dos olhos azuis, ainda um oceano salgado pra atravessar a nado.

[ Penkala ] 19:59 ] 2 comentários

 
eu uso óculos




CLICA QUE VAI:
www.flickr.com
Penkala's eu, casa & coisas photoset Penkala's eu, casa & coisas photoset

BLACK BIRD SINGING:

Get Firefox!








Powered by Blogger


RSS