] segunda-feira, outubro 05, 2009
 
quindins do Quintana

a mãe me mandou um texto por mail (minha mãe daqui a pouco me manda colocar um casaco via twitter) sobre um sujeito que sempre deixava livros e quindins de presente pro Quintana, na portaria lá da hoje Casa de Cultura. aí o texto falava sobre a presença que a gente não deve fazer pesar sobre os outros. sobre respeitar o momento em que as pessoas vestem aquele blusão horrível, sujão e rasgado, que é quando elas não estão sendo olhadas por ninguém e não esperam intrometidos batendo na porta sem avisar da visita.

[sou terminantemente contra visitar pessoas sem antes avisar. e sem bem antes perguntar se pode, porque avisar "tou na esquina" não é muito útil quando os teus amigos estão naquele momento de romance selvagem no meio da tarde de domingo]

e aí o texto fala que é possível se estar junto sem se estar fisicamente próximo. eu fiquei pensando sobre isso. fiquei triste sobre isso. fiquei mal sobre isso. porque existe aquele abismo entre algumas pessoas que é intransponível. estar junto sem estar perto fisicamente funciona quando se manda um mail, quando se liga, quando se usa uma coisa que lembra alguém. mas o abismo se abre quando a gente pensa em alguém, pensa em dividir um troço com essa pessoa, pensa em contar a última merda que a Lady Murphy andou te aprontando, e não tem como. ou quando se sofre uma injúria e a primeira coisa que se pensa é em chamar um amigo e dizer "tu não vai acreditar *** [insira aqui a circunstância da injúria]". e aí o amigo está a way to away, sabe? tu pensa em dizer "lá lá lá, lá, eu acabo de ser convidada pra passar um findi na serra com direito a uma chegadinha num spa e tu nã-ão. e a propósito, tou comendo sorvete e tu nã-ão. e eu ganhei uma caixa de chocolate belga e tu... [neste momento a pessoa te interromperia com algum deboche qualquer, ou pediria sorvete também, e tu diria: "tá aqui... mas vem logo que tá no fim"]". mas... so far away from me (puta que me pariu, eu não posso estar falando sério! Dire Straits numa hora dessas?).

tu precisa pedir desculpas por ser alguém idiota, tu precisa perguntar por que mereceu tal e tal coisa, tu precisa dizer "mas olha só, sabe aquilo assim e assim? não era nesse sentido que eu queria dizer, tá?", tu quer muito dizer "prometo que nunca mais falo isso" ou "que vou ser menos tirano", esse tipo de coisa. e tu não consegue. porque tu foi idiota. tu fez cagada e magoou alguém, ou assustou alguém com teu comportamento intempestivo e passional. porque tu disse coisas no calor da hora. ou depois dum tragoléu. tu falou merda. tu foi tirano. e é por isso que o abismo, sabe? o abismo é, por natureza, por conceito, abissal. embora o so far away from you seja, na verdade, o espaço que te impede de te dirigir à pessoa.

ou, na pior das hipóteses, tu queres mais é quebrar os pratos. ou limpar os pratos. ou pelo menos ver os pratos.

so far away from me, so far I just can't see

[ok, prometo, esta foi a última inserção de Dire Straits, tá? é que nem esses dias que me veio uma música do Legião na cabeça e, god forbid, eu detesto Legião. mas a letra coube, e era uma das letras mais bobas, mas coube e tals, então eu cheguei a dar uma cantadinha. mas prometo. sem Legião. sem Dire Straits from now on]

[e se alguém notou que from now on é uma música do Supertramp, não me desculpo, viu? porque deles eu gosto. Supertramp é jóia]

mas então, o abismo abissal. como é que se mede uma distância dessas? pelo número de lágrimas que tu derrama quando vê que a pessoa deu aquela assustada legal e evita [a fadiga] falar contigo afú, nem te atende, porque um dia tu ultrapassou um limite? pelo peso que tu fica carregando até no ônibus, que é o peso que vai restando de tu não poder chegar no computador e dizer "puta que pariu, tá tocando só música triste aqui perto", ou o peso dos vícios que tu não consegue dividir, e aí toda vez que tu procrastina vendo aquela bobagem na internet, e descobre uma bobagem mais bizonha ainda, mas não pode mais mandar o link e dizer "tu já viu isso aqui? é bizaaaaaaaaaarro!".

porra, os abismos são uma merda, sabe? porque tu fica que nem cachorro em beira de estrada. sabe que é um perigo atravessar, vê carro de tudo quanto é lado, mas vai tentando, porque não tem outro jeito, já que as coisas não vêm até ele... e aí eu fico pensando nesse cara que ia até a portaria do prédio do Quintana e deixava lá um livro e quindins. penso em deixar um livro e um quindim pra fechar esse abismo. mas qual livro? qual quindim? mas o mais terrível desse negócio de livro e quindim é que é bem capaz de tu passar um tempão deixando lá um livro e um quindim e nunca ter idéia nem se o Quintana comeu e leu. e ter que exercitar o desapego pra não avançar de novo apartamento do Quintana adentro. um desapego que te acompanha até o trabalho, ou até a padaria, o supermercado, o caixa eletrônico do banco. um desapego que diz que o Quintana é uma pessoa extremamente reservada e tímida, apesar daqueles poeminhas engraçadinhos, e que talvez jamais desça pra pegar os quindins ele mesmo. o que torna ainda mais difícil a chance do Quintana ir na tua casa e te levar um quindim. e ok, porque tu não espera que o véi faça isso. tu só espera bater um papinho com o Quintana ali na praça. jogando conversa fora, de tarde, enquanto mata trabalho/aula. e talvez ouvindo o véi dizer que odeia o ceromano, e compartilhar com ele a mesma paixão pela omanidade.

[ Penkala ] 00:37 ] 2 comentários

 
eu uso óculos




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