] domingo, outubro 18, 2009
 
tem esse dragão da história. monstro sem noção do próprio tamanho, sem noção da própria força, sem noção do tipo de sangue que pulsa através do seu coração de dragão e se espalha pelas suas asas de dragão e escorre pelos seus ferimentos de dragão. o dragão e sua língua queimada pela furiosa agressão ao mundo, o dragão e suas pernas cansadas de tanto peso, o dragão e seu coração partido. e seu olhar vazio de dragão. numa caverna onde já não cabe todo, numa mitologia na qual não se encaixa, exposto à chuva, ao sol, às tempestades de vento, à incompreensão. o dragão e suas unhas cravadas nas patas antes crispadas. quando andava, devagar, o barulho dos cacos no peito era irritante. o fogo queimou a garganta, a língua, a todos os que se encontravam a cerca de 3 metros.

o fogo não deixava o peito respirar. um peito cheio de calor e sufocamento. os cacos, aos poucos, se diluindo na sua corrente sanguínea de dragão. os cacos maiores rasgaram veias. os menores só provocaram um desconforto. o seu andar de dragão e o peso nas costas de dragão e o tilintar dos cacos no peito, e o peito de dragão sufocado.

saiu da sua caverna apertada e escura, feriu a retina, regenerou o olhar, fez crescer novas cascas, escondeu os lugares onde as cascas não cresceram ainda. saiu e viu jorge. jorge que jogava pedrinhas pra acordar o monstro. jorge que caminhava, despreocupado, arrastando a espada, que passava na areia e ficava ainda mais afiada.

jorge que estava ali de curioso, que estava ali de passagem, que estava ali pensando se poderia mesmo salvar a última moça dos dentes enormes de dragão, salvar a pele branco-azulada de uma princesa alienada, que seria dada a ele caso matasse o dragão com sua espada. sua espada prata de estrangeiro. sua espada afiada de jorge em busca do tesouro que o rei prometia. jorge e sua confusão, jorge e seu primeiro impulso corajoso, jorge e seus pés andando pra trás quando o dragão tenta, e tenta, e tenta soltar mais fogo do próprio peito. e quando tenta defender a moça, já escondida dentro da sua barriga, o dragão queima tudo em volta. e jorge, tomado de um repentino sopro de consciência, foge. na história diz que o rei manda matar jorge. jorge e sua raça errada. jorge que não era pra estar lá. jorge que é de outro território. diz a história que jorge mata o dragão, munido de sua espada e sentado sobre um cavalo branco. o cavalo branco e sua mitologia. o cavalo branco e sua romântica figura. o cavalo branco que não existiu, a espada que não foi desembainhada. as costas de jorge fugindo. as costas sobre um peito cheio de medo, culpa, confusão e boa índole.

jorge e sua repentina simpatia pelo monstro. jorge e sua impossibilidade de matar o monstro, jorge e seu medo de abrir o monstro e de lá tirar a moça. jorge e seu medo de errar. jorge e sua coragem de se isolar.

e a moça, no escuro aquecido da barriga do dragão, permanece sem ver, permanece sem andar, permanece protegida pela casca do dragão, sob suas asas de dragão e envolta no calor do fogo do peito do dragão, sufocada pelo calor do fogo do peito do dragão. a cada passo, o tilintar dos cacos, o soluço da moça, o olhar vago do dragão, com medo da espada e, ainda que queira se defender como dragão, desejando logo que a espada de jorge corte sua cabeça de monstro, tomada pelo veneno de monstro, que faz com que o fogo de monstro queime aquele que chegar perto e torture ainda mais seu coração de monstro. a moça e sua inconsciência de moça, sua inconsequência de moça, seu desespero de moça e sua paixão de moça. a moça e seu sem saber de jorge, a moça alienada de jorge, a moça e o medo de encontrar jorge. a moça e o desejo de encontrar jorge. a moça e o seu triste dilema:

crava suas unhas, por dentro, no coração do dragão; morde os músculos por dentro e chora lágrimas salgadas por dentro do dragão? e torna o dragão irrascível. torna o dragão furioso. torna o dragão cego e sem limites? e faz o dragão lutar com jorge, faz o dragão, em sua dor interna de dragão, em seu sufocamento de dragão e sua ausência de limites de dragão lutar com a espada de jorge, laçar com o rabo o pescoço de jorge? e trazer jorge pra dentro de sua barriga de dragão. jorge fugiu. e se jorge não conseguir matar o dragão, salvar a princesa e tomar o rumo da sua própria mitologia, o dragão engole, o dragão faz jorge passar por sua garganta, com sua espada de jorge e os espinhos de sua armadura de jorge. e lá dentro, mistura jorge à moça, e sufoca jorge. o dilema. ela provoca isso? ela sabe do que é feito o coração de jorge? ela conhece as paixões humanas tão bem quanto conhece, por dentro, as paixões do dragão? ela provoca o estrago?

o dragão e seu peito sufocado de dragão, as veias rasgadas de dragão, o coração partido de dragão e sua casca espessa de dragão. e a solidão enorme de dragão, tomado pelas entranhas pela moça e sua pele branco-azulada de moça. e suas lágrimas agridoces de moça. e seus véus de moça que nele provocam indigestão.

[ Penkala ] 22:58 ] 0 comentários

 
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