] segunda-feira, dezembro 14, 2009
 

Q.I. de 137, me faz uma massagem?

eu não vou me adaptar, não vou, não vou. diz que inteligência também significa que a pessoa consegue se adaptar às situações mais inusitadas (inusitado é um conceito absoluto, né não? mais inusitado, só dois inusitados) da melhor forma possível. mas tem coisas pras quais o meu cérebro não foi talhado. e eu não tou falando de matemática. assumo, tá? tenho probleminhas com a matemática. não com raciocínio lógico, mas com matemática.

meu cérebro de menina foi talhado pra estudar e aprender da melhor forma possível, o mais rápido possível, a maior quantidade de coisas possível aplicáveis a um sem número de coisas reais. eu fui criada por pessoas que sempre esperaram o melhor de mim. eu fui criada como um ser humano, não como uma menina. e é por isso que eu tenho essa mania de me achar igual em necessidades, desejos, sonhos, obrigações e etc. a todos no mundo. sejam essas criaturas meninos ou meninas.

e tava eu andando na linha nem sempre reta da evolução pessoal quando, de repente, não mais que de repente, um desvio no meio do caminho me obriga a pensar rápido e me adaptar fortemente às novas regras (sim, porque a vida é Calvinball, sabe? as regras são definidas na hora do jogo. no meio do jogo. como le gusta). ok, porque eu tenho Q.I. de 137 pra quê, néam? (Esse número tá defasado... terapeuta também deu um ponto na escala que supera isso. mas eu acho o número bonitinho, sabe? centrinteisete.) eu me adaptei. tou me adaptando. vou me adaptar ainda mais. menos com uma coisa: que a vida decida o que que eu vou fazer baseada no fato de que nasci aquela guriazinha lá com as bochechas rosa. a vida ou, o que é mais inadmissível ainda, um ser humano qualquer que queira se aproximar. e se não me conformar com isso faz de mim uma pessoa menos apta a viver neste mundo, so be it. não entendo mesmo por que me largaram neste planetinha bonitinho mas infestado de... pessoas idiotas. pessoas idiotas, na minha concepção, né o cara que ignora 1/4 daquilo que eu sei. pessoas idiotas são as que batem no próprio cachorro porque o bicho tá assustado de ter que atravessar a perimetral. são pessoas que tratam faxineira como lixo por ela ser faxineira. pessoas que reclamam do governo e do estado lamentável das cidades, mas colocam lixo no chão sem a menor cerimônia.

a vida tem que andar e, independente da bosta do meu Q.I., eu lavo louça, eu pego meu sobrinho no colo pra ele parar de chorar, eu pinto parede vou ao banco faço café ajudo a carregar móveis numa mudança e escovo o vidro do box do banheiro com saponáceo. a vida tem que andar e eu preciso de alguém que divida ela comigo. não sou mimimi pra carregar as coisas, sabe? os carregadores das 500 mudanças que eu fiz que o digam: pego estante pesada sim. coé o problema? a vida tem que seguir e eu quero dividir esse troço com alguém. aparentemente, segundo consta lá na minha gênese, alguém sendo um ser humano homem do sexo masculino. nada contra as meninas, mas eu sou arrogante demais pra deixar que uma TPM se sobressaia à minha dentro de casa. aqui quem surta sou eu, tá? fora o risco absurdo de estar com uma menina que, de repente, do nada, vai me aparecer vestindo cor-de-rosa. ou querendo ver comédia romântica. mulheres às vezes apresentam esses sintomas. eu mesma, confesso. só que de mim eu aguento...

enfim. tava dizendo que eu queria dividir minha vida com alguém. queria mesmo, sabe? e com dividir eu digo compartilhar. companheiros compartilham. porque eu sei bem que tem hora que é jogo mesmo, e tu tá no time das meninas e neguinho tá no time dos meninos (normalmente são eles que ficam sem camisa). mas de resto: companheiro. e aí vem a humanidade e me racha a cara me lembrando todavez daquela coisinha que eu definiria como ceromano fail!

porque não basta eu viver com um estilete na bota, e nem treinar boxe, e nem fazer cara de quem vai patrolar meio mundo. eu sou mulher. não adianta. e, apesar de achar que isso me diferencia bem pouco dos homens de n pontos de vista, tem sempre alguém pra me lembrar de que estilete é pouco, mimosa, TEM QUE DESEMBAINHAR A HATTORI HANZO. se eu acho que tenho que lutar, que o feminismo não morreu, que mulher é oprimida? não. não acho, não. acho que eu não deveria ter que lutar pra ser considerada um ser humano. acho que o feminismo é uma babaquice sem tamanho que só faz as mulheres parecerem idiotas, porque feminismo é a mesma coisa que machismo, só que ao contrário. a mulher é oprimida, sim. assim como várias pessoas o são, e acho todas essas opressões um absurdo, e surreais quando se trata de oprimir alguém por esta pessoa ser do sexo feminino. mas eu não quero brigar, meo! eu não quero levantar bandeiras dentro de um relacionamento, quando na verdade seria mais produtivo, divertido e lógico eu levantar a saia. eu só queria não estar sempre com esta maldita sensação de que na verdade mesmo eu que tou errada.


aí eu chego aos 30 (passei dos 30, ok? sem mais comentários) e me dou conta de que todos os meus planos foram pelo ralo, de que eu tava fazendo tudo errado, de que eu tava sendo idiota a maior parte do tempo e de que eu precisava me tornar alguém melhor. me dou conta de que dum dia pro outro eu vi tudo aquilo que batalhei pra construir durante anos sendo demolido. e fazer o quê, né? tem problema não, sabe? eu não vou me mixar por uma bobagem dessas. sinceramente. só que as minhas convicções tão duronas, ao que tudo indica, estão sendo apedrejadas. me resta defender as que eu acho que nem vem que isso eu não mudo manem fudendo! e uma dessas convicções diz respeito ao fato de que eu não acredito num mundo onde mulheres sirvam pra casar e ter filhos. (isso sem contar com o fato de que já inventaram casar e ter filhos E ser alguém útil pro mundo e se realizar profissionalmente, sabe? inventaram e tem de vários modelos)


e eu sou respeitada desse jeito aí que eu sou, sabe? em alguns casos, sou a única mulher dum determinado grupo. e me viro perfeitamente bem no meio dum bando de caras. e todos eles me respeitam na boa e sem frescurinhas (nada pior pra mim que ser tratada como mulher num lugar onde isso não tem absolutamente nenhuma relevância). e é por isso que eu fico bem chocada mesmo quando eu conheço alguma pessoa e pá e tal e essa pessoa vem me dizer asneira do tipo “que mulher foi feita pra ficar em casa cuidando de filho”.


óbvio que isso não me preocupa, nem me abala a sonequinha que porventura eu tivesse depois dum almoço (caso eu dormisse fora de hora). me abala, sim, que esse discurso tenha várias modalidades e intensidades. dependendo do rapaz, até várias máscaras. me assusta que aquilo que eu seja ou que eu nunca tenha visto problema em ser esteja sendo mostrado pra mim como inadequado e tal. mulher que usa tatuagem é isso, mulher que faz boxe é aquilo, mulher que fala palavrão, aquilo outro. de repente eu comecei a me sentir naquele lugar da mocinha aquela com quem sujeito jamais vai casar. coisa que eu jamais fui e, acredito eu, jamais vou ser. ser a moça pra casar as in ser a moça com quem se assume algo sério.


caralho, seres humanos são tão mais complexos, pombas! colé a desse mundo, hein? não posso acreditar que os homens – uma parcela cada dia maior, segundo o que vem me aparecendo às vezes pela frente – sempre tenham pensado e ainda pensem as coisas dessa forma! se tu é a santinha, tu merece ser chifrada e muito, embora seja a escolhida pra namorar e ter filhos. se tu é a comportada, o cara acha “sem sal”, mas é a que ele acha que é mais segura pra se ter um relacionamento. se não fala mais alto, se não levanta o dedo, se não bate boca de igual pra igual, o cara monta e abusa, mas ela é a que o cara gosta, porque é aquela pra quem ele vai voltar depois da farra. se é a gostosona, o cara olha, o cara baba, o cara homenageia. mas jamais leva pra casa.


falem sério que isso existe ainda!


eu era uma menina bem criança até uns 13 anos de idade e me fizeram de boba. eu era “a santinha” até os 15 e me trataram que nem idiota. eu me revoltei, mas continuei séria e leal ao que eu sou e só perdi com isso. aí eu resolvo sair da minha ostra, tentar deixar de ter medo daquelas coisas que já me magoaram muito e ainda magoam, tentar esquecer certas coisas e aprender a me enxergar de outra forma, e aí eu sou vulgar? eu sou inadequada? eu sou perigo?


tomem todos nos seus rabos, homens imbecis que acham isso. eu sou bem mais complexa, sabe? tão complexa que eu só quero um abraço. eu queria poder chorar num ombro. tão complexa que eu não sei não abrir meu coração pra quem eu tenho um coração cheio de alguma coisa. eu quero coisas como um “boa noite, moça”, eu quero que falem do cheiro do shampoo que eu usei no cabelo, uma mensagem de boa sorte, a certeza de que eu faço diferença. e de que eu sou isso pelo que eu sou e, ok, eu aceito, apesar de muita coisa do que sou. a Emily tuitou outro dia que o que ela precisava era duma declaração de amor. não de dinheiro, coisa que no estágio da vida dela é necessário. nem de um emprego melhor. nem de casa. nem emagrecer. nem férias. não. uma declaração de amor. menina trabalha pra caralho, tem aquele cérebro bem exercitado, é a coisa mais bonitinha... e tá precisando apenas disso. seria fácil se ela, se eu, se algumas que eu vejo por aí, desistíssemos de esperar e passássemos a aceitar. de lutar, e passássemos a conformar. seria bem fácil, sabe?

tá, eu sei. sei que tem aquele meu momento guardado pra mim. em que eu vou sentir que só preciso mesmo é de um chuveiro novo, uma internet mais rápida, um creme anti-idade que de fato seja o que diz a propaganda, essas coisas. por enquanto eu preciso de toda a vastidão do que a Emily diz aí que precisa. enquanto isso não chega, eu só aceito essas taquicardias fora de hora, esse avermelhamento das bochechas, esse pouquinho que pra mim significa tão muito (e que pode não ser nada, mas pode ser tudo). porque pra que um Q.I. de 137 se eu fosse “casariterfilhos” apenas? mas pra que um Q.I. de 137 quando tudo o que eu queria era algo que talvez muita guria medíocre por aí tenha fácil, fácil? de que serve um Q.I. superior quando isso só me ajuda a perceber a vastidão e a profundidade do que é fatídico: eu falo pras paredes, como Shirley Valentine. meu Q.I. não pega na minha mão. meu Q.I. não me alcança a toalha. meu Q.I. nunca vai me dar isso que a Emily, outra que deve ter um belo dum Q.I., quer tanto.


[ Penkala ] 23:27 ] 0 comentários

 
eu uso óculos




CLICA QUE VAI:
www.flickr.com
Penkala's eu, casa & coisas photoset Penkala's eu, casa & coisas photoset

BLACK BIRD SINGING:

Get Firefox!








Powered by Blogger


RSS