] sábado, janeiro 30, 2010
 
a cartomante era cega, e olhava tão honestamente como se enxergasse dentro dela, a moça que entregava ali o futuro. os segredos. a cartomante cega disse, decidida, que a metade dela estava por aí.

"por aí?", perguntou a moça, seu futuro em ânsia e seus segredos.

"por aí. no mundo. andando, sofrendo, sorrindo, de férias, trabalhando. dormindo tarde, acordando sozinho, esperando o sinal abrir, pegando chuva, não acreditando que pode ser feliz. ainda. ou que pode ser, de qualquer forma."

cada carta, um número novo. cada número, a certeza: tem uma outra metade aí. "o tarot é uma ciência", repetia a moça e seus medos. suas crenças. e sua esperança.

"tem medo. tem tanto medo. tem medo da vida. tem coração bom, tem coração do bem. mas medo. tanto medo. de se entregar e não dar certo. de querer tanto e não conseguir. de gostar mais do que deveria. se sente fracassado. tem coração bom, mas tem medo"

"fracasso não existe", pensou a moça e seus segredos.

a cartomante, cega, pergunta se ela, a moça, o futuro, os segredos... pergunta se olhou bem pro número da carta.

"é aquele número outra vez", disse a moça. "aquele número que já deu antes, aquele número que deu sempre", repetiu. o futuro nas mãos da mulher cega. nas cartas. os segredos nos olhos opacos da mulher vidente.

a cartomante aproximou o rosto, fez menção de segredo, olhou fixamente, como se olhasse. e sem piscar, disse:

"tua metade está aí. sofre, tem medo. sorri, tem medo. dorme tarde, tem dúvidas. um nó no coração, um sentimento de fracasso que não é verdade. aposto minha visão que tenta, em vão, colocar tudo no lugar depois da bagunça que tu fez lá dentro. mas não quer. tem medo, mas tem vontade. tem medo, mas quer o estrago que tu ainda vais fazer."

brilhou o olho esquerdo da moça. ela e os segredos, e nos segredos uma vontade pública de ser feliz mesmo que preciso fosse acreditar. brilhou o olho que via mas não sabia do futuro. o olho que queria. brilhou o segredo que vinha guardando.

saiu da casa humilde da cartomante cega, pôs os pés na rua e respirou, de novo, tudo aquilo que tinha ficado em suspenso lá dentro. um coração aos pulos. medo de ser feliz, finalmente. coragem de tirar o medo com as mãos. saiu andando, a moça e seus segredos, a moça e um futuro inteiro pela frente. a moça e a vontade de estar certa.

[ Penkala ] 23:11 ] 0 comentários

 
eu uso óculos




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