] quinta-feira, fevereiro 25, 2010
 
da série: contos de Jorge
ep. de hoje: Jorge e a Cavalaria

de fato, Jorge sentou praça na Cavalaria. e era um cavalheiro, o Jorge, também. só que não tinha escolhido nenhum cavalo branco e temia os dragões como não temia nada mais. um homem precisa usar sua espada, diziam. e parece que era lei. mas Jorge sentou praça na Cavalaria porque só queria andar a cavalo.

Jorge ganhou espada, na Cavalaria. diz que era lei. e aprendeu, muito contra sua vontade, a usar. mas não usava a espada. porque sentou praça na Cavalaria pra cavalgar. nenhum propósito, disseram. não, disse. só queria montar e cavalgar. sem destino?, perguntaram. não, respondeu. sem destino, só a cavalaria diária.

e a espada, que, junto com as roupas de Jorge, faria dele um homem, essa espada era usada pra abrir terreno. Jorge sentou praça na Cavalaria, mas não queria nem as armas e nem as roupas de Jorge. não tinha inimigos. não fazia inimigos.

o medo é um dragão, disseram pra Jorge. mas Jorge sentou praça na Cavalaria, não tinha inimigos, não usava as roupas, não usava as armas de Jorge. era o dragão do medo que ele, Jorge, precisava enfrentar. porque todos os homens enfrentam, disseram a Jorge. todo homem tem um dragão a enfrentar na vida, disseram. e todo homem tem medo, reforçaram. o que faz dos homens homens é o medo do dragão, disseram, em coro.

mas o que faz dos homens felizes, disse uma voz desconhecida pra Jorge, é lutar contra o dragão.

não se ganha nada com isso?, perguntou Jorge, que tinha sentado praça na Cavalaria mas não tinha inimigos, não queria a espada e nem as roupas de Jorge. se a luta for boa, iam dizendo pra Jorge, se perde. se perde o medo, se perde a inocência. se a luta for grande, continuavam dizendo, se perde muito mais.

e se eu ganhar a luta?, ia perguntando Jorge. ganhando a luta, Jorge, se perde muito, disseram. mas nada tão grande, iam dizendo ainda, que seja maior que a felicidade.

e a felicidade?, perguntou Jorge, a felicidade o que é?

a felicidade, disseram pra Jorge, é quando a espada está cravada no coração do dragão, as roupas de Jorge estão lavadas no sangue do dragão, o cavalo de Jorge está vermelho e cansado, e Jorge pode escolher.

escolher o que?, perguntou Jorge, impaciente.

escolher, foram dizendo, entre adentrar nos portões da terra que o dragão defende ou voltar pra casa, trote manso do cavalo, espada embainhada, suor no rosto. a felicidade é poder escolher qual caminho seguir. porque de nada vale a vida de um homem andar pelas terras desconhecidas se não lutou enfrentando seus medos. e de nada valerá voltar pra casa de que tem saudade se não se escolheu entre a casa e as terras desconhecidas. não é preciso pôr os pés lá, disseram a Jorge sobre as terras desconhecidas. basta, continuaram, lutar. um homem, Jorge, é feito de medos. não de cavalos brancos, não de armaduras intransponíveis. não de espadas, afirmaram. basta lutar, diziam e repetiam.

contra o dragão?, perguntou Jorge.

sim, responderam. contra o medo.

contra o medo ou contra o dragão?, perguntou Jorge, confuso.

contra o medo, idiota!, disseram. o dragão é uma metáfora, criatura!, gritaram.

[ Penkala ] 21:13 ] 0 comentários

 
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