] sábado, maio 08, 2010
 
olhou pro velho, que puxava a calça e deixava à mostra um daqueles suspensórios de meias. não soube bem por que, mas talvez por isso tenha puxado o vestido pra baixo e tapado os joelhos. "demora?", perguntou a mulher jovem.

"às vezes demora sim", disse o velho. demora um pouco, especialmente quando se é jovem.

fez "aaaaaahn" olhando pra frente, a jovem. esfregou as palmas das mãos uma na outra, depois nas coxas, por cima do vestido.

"tem pressa, não é?", perguntou o velho, olhando pras próprias mãos depois de inevitavelmente invejar as mãos da mulher. "tem pressa mas nem sabe bem como chegar lá, estou errado?"

"tenho pressa de descansar...", ela disse, com as reticências pingando no final da frase.

"mas a vida é curta, tu descansa quando morrer, mocinha", ele disse tentando evitar que aquilo soasse como se ele fosse o avô dela...

"de descansar meu coração, de descansar a cabeça no ombro de alguém", ela falou ainda olhando pra frente. e olhou pro velho: "quando te encontrar, vai ser bom?"

a curiosidade da juventude, a curiosidade de sobrancelhas arqueadas e olhos bem abertos. a curiosidade das perguntas que são sinceras, nunca retóricas, as perguntas que indagam e seguem o olho do outro mesmo que o outro baixe o olhar.

"vai ser bom. tenho 90 anos e ainda lembro do quanto era bom. vai ser bom e vai ser ruim."

ela ficou um pouco espantada. "ruim? por que ruim?!"

"porque vamos ter medo. porque vamos sentir raiva às vezes. porque vamos lutar, e vamos ter que nos acostumar. mas eu lembro também que foi bom. porque eu finalmente vivi a vida por inteiro, como tu me prometeu", ele falou com um tom mais adulto, menos velho, menos em tom de sabedoria e mais em tom de saudade. com a mão esquerda tomou a mão dela por baixo e com a direita deu três leves tapinhas na mesma mão da jovem, que estava gelada.

"eu vou ser feliz?", ela perguntou. agora retórica, porque tinha medo e porque não importava a resposta. ia fazer tudo de qualquer jeito.

"no dia em que tu finalmente conseguiu deitar o rosto no meu ombro, tu me disse que sentia alívio de eu ter te entregue meus medos pra ires esvaziando" "demora, às vezes. demorou mesmo, um pouco."

o velho acabou de falar isso e deu um suspiro. "tá na hora", ela disse. já levantado, ele respondeu: "tu me pediu que eu fosse teu amor duma vida toda, então eu espero ter correspondido e acho que deixei tudo pronto pra quando chegar em casa também ir, e finalmente ficar do teu lado".

"vim aqui te buscar, mas precisava fazer tantas perguntas! eu ainda tenho a vida pela frente, mas depois do enterro, tu e eu vamos nos encontrar. é verdade, vou estar bem velha, como tu me viu ontem viva, pela última vez. mas valeu ter visto teu rosto, meu velho. tu te parece exatamente com o que eu imaginava. só o que eu precisava saber é se aquela impressão que eu tive, quando me deitei no teu ombro, há muito tempo, era verdadeira ou só bobagem de gente apaixonada"

"que impressão?", perguntou o velho já enlaçando o braço no da jovem e começando a caminhar.

"a impressão de que existe amor pra vida toda, apesar de tudo", arrumou o vestido e encostou no ombro do velho amor da sua vida pela última vez. ou pela primeira.

[ Penkala ] 01:37 ] 1 comentários

 
eu uso óculos




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