] quinta-feira, fevereiro 18, 2010
 
toda vez que tenho muita vontade de reclamar, que é uma coisa que faço sempre, paro e penso que posso estar reclamando duma coisa tão banal pra pessoas que "realmente" sofrem que fico com vergonha. só que a questão é que se a gente pensasse nisso sempre, só quem poderia chorar seriam os pacientes terminais de câncer, os sobreviventes do Haiti, os traumatizados de guerra, os famintos de todos os continentes. porque eu sou um ser humano e, como é da minha natureza, me importa muito o meu umbigo. não acima de coisas e pessoas. mas as minhas tragédias, ainda que pequenas, são as minhas tragédias e ponto final. e eu me sinto muito confortável de chorar sobre elas quando eu vejo que gente que é escrota, que não se importa, que não faz porra nenhuma, que nunca passa por merda, que nunca tem um obstáculo nunca toma no meio da cara. ou, se isso acontece, é assim... insignificante. e deve ter gente, com certeza, que olha pras minhas pequenas tragédias e pro que eu faço na vida e deve pensar o mesmo. por isso eu só comparo as minhas tragédias e o quanto eu faço ou deixo de fazer com aquilo de quem tá no mesmo nível que eu.

e o que me irrita é ver que sim, tem gente que sacaneia, tem gente que trabalha pouco, tem gente que é cretina, e pessoas assim que se dão bem e nunca sofrem um arranhão estão aí aos montes. a vida às vezes chuta quem já tá no chão. e normalmente quem tá no chão é quem não tem o que é preciso pra jogar e lutar sujo.

são só 4 anos, em abril completinhos, que tem dado tudo errado pra mim, uma coisa atrás da outra, ou uma por cima da outra, eventualmente. das coisas boas que acontecem, todas são tão sofridas pra conseguir, e acontecem no meio de tanta porcaria, que sorrir pra elas acaba parecendo ridículo. tu tem esperanças, mas as notícias ruins não param de chegar. e eu me sinto frustrada o tempo todo. sim, eu tenho vontade de fazer loucuras enquanto sou jovem. e de, sei lá, fechar a porta atrás de mim e fazer uma indiada bacana num findi com alguém legal. e tenho vontade de catar "qualquer duas muda de roupa" e enfiar numa mala e sair fora, voltar dois dias depois que fosse. mas eu trabalho, me rebento, estudo, planejo, organizo. tudo sempre nas minhas costas como uma corcova, e eu não posso simplesmente largar tudo e nem enfiar o pé numa jaca madura.

pra uns, as aventuras e as loucuras não têm consequências. ou têm consequências boas. pra outros, tudo é consequência. ruim. é que nem eu dizia pra um amigo um tempo atrás: é fácil "largar tudo virar escritora na cidade grande viver de brisa escrever livro com o computador no chão comer o pão que o diabo amassou beber até cair e viver a beleza romântica da arte e tal" quando tu tem um pai, uma mãe, um mecenas, sei lá, que sustentam tua porralouquice. pagam teu aluguel, acertam contas atrasadas, resolvem problemas que tu causou. isso não é nem diferente de quanto tu era um bebê gordo e chorão que vivia a aventura linda de "descobrir a vida a arte o mundo" e não importa o que acontecesse, o xixi, o cocô e toda a quebradeira que ficavam pra trás teus pais limpavam com lencinho umedecido (no meu tempo isso era algodão com água), passavam hipoglós e, olha que legal, ainda te davam colo e sustentavam teu vício em leite, tua adoração por mamão, tua necessidade de shampoo que não arde nos olhinhos.

eu sei, shampoo que não arde nos olhos é tudo de bom.

* * *

eu tou cansada. nesta mesma época, ano passado, meu ano começou a descer ladeira abaixo como um rolimã desgovernado e sem os pinos todos. anos e anos sem férias foram coroados com um dos anos mais horrendos que eu poderia imaginar. e aí chega 2010, e parece que esperança é uma coisa que se renova feito as contas brotando da caixa de correio ou a louça que se multiplica na pia. mas tu começa um ano cheia de esperança e mal o carnaval tem fim e tu vê que ano é tudo a mesma merda. e quando as pessoas te dizem "puxa, tenta pensar positivo", tu pensa que se tu não tivesse já pensando positivo, tinha te atirado da ponte. tu tem projetos, tu faz seleções, tu tem perspectivas. e tudo é a mesma merda sempre. as razões pelas quais tu não consegue são inúmeras. nenhuma delas é "falta de merecimento". e aí tu tá diante de nem dois meses do ano e já tomou todos esses chutes. se o carnaval nem sequer terminou de terminar e tu já tá com todos os ossos fraturados, o que resta pro resto?

dá vontade de pegar um ônibus pra casa da tua mãe e nunca mais olhar pra trás. porque não tem futuro pra ti na cidade de onde tu veio, mas um asilo, pelo menos, sempre tem. é covarde? sim, é covarde. mas covardia maior é tu já estar no chão faz tempo e sempre ter um pé pra te chutar. nos rins. nessas horas, shampoo que não arde nos olhos pode parecer banal. mas ao menos seria um alívio.

[ Penkala ] 18:07 ] 1 comentários

 
eu uso óculos




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