] sábado, fevereiro 27, 2010
 
um bilhete escrito em tampa de nescau, um ímã de geladeira com um nome, mensagens que chegam do além, dos ecos virtuais do msn, letras em coisas escritas em papéis que rolam pela casa... pedras tão pesadas que caem na nossa cabeça quando a gente começou a se mover e tocar a vida em frente. pedras enormes, bigornas que caem de uma altura imensa, prontas a ferir profundamente, prontas a abrir um corte na testa que deve precisar de uns 7 ou 8 pontos.

não bastam as paredes, nas quais ainda devem estar as partículas da respiração, pedaços de poeira de pele, coisas minúsculas. não bastam os fantasmas, nem as coisas construídas, nem as lombadas de livros, e nem os presentes, e nem as lembranças, depositadas em todos os lugares. as cápsulas do tempo cruéis aparecem, nos transportam, nos abrem de novo feridas, explodem em mil navalhas e litros e litros de álcool. ao mesmo tempo rasgam e limpam as feridas. ao mesmo tempo abrem cortes doloridos e ajudam a curar os machucados.

"o que teria acontecido conosco, meu amor?", a pergunta jogada de agora quase 5 anos no tempo suga nosso coração de volta pra um tempo que passou, mas nos congela, nos faz olhar tudo de fora, é impossível mudar o passado, é impossível não ser jogado no tempo da cápsula. uma carta escrita por uma moça que já morreu, cheia de humor (mesmo nas constatações mais tristes) e carinho, pra um rapaz que também morreu. cartas jogadas no meio de objetos da vida normal, no meio de livros que não nos pertencem mais, e que encaixotamos pra dar-lhes os devidos destinos...

quando me deparo com essas caixas do tempo, essas máquinas de transporte tão peculiares, já tenho medo delas. porque quando se toca a vida em frente, reencontrar certos passados não dói menos que deixar o passado pra trás. não existe mais o sentimento agora. mas a máquina do tempo nos suspende em um espaço onde os sentimentos não morrem, e de lá nos joga as navalhas daquilo que nunca mais vai existir. as coisas ruins se foram, que alívio. o futuro inteiro pela frente, que beleza! novas chances, chances de não errar, chances de ser feliz, que bom! mas as coisas boas foram embora junto. e quem tu era também.

tudo o que a gente quer é resgatar as coisas boas, enterrar as ruins. mas as coisas boas são enterradas junto com as ruins. todas as coisas são enterradas. menos tu. menos tu e menos a tua memória. mas de repente tu levanta a cabeça e pensa que deve existir algum momento no futuro em que tu vai escrever uma coisa assim, algo onde tu chame alguém de "amor" de novo. algo que tu coloque no meio de outros livros, no meio de outros tempos.

e aí as cápsulas vão cair no chão e explodir longe do rosto, dos olhos. e não vão mais liberar nem navalhas e nem nenhum químico que faça chorar. porque de repente o futuro vai ser uma caixa bem maior de onde brotam algumas coisinhas interessantes, de onde vem um cheiro reconfortante. e o tempo vai continuar pra frente. e novas palavras vão ser escritas. e, desta vez, não vão virar cápsulas do tempo tão cruéis.

[ Penkala ] 20:17 ] 0 comentários

 
eu uso óculos




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