] quarta-feira, março 03, 2010
 
tava aqui baixando uns livros de cinema, alguns dos quais eu preciso pra tese, e bem feliz porque posso fazer esse tipo de coisa. aí lembrei de um dos sonhos mais recorrentes da minha vida:

eu tenho um livro ou gibi nas mãos, abro pra ler e não consigo, porque meus olhos estão muito embaçados.

a alegria era ter um livro/gibi de graça pra ler de graça também. e a decepção com tudo embaçado.

nunca tinha me dado conta do que significava esse sonho até me lembrar que, quando eu era pequena, ler era uma coisa problemática. meus pais não tinham grana pra me comprar muitos livros e muito menos podiam comprar gibis. e eu devia ser a única criança que tinha essa tristeza. apesar de não ter reclamado nunca e nem ter morrido por isso. eu até agradeço, porque virei uma frequentadora assídua de bibliotecas.

o resultado era que sempre que eu ia ao supermercado com minha mãe (e minha mãe demora no supermercado até hoje. mesmo que só vá comprar o básico pra fazer uma jantinha...) - e na época o REAL, que hoje é Nacional, tinha uma banca de gibis com os gibis todos espalhados por uma bancada e dava pra sentar e tudo - eu ficava lendo todos os gibis que conseguisse por uma hora ou uma hora e meia. quando eu ia na casa de algum amiguinho, vizinho, etc, e via uma montanha de gibis, eu sentava com todos eles em volta e ficava lendo. a gurizada se irritava comigo, mas eu queria muito ler. e quando meus pais iam na casa de algum amigo, naquelas jantas e tal, eu procurava uma estante, escolhia de lá um livro e ficava lendo. alguns leitores deste blog devem lembrar disso. (tipo a Renata!)

meu "primeiro namoradinho" era meio assim também e lembro de uma noite, dessas de "janta na casa dos amigos", que meus pais ficaram tomando vinho e conversando com os pais dele até umas seis da matina. e eu e o namoradinho pegamos cada um um livro (livros iguais, que meus pais e os dele tinham comprado recentemente) e lemos, um do lado do outro. era um livro sobre o sono, o tempo, os sonhos, essas coisas. ainda tenho o livro por aqui.

foi nessa época que começaram esses sonhos. ainda hoje, que posso comprar livros, com maior ou menor regularidade, sonho com isso de vez em quando. e é sempre o mesmo sentimento: a alegria de achar um livro, de graça, pra ler (o que nem faz tanto sentido, porque posso pedir emprestado, posso pegar na biblioteca, etc) e depois a decepção de não poder ler este novo, inédito e nunca tocado livro porque meus olhos estão embaçados.

não tenho nenhuma mágoa de ter sido uma criança sem grandes condições. não tem nada que tenha me faltado em caráter e, pelo contrário, acho que muitas dessas coisas formaram a pessoa que sou hoje. o essencial nunca faltou. pelo contrário. e nada me faltou que eu não tenha dado jeito me abraçando nas bibliotecas alheias, ou fazendo de algum jeito, ou inventando de outra forma. tem coisas que os pais deixam de fazer pela gente porque não têm condições que traumatizam. a mim, nunca. e hoje eu dou tanto valor a isso que cada vez que entro numa livraria, lembro daquela coisa de infância, do encantamento com tantos livros. que bom que eu não fui uma criança rica, nem cheia de vontades satisfeitas. o que me faltou e eu achava que tinha que ter, eu busquei. se não materialmente, na imaginação.

[ Penkala ] 14:09 ] 0 comentários

 
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