] segunda-feira, abril 19, 2010
 
acidental

estava conversando com um amigo sobre Asimov, pessoas, amores, Universo, orkut, boxe e tal e aí surge uma viajeira desgraçada, que eu escrevi aqui.

um cientista Orientador e seu I.C., de um planeta parecido com o nosso, fizeram uma pausa no laboratório e sentaram pra conversar, observando a Terra. se perguntavam a mesma coisa, já que a vida, neste planeta, era concebida de uma forma completamente estranha aos dois. e o diálogo foi mais ou menos assim:

I.C. - quais são as chances de eles nascerem?

O. - uma em milhões. cada indivíduo nasce de uma chance entre milhões.

I.C. - e por que eles esperam a chance? por que não fazem logo seus indivíduos?

O. - porque pra eles, a vida não funciona assim.

I.C. - e depois, como é que se tornam indivíduos?

O. - eles precisam crescer, depois se reproduzem, fazendo o mesmo processo de seleção de uma chance em milhões, e então ficam velhos e morrem... são os seres, da Terra, que mais tempo ficam dependentes de seus genitores. a vida na Terra é muito perigosa, e até eles ficarem velhos, a vida corre muitos riscos...

I.C. - então a chance de um indivíduo acaba se reduzindo ainda mais?

O. - sim. é o maior problema que eles enfrentam. eles passam suas vidas tentando não morrer e nunca entendem a morte. por isso é que alguns inventaram a filosofia, que é uma disciplina onde se tenta encontrar o sentido da vida e uma explicação para a morte. e tem a religião, que é uma forma de explicar o sentido da vida e encontrar a morte.

I.C. - mas eles não nascem com nenhuma programação?

O. - não. eles nascem livres. existe uma coisa chamada livre arbítrio. ele nascem e vão fazendo escolhas...

I.C. - desde que nascem?

O. - não. até uma certa idade quem escolhe são os pais, depois eles escolhem sozinhos...

I.C. - e eles ficam sempre no mesmo lugar?

O. - não, as pessoas gostam de viajar.

I.C. - mas elas estão sempre mudando de lugar?

O. - não, porque as pessoas gostam de ter uma casa.

I.C. - então como funciona?

O. - as pessoas ficam normalmente no lugar onde nascem. mas existem vários motivos que fazem com que elas viagem. ou elas querem conhecer outros lugares, que aí não demora e elas voltam pra casa. ou elas querem fazer coisas que só existem em outros lugares. aí pode ser pra sempre. ou elas vão onde existem condições de subsistência, porque em alguns lugares existem mais oportunidades que em outros. ou elas sonham em viver em outro lugar. ou elas casam com pessoas de outros lugares e fazem uma casa em outro lugar.

I.C. - então ninguém nunca sabe onde as pessoas vão morrer?

O. - não. e nem quando. e nem como. as pessoas têm um tempo de vida aproximado. mas coisas acontecem e isso muda.

I.C. - o que é subsistência?

O. - é o que garante a sobrevivência deles. trabalho, comida...

I.C. - e elas casam como? quem escolhe quem casa com quem?

O. - em alguns lugares ainda é assim. os pais escolhem com quem os filhos vão casar. pensando na subsistência. mas na maioria do Planeta, as pessoas se encontram e casam.

I.C. - e depois, o que acontece?

O. - elas às vezes se reproduzem. em alguns casos, não. algumas não casam, pelo que sei.

I.C. - e que coisas acontecem pra elas morrerem? elas recebem uma programação?

O. - não. não existe programação. elas podem pegar doenças, podem morrer por acidentes...

I.C. - o que é acidente?

O. - são coisas que acontecem sem que ninguém espere. normalmente são ruins.

I.C. - então as pessoas se encontram, se reproduzem, e morrem sem saber com antecedência?

O. - sim. tudo isso pode ser por acidente. pessoas são feitas por acidente. ou por descuido. algumas se encontram por acidente. e algumas morrem por acidente. ou pegam doenças por acidente. algumas batem em postes, ou no chão, ou em um carro. e aí morrem. isso é um acidente.

I.C. - então tem pessoas que nascem de modo ruim e se encontram de modo ruim e morrem de modo ruim?

O. - morrer é sempre ruim para a maioria das pessoas na Terra. pra umas é normal, mas a maioria não gosta. tem medo. e só se pode morrer uma vez na Terra. mas nascer nem sempre é uma coisa ruim quando é por acidente. e na maioria das vezes, as pessoas se encontram por acidente e não é ruim.

I.C. - e como funciona? elas saem andando e aí se batem e aí se casam?

O. - não. quem disse que elas se batem?

I.C. - tu disse que elas podem bater no chão e aí morrem, e que isso é um acidente.

O. - ok. mas quando as pessoas se encontram por acidente, não é porque elas se batem.

I.C. - e como é, então?

O. - olha, é bem complicado de explicar. algumas trabalham no mesmo lugar e um dia vão comer coisas e conversam e aí comem coisas todos os dias e conversam todos os dias até que fazem um compromisso. algumas se conhecem porque são amigas da mesma pessoa. as possibilidades são infinitas...

I.C. - mas e aí? elas comem coisas, e combinam de casar e casam, então?

O. - não. elas precisam se achar interessantes. e precisam estar livres. e precisam gostar do cheiro uma da outra. e precisam encaixar partes do corpo. e aparentemente precisam sentir coisas estranhas uma pela outra. que elas não sentem por mais ninguém. e precisam ter mais ou menos a mesma idade (nem sempre, mas é bom que sim). e precisam se entender. e estar no mesmo lugar. e querer a mesma coisa. e aceitar os defeitos uma da outra.

I.C. - e aí elas casam?

O. - nem sempre. podem ficar juntas e não casar. ou podem não ficar juntas por vários motivos. mas na maioria das vezes, sim, elas casam.

I.C. - mas é muita coisa que as pessoas precisam para poder estar juntas, não é?

O. - é. é uma lista grande. e, aparentemente, difícil de conseguir preencher. mas muitas vezes acontece de encontrarem pessoas que são perfeitas uma pra outra. pelo que pude entender até agora, isso é muito bom.

I.C. - e quais as probabilidades disso acontecer?

O. - do que acontecer?

I.C. - de elas terem tudo o que precisam da outra?

O. - são poucas. acho que são poucas. mas aí é quando eles dizem que são felizes.

I.C. - elas só vão ter as coisas que o outro precisa quando se encontram?

O. - não. elas vão nascer e crescer e criar essas coisas...

I.C. - e só aí se encontram?

O. - sim.

I.C. - mas a chance de duas pessoas terem essa combinação é pequena, então. elas precisam estar no mesmo lugar também. e ter mais ou menos a mesma idade. e precisam se encontrar de alguma forma. mas se elas não fazem isso, precisam ficar sozinhas?

O. - não. elas podem casar com outras, com quem não tenham tantas afinidades.

I.C. - e aí funciona?

O. - algumas vezes. mas nem todas. as que combinam são mais felizes. isso significa que é muito bom.

I.C. - e quantas vezes acontece de essas pessoas que se combinam se encontrarem?

O. - poucas. e às vezes não podem mesmo assim. por vários fatores.

I.C. - bom, então deve existir algo que faça com que essas pessoas se encontrem. ou as pessoas todas vão sempre encontrar as pessoas erradas.

O. - é. aí é que entram as escolhas. elas fazem as escolhas e vão indo até chegarem perto uma da outra.

I.C. - ok. então elas TÊM uma programação. tem algo que diz que elas façam as escolhas certas.

O. - não, não é programado. elas fazem as escolhas... por acaso. ou por acidente.

I.C. - não acredito! não existe acaso numa coisa dessas! e se elas escolherem tomar um caminho diferente? estraga tudo?

O. - é. mais ou menos isso.

I.C. - uma decisão errada aí no meio e tudo vai por água abaixo?

O. - sim.

I.C. - e se nascerem em lugares diferentes?

O. - podem se mudar...

I.C. - e se trabalharem em lugares diferentes?

O. - podem se conhecer no curso de idiomas, na academia, no clube, no bar.

I.C. - mas e se não forem a esses lugares?

O. - bom... elas precisam se encontrar em algum lugar...

I.C. - mas e como se acham interessantes?

O. - podem conversar sobre algo que tenham em comum... um tipo de trabalho, ou um esporte de interesse...

I.C. - bom, então precisam morar perto, frequentar os mesmos espaços e terem a chance de conversar. e o que mais?

O. - bom, precisam estar disponíveis...

I.C. - e se não estiverem?

O. - precisam estar dispostos a ficar...

I.C. - mas então é muito raro de as pessoas se encontrarem! qual a chance de elas fazerem as escolhas certas sempre?

O. - às vezes erram umas, mas acertam outras e se encontram de outro jeito. ou em outro tempo.

I.C. - e aí? se encontram e aí?

O. - bom... normalmente precisam se cheirar, chegar perto, se tocar. se tudo isso combinar e as pessoas tiverem assunto e quiserem estar juntas, aí podem ser felizes.

I.C. - mas e se acontece um acidente?

O. - eles baterem num poste?

I.C. - não. agora quem tá falando em bater é tu, professor. eu digo... se um deles tiver que ir para outro lugar?

O. - aí, meu jovem, os seres humanos avaliam o que fazer... normalmente, encontram um jeito. pra essas coisas, sempre se encontra um jeito...

I.C. - por que?

O. - porque tu já avaliou a probabilidade de eles nascerem, crescerem, estarem no mesmo lugar na mesma época com mais ou menos a mesma idade e terem o cheiro certo, os defeitos certos, os tamanhos certos, e os interesses certos e se baterem um no outro num dia qualquer?

I.C. - ah, então eles se batem?

O. - sim, se batem. mas tu não acha estranho que essas pessoas se encontrem, sendo que têm tudo perfeito uma pra outra, mas poderiam ter sofrido acidentes antes que impediriam o encontro?

I.C. - eu disse! eu sabia! as pessoas se batem! ok. mas e se elas forem perfeitas mas, por exemplo, nascerem em cidades diferentes, fizerem coisas diferentes, se interessarem por coisas diferentes, estiverem ocupadas com outra pessoa, não tiverem nenhuma chance de se encontrar no trabalho e etc?

O. - bom, se elas forem perfeitas, alguma dessas coisas vai ter que ser modificada pra que elas se encontrem. ou todas essas coisas. ...é, mas... mas aí seria muita coincidência, não acha? a maioria dessas coisas tem que ser modificada pra elas se encontrarem...

I.C. - e então elas vão chegando perto, e perto, e perto, e se batem. mas e se acontece um acidente?

O. - como o que? um poste?

I.C. - não. um acidente... tipo... um estava querendo ficar sozinho e o outro tinha comprado passagem pra uma viagem pra um lugar que o outro não pode ir porque tem alergia ao ar do lugar?

O. - é. tem a alergia... bom, mas aí eles precisam fazer alguma coisa pra aproveitar a chance. tem remédio de alergia, pelo que fiquei sabendo...

I.C. - mas o que? por que elas deveriam aproveitar a chance?

O. - porque são coisas grandes que estão em jogo. é tipo... o que eles chamam de felicidade, que a maioria acha que vai encontrar num lugar e encontra noutro, por acidente.

I.C. - batem na felicidade?

O. - sim. batem nessa tua cara também! já te falei: nem sempre quando é acidente as pessoas se batem. e nem sempre quando as pessoas se batem é acidente. e cada uma delas pode estar batendo em outra coisa. entendeu?

I.C. - entendi. difícil viver na Terra, né, professor?

O. - não sei, mas desconfio de que dá certo isso aí. de alguma forma tem que existir uma coisa que ajude elas a se encontrarem. mesmo que pareçam acidentes...

I.C. - tipo elas baterem no mesmo poste, ao mesmo tempo?

O. - é. tipo isso...

[ Penkala ] 18:58 ] 0 comentários

 
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