] quinta-feira, abril 08, 2010
 
do meu amor por esses desenhinhos

aí tou olhando umas coisinhas numa loja e o dono pergunta: tu gosta de tatuagem, né?

meu pai do lado, aquela carinha de quem nem pode fazer nada.

"gosto. e essas ainda não são todas..." (meu pai se apavora um pouco mais, do lado de fora da loja)

meus pais se assustam (oi, mãe!) com as tatuagens e eu entendo. especialmente porque é meio que rabiscar no trabalhão que eles tiveram pra me fazer. porque eles ficam com medo de eu me arrepender. porque ficam achando que eu posso ser destratada por causa delas. mas meu corpo é meu templo. e eu sou um indivíduo. tatuar minha pele pode e é, sim, um ato de rebeldia. rebeldia contra pessoas que acham que tatuado é marginal. mas antes de tudo, é um ato de afirmação. das minhas crenças, dos meus gostos, e daquilo por que eu passei na vida.


fotografando
[ pedaço da fênix colorida ]

até os meus 12, 13 anos, não lembro de ver ninguém tatuado. depois disso, lembro de achar bacana, mas ainda assim algo distante da minha realidade. e depois eu comecei a gostar. e eu nem digo gostar como quem acha muito bacana usar tênis sem meia. comecei a me interessar pela arte em si, especialmente pela tatuagem tribal (não o tribal aquele que era moda nos anos 90. tribal como em "tatuagem ritual" de tribo) e pela oriental. ainda assim, ainda que hoje tatuagem seja cult, seja moda, seja popular, ainda permanece coisa de "marinheiro" (como os palavrões, aliás).

alguma de nós foi adotada, só pode!
[ minha irmã e eu em Floripa ]

se nas costas da múmia mais velha do mundo, que tem mais de 7 mil anos, as tatuagens se espalhavam pela espinha e pelas pernas, por que eu deveria me incomodar com meus desenhos quando tiver 70 anos? serei eu a avó cheia de manias de velho dizendo pros netos que vão me achar chata que esses desenhos são a minha vida, a minha individualidade. e que não tiro eles da pele assim como não consigo tirar nenhuma das minhas desilusões e dores e perdas. e eu entrego minha pele a um tatuador de confiança como quem faz isso a um médico de família. às mãos de quem desenha minha pele pelas costas enquanto eu durmo (com o relaxante muscular e com o zunido monotônico da máquina). em confiança, estou entregando minha pele às agulhas de alguém que vai marcar cicatrizes optadas.


[ em Floripa, segurando a coleira da Techila ]

minha mãe que nem se apavore, porque eu ainda tenho algumas coisas a rabiscar pela pele. não é que eu tenha virado a cabeça. nem que eu queira agredir o mundo. eu nunca virei a cabeça, não vai ser agora. eu apenas estou vivendo o que acho que devo, porque a vida é curta. eu não quero agredir o mundo, já passei dessa fase. e se quisesse, seria mal sucedida pra caramba. não é novidade, desde que fiz minhas duas tatuagens grandes e coloridas, ter quem se aproximasse pra falar bem delas. ou um elogio tímido, quase assim de passagem, ou uma aproximação mais afetiva, de quem tem até curiosidade de passar a mão no meu braço pra ver se tem relevo. se eu subverti meus cabelos loiros virando morena por opção, usando eventualmente um roxo ou um rosa pra me divertir, é porque o indivíduo que eu sou é aquilo que eu posso me tornar, não exatamente aquele com cujas características eu nasci. ter um piercing de argola no nariz tampouco foi tentativa de agressão, embora muitos ainda achem que podem me puxar pela jóia (metaforicamente) porque me tornei um animal.

se eu quisesse mesmo agredir o mundo com as minhas tatuagens, teria desenhado na minha pele branquela coisas com os significados que têm as minhas tattoos? uma fênix que se consome em chamas pra depois nascer de novo; um rosto sereno de Buddha que me protege e lembra sempre de que eu espero que todos os seres possam se livrar do sofrimento; kanjis que marcam minha crença religiosa ou algo bom que aconteceu na minha vida; um dragão da água, que me protege também de todas as coisas ruins que acontecem na vida e simboliza a força que eu tenho, quero e preciso ter diante das dificuldades... faltam algumas palavras, algumas provocações, algumas sementes. faltam nomes, faltam até corações. porque eu também tenho nessa pele branquela uma tela pra deixar que os outros olhem. é meu fetiche, e não machuco ninguém com isso.

não, isso não é agressão. não é que eu tenha virado a minha cabeça. eu simplesmente sou, hoje, aos 30, mais eu do que sempre fui. diz que é nessa idade que a gente decide algumas das coisas mais importantes. pois é isso. eu sou a moça tatuada que passeia pela praia com uma cachorrinha branca.


[ eu e a Techila, em Sto. Antônio de Lisboa ]

não bronzeio minha pele, não pego cor nas pernas, não tiro meu piercing de jeito nenhum. às vezes pode ser difícil aceitar que eu pinte essas coisas no meu corpo. eu sei. eu entendo. mas essas são as cicatrizes pelas quais optei. não me livro delas (não sem gerar outras cicatrizes) como não me livro das lembranças. o importante é que eu continuo com aquela estranha idéia de trabalhar muito, de estudar muito. de que eu amo dar aulas e (olha, é verdade, hein?) adoro meus alunos. continuo cheirando pescoço de nenê e cuidando das pessoas. continuo sendo responsável, honesta e sincera. gostando de bicho do jeito que sempre gostei.

se tatuagens pelo meu corpo me colocam numa margem, não me importo. de verdade. porque a gente é destratado por várias coisas. até por pesar mais do que deveria (o mundo é cruel e se mete onde não é chamado) ou gostar de usar verde, sei lá. pra quem quer que me olhe de nariz torto, lamento os dois trabalhos: entortar o nariz e eu desentortar na marra. essa é a pessoa que eu escolhi pra ser feliz, pra me fazer feliz. eu mesma me aceito e ponto final. meus filhos nunca vão achar estranho a mamãe tatuada, se é que vou tê-los um dia. meus bichos vão no máximo lamber as partes coloridas, achando que são comidinhas (que nem a Pandora faz seguido). e se as pessoas pararem de dizer que as minhas tatuagens são muito bonitas e começarem a me agredir... bom... azar o do mundo, né?

[ Penkala ] 04:01 ] 0 comentários

 
eu uso óculos




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