] quinta-feira, abril 29, 2010
 
quando a gente nasce menina, sempre existe um limite. não adianta dizer que os tempos são outros, que não somos vítimas, que feminismo já era. não estou falando de tempos, nem de vitimização, muito menos de feminismo. existe um limite que a gente se impõe, que vem de brinde e um dia a gente começa a usar. as outras mulheres reforçam o limite, sendo aquelas que mais cruel e venenosamente chamam algumas outras de "vadia", "galinha", "vagabunda", "puta" e outros adjetivos, que em alguns casos podem chegar ao científico "promíscua". é um policiamento que tem pelo menos um fundamento: mulheres "vadias" ameaçam nossa paz com namorados, maridos e afins. mas tem outro tipo de policiamento que é cultural e que não tem como legitimidade um instinto ancestral de preservação do homem que tu demorou pra conquistar. é aquele policiamento de "aquela é vadia" porque a mulher simplesmente é livre, está tranquila com sua sexualidade, está experimentando, quer viver plenamente a juventude e tal. é uma mistura de inveja de não poder ou não ter colhões pra fazer o mesmo mais um tipo de preconceito contra quem não vive a repressão religiosa, social e cultural da individualidade feminina.

existem as vadias. pra mim, as vadias são as mocinhas sem critério e nem escrúpulos que vulgarmente saem por aí dando pra todo e qualquer cara que passa pela frente. não nego também que vadia é toda a mulher que chegar perto do meu cara tentando tirar ele de mim. e confesso que acho vadia a mulher que prostitui seu corpo em troca de outra coisa que não dinheiro (normalmente poder, mas tem outras moedas aí). as prostitutas, no sentido bíblico da palavra, essas não acho vadias, não. até porque vadiar é coisa que geralmente elas não fazem. a não ser que não queiram pagar suas contas...

mas o pior policiamento é aquele que é da natureza da mulher, é interno e normalmente funciona como uma proteção. não reclamo da existência desse policiamento, mas muitas vezes ele atrapalha a já truncada comunicação entre homens e mulheres. é o antigo, vovozinha e bastante legítimo "tu pensa que eu sou o que, uma vadia qualquer?".

pras mulheres, uma das coisas que de fato importa é o respeito que o homem tem por elas. o homem delas, no caso. ou o aspirante a homem delas. ou o que elas pretendem tranformar em homem delas. respeito que pode, sim, nas mais pudicas e fanáticas, beirar o impedimento de qualquer conjunção carnal sem fins reprodutivos. mas meninas modernas, esclarecidas, tranquilas e seguras de si entendem esse respeito como outra coisa. pra elas, dentre as quais me incluo, uma das coisas que não podem faltar ao futuro, pretenso, desejado homem delas é a diferença entre elas e as outras mulheres. pra uma mulher, se o homem gosta dela, ele deve viver conforme um limite tácito dentro do qual a mulher dele é imune a certas coisas. a mulher de um cara deve ser aquela a quem ele respeita e por quem sente admiração. deve ser aquela (única) pra quem ele faz determinadas coisas. deve ser aquela a quem ele trata ao mesmo tempo como amiga, rainha, suprema divindade e companheira. isso, aliás, é o motivo pelo qual temos no passado uma coisa da qual não nos orgulhamos e a qual tentamos mudar desde sempre, mas que pra época teve sua lógica: os reis chafurdavam nos bacanais e faziam inomináveis "aberrações" com as "vadias" da corte; mas à sua rainha respeitavam como qualquer súdito, e era ela quem tinha a supremacia sobre toda e qualquer moça, por mais jovem e bonita que fosse. o sexo com outras, da parte do rei, era perdoável. mas o amor era de uma só.

hoje isso permanece, embora com as devidas proporções bem observadas. e resquícios da monarquia (que por sua vez eram resquícios inarredáveis da vida nas cavernas, quando dos primeiros homens sobre a Terra) nos assaltam quando sentimos ciúme mais do tratamento cortês e reverencial que o nosso cara dispensa à outra mulher que do eventual deslize com a secretária, uma olhada ginecológica na saia de outra, etc. só sexo se pode ter com praticamente qualquer pessoa no Planeta (e isso também se aplica às mulheres, mas foquemos nos homens aqui), mas amor é sagrado. esse amor existe na forma de um relacionamento, normalmente. mas ainda que não exista, o sentimento sagrado é aquele que une duas pessoas de forma muito mais sólida e profunda. é possível fazer qualquer malabarismo com qualquer homem por aí. mas olhar no olho e entrelaçar os dedos e coisas assim, só com o cara. de um qualquer a brincadeira pode ter sido mais satisfatória que tudo, pode ter suprido as carências fisiológicas e etc, mas de um homem qualquer a gente não engole qualquer coisa. não engole a mania de vestir marrom, não engole o desleixo com as bainhas das calças, não engole a grossura de dedo destroncado. do cara, O cara, a gente engole.

só que o policiamento interno, esse que nasce com a menina e que tem uma utilidade, mas nem sempre provoca efeitos muito legais, se manifesta quando a gente gosta de alguém. não é preciso uma aliança, nem mesmo namorar, nem a realização concreta do sentimento. qualquer merda na rua pode nos tratar com desrespeito, pode nos ferir o orgulho, pode faltar com o decoro (isso é bonito!), pode ofender e ultrapassar os limites individuais de preservação. a gente chora, ou a gente mete um soco na cara do idiota, ou a gente dá de ombros e vai embora porque nem vale a pena. mas o cara, aquele sujeito pra quem a gente pretende dar o nosso coração, ou pra quem a gente deu (e de quem a gente quer ter ou já tem o coração), esse cara nos machuca profundamente quando ultrapassa um limite assim. e o limite é uma coisa retardada. varia de mulher pra mulher e quase sempre é tão subjetivo que nem ela mesmo acha razoável. não interessa, tá lá dentro e a gente pode lutar pra tirar, mas não é simples assim.

seria ótimo o cara de quem a gente gosta dar uma avançada. sim. é. não seria, é. mas pode ter uma coisinha de muito específica nesse avançar que normalmente nos aciona esse limite, esse muro, e nos diz "epa, será que ele me vê assim?!".

pode ser estúpido, mas é a verdade. tem uma coisa nos homens que não chega a ser equivalente, mas é parecida em termos de complexidade: com qualquer uma o sujeito desempenha a brincadeira de forma olímpica. com a que ele gosta, com a que ele quer, às vezes acontece um atraso no começo da prova ou até um pé torcido inviabiliza a coisa toda, por ora. a gente pode ser tratada como aquela moça legal pra dar uma exercitada. pra putaria boa e velha (tá, dado o devido respeito). mas quando tu tem sentimentos mais profundos por alguém, basta que essa pessoa ensaie algo que te faça sentir como igual a todas as outras que a gente se sente muito mal. normalmente nem é culpa do cara. na maioria das vezes ele sequer quis dizer isso ou sente isso mesmo. mas existe essa coisa dentro da gente que sempre grita "ei, será que pra ele eu sou como qualquer outra?". tu pode ser só amiga ainda da pessoa. não importa.

raramente isso não acaba em mal-entendido. e normalmente fica aquela coisa meio estranha. se a mulher fala, diz que se ofendeu, o cara tende a se retrair, com medo de ofender de novo. ou, vá saber, porque se ofendeu também. se a mulher não fala, é ela quem fica se sentindo assim. não é do nosso controle. a gente sente e é irracional demais pra gente resolver com um "ah, que bobagem".

por que isso acontece? por que é que a gente tem essas nóias todas na cabeça? isso tem explicação biológica, histórica e cultural. qual das explicações resolve o mal-estar? nenhuma. a nóia e a ofensa nascem num espacinho muito pequeno, mas muito calhorda e potente da cabeça da gente que nos faz parar tudo e pensar que está fazendo tudo errado.

bom, tu decide ser livre, tu decide fazer o que deve ser feito, tu decide investir naquilo que tu quer. a sociedade já vê isso com péssimos olhos (é verdade. não sejam hipócritas, isso é real), mas quem enxerga isso da pior forma possível é tu. não porque tu não acredite no que tu tá fazendo, nem no que tu é, mas porque simplesmente tu passa a sofrer da paranóia horrenda que aquele limite com o qual tu nasce te impõe. tu investe uma força num objetivo, tu não tá fazendo nada de errado, tu queres uma coisa e vais tentar conseguir, sem prejuízo (ou com o mínimo inevitável) de terceiros. uma bobagem, uma brincadeira e a sirene aos berros te tira todo o raciocínio. uma sirene que diz "viu, olha só, tu pediu, tu tava pedindo!".

é por isso que a gente se ofende e fica mal quando o sem jeito de um cara esbarra no nosso tão frágil mundo da decisão e da força individual. de repente tu te sente uma boba idiota e pensa "será que eu não estou sendo muito vadia? só pode, porque ele fez isso!", ou "será que eu fui bruta demais? olha só o estrago!". aí dá vergonha, dá uma sensação de que tu perdeu o respeito de quem não deveria, de que aquilo que tu era deixou de ser... minha falta de habilidade social me mete nessas situações, onde eu quebro uma estante inteira de cristais tentando evitar que a outra caia por causa dum esbarrão meu. será que a gente um dia cresce e deixa de fazer essas merdas? ou a gente faz merdas mais aprimoradas? ou a gente faz outras? será que um dia as coisas voltam ao normal ou o que se quebra, quebrou e pronto?

[ Penkala ] 01:13 ] 3 comentários

 
eu uso óculos




CLICA QUE VAI:
www.flickr.com
Penkala's eu, casa & coisas photoset Penkala's eu, casa & coisas photoset

BLACK BIRD SINGING:

Get Firefox!








Powered by Blogger


RSS