] segunda-feira, maio 17, 2010
 
o que faz com que partículas tão aleatoriamente unidas no meio deste mundo imenso se separem pra sempre? o que faz com que elas se unam, o que as liga quando não estão mais unidas?

seria fácil se o mundo fosse ainda o pós-big-bang e a física explicasse essa coisa aí das partículas, a química, sei lá, a biologia (toda a sequência de disciplinas da sétima série, ok). seria fácil porque eu nem estudo física mas alguns livros dão conta. ocorre que eu estudo humanos e não consigo responder isso mesmo assim. porque é óbvio que eu tava falando de gente, não exatamente de partículas.

o meu medo absurdo do desconhecido me levou a muitos erros nesta vida e muito me fez sofrer. e um dos sofrimentos é encarar este mundo surreal como se ele pudesse ser coerente, palatável, consistente e coeso. como se fosse possível que esse mundo não nos aturdisse como uma paulada na testa cada vez que alguma coisa dessas acontece.

mas me aventurei, sem muito mais o que fazer, num mundo que eu resistia em conhecer. me dei mal, sofri, adquiri experiência, conheci gente legal, me fudi, estraguei minhas esperanças quanto a várias coisas, fiz o processo de evolução todo num ano só, desenvolvendo maxilares mais fortes pra partir os ossos, caninos proeminentes pra assustar e rasgar, dentes mais duros pra dilacerar. uma bacia coerente com meu novo andar ereto, com braços mais curtos, cérebro maior. e uma porra dum tórax do tamanho dum bonde, capaz de comportar um coração imenso. não que eu seja boa, né? super coração de maria, mater dolorosa. não. imenso de burro, imenso de inchado de tanto chorar, imenso de se abrir pra bombear mais sangue. não, não imenso por mal de chagas. eu perdi o medo do desconhecido como quando a gente perde o medo de cobra quando tem que trabalhar no mato pra sobreviver.

sentei, hoje, diante do desconhecido. tomei café com o desconhecido. abracei e andei lado a lado com o desconhecido. não, não olhei no olho do desconhecido, porque isso seria exigir demais da minha coragem. e o desconhecido me amedrontou mais que sempre. e eu descobri que o maior medo que eu tinha desse desconhecido especificamente era que ele fosse, ainda, o mais íntimo de todos os seres. olhar diante do espelho não nos confronta com essa situação, porque sabemos que o íntimo do outro lado é apenas um reflexo da nossa recusa em mostrar ainda que pra si mesmo nosso próprio eu. um íntimo outro, um íntimo que habita outro corpo, outra instância, outra livre e individual existência, é o que mais assusta. de tão íntimo, o tomamos por nós mesmos. de tão íntimo, pedaço de carne das nossas costas, um pé, rim.

a distância cria de rins, corpos estranhos. pro bem do sistema, porque ninguém gosta de ver seu próprio pé andando por aí. e aí um dia tu te senta de frente com essa situação. aquele íntimo a quem tu teve acesso por tanto tempo, aquele íntimo de quem tu sabe tudo, aquele íntimo de quem tu lembra as coisas mais verdadeiras, mais pessoais, é um desconhecido. e é... porra, é difícil compreender a surrealidade dessa coisa. um desconhecido de quem tu nem sabe o paradeiro, mas um desconhecido de quem tu lembra os mínimos e mais pessoais detalhes. e, ao contrário do que foi há pouco tempo, a reação é muito estranha. há pouco era um coração contorcido de dor dominado por um racional que dizia: não é mais íntimo, deixa ir. agora, um racional que sabe que não é íntimo sendo atropelado por um coração que "tu não acha estranho saber dos segredos desta criatura, e das dores, e ele ser um total desconhecido?".

poucas coisas me metem mais medo que a surrealidade da vida.

[ Penkala ] 15:36 ] 3 comentários

 
eu uso óculos




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