] terça-feira, maio 11, 2010
 
você é como você luta

o treino de hoje girou sobre dois assuntos (sim, nós conversamos durante o treino. quase sempre sobre filmes, rock, eficiência dos equipamentos e como lavar luvas): 1) ufc 113 e "o vídeo que o luisão me mandou". geral ficou achando que eu tava mucho ligada no ufc quando, na real, vi uma luta e sofri horrores vendo aquele calção com olhos que um dos caras vestia. porra! bermuda, filho! calção não! e ultimate é feio. desculpa, mas é. e 2) o vídeo que o luisão me mandou, numa das conversas de msn, que fez minha quinta-feira passada mais hilária (eu conversando com ele e vendo o vídeo ao mesmo tempo e rolando de rir).

[ o lutador ] a narração é de se mijar!

no ufc, a luta feia me deixa atônita pelo espetáculo descabeçado, pela bobice, pela bufonice. no vídeo, a risada fica por conta do grande fodalhão exibido que é o tal "gringo". de qualquer forma, lá no meio, no tatame, quando o coach nos coloca pra lutar - apesar da camaradagem que rola, da palhaçada tão grande que já deixou o treinador, normalmente um guri reservado, entrando na brincadeira junto - o que aparece é a cara de cada um. porque cada um é como luta. somos quatro treinando mais frequentemente, acompanhados, eventualmente, por outros mais novos na prática ou mais sazonais no treinamento. é pelo movimento que tu identifica quem luta sempre, e é pela dança que tu compreende quem é cada um que luta ali no meio.

desse quarteto, eu sou a única mulher. há o advogado, o analista de sistemas, a professora de cinema e o pesquisador de química. todos diferentes uns dos outros, desde o estilo de cruzar ou pular corda até a forma de encarar o suor pingando da ponta do nariz; da forma de enrolar as ataduras até o movimento específico da esquiva. e cada um, no meio do tatame, luta de um jeito. comigo a coisa complica, porque enquanto os guris ficam com medo de me machucar, eu fico gritando pra eles lutarem direito. fora isso, todo mundo lutando de verdade.

o boxe é um esporte de defesa. até o golpe é um balé onde se proteger é a meta. um jab é um "proteja-se!, porque eu não baixei a guarda!". o cruzado é um "não mandei deixar a guarda aberta!". como cada um desfere o golpe e como cada um se esquiva, aí sim, está todo um tratado de psicologia a ser escrito. com muito mais propriedade do que o que vou escrever aqui. até porque eu não tenho formação em psicologia. e meu terapeuta, por exemplo, jamais entenderia o que é o zunido de um soco que passou perto demais.

o quase dois metros de altura não nega a carteira da OAB e faz a sua dança num jogo suave de esquivas, misturando a técnica Cassius Clay com uma guarda sempre atenta e uma base equilibrada. apesar da Ordem, apesar dos dois metros quase, humilde, porque se defende usando as duas guardas. alguém leve de se conviver, calmo, meio palhaço, meio velho reclamão, cheio da técnica pras defesas e tranquilo no ataque. alguém que analisa antes de enfrentar, mas prefere se esquivar a montar uma guarda fechada. uma guarda fechada protege muito, mas não permite ver a luta. a esquiva permite que se fuja apenas do golpe, não da luta e nem do adversário. a maior eficiência do quase dois metros de altura é a capacidade de fugir do punho. sua vulnerabilidade é o desequilíbrio. a esquiva também nos tira do eixo. e um tombo de quase dois metros deve doer. está na chuva pra se molhar, embora se abrigue debaixo da marquise às vezes.

o baixinho invocado da informática é estressado, golpeia insistentemente, ainda que possa perder o equilíbrio. é o que faz barulho quando golpeia, o que não dá um passo atrás pra analisar o cenário, e é o que usa apenas uma guarda. a outra, sempre baixada, revela uma petulância entre o propositivo e o arrogante, entre a confiança e a empáfia. é um lutador disciplinado, é um bom lutador, e gosta de exibir sua disciplina e acurácia. difícil fazer ele rir e perder a compostura. às vezes eu preciso dar um laçáço com a minha corda, arrancando a corda da mão dele, pro clima ficar mais ameno. claro, eu fiz isso sem querer uma vez. nem se eu quisesse muito conseguiria a façanha do laçáço de novo.

difícil falar de mim porque eu não me enxergo de fora. me observo no espelho (é preciso, faz parte de reconhecer como o corpo faz cada tipo de movimento) e já me vi no vídeo, bem de passagem. mas eu normalmente ataco muito, abusando de ganchos. mas me afasto em saltos, me defendendo de ataques de surpresa. e esquivo pro lado, quase sempre emendando um golpe depois. cometo o erro de manter as duas guardas médias, o que protege meu corpo, mas não meu rosto. faço isso porque fico aflita por não enxergar. e quando me aproximo para um gancho, estou me expondo ao tapa. prefiro olhar a manter uma guarda muito fechada. só não apanho porque me esquivo bastante. meu erro em me aproximar demais eu corrijo sendo incisiva. minha falha na guarda me permite olhar na cara do oponente. e eu sei ler a cara das pessoas. estou na chuva, quase sempre evito me esconder debaixo da marquise, e me exponho a gripes e ao frio quase sempre. porque eu não tenho medo de me molhar e porque não sou de açúcar.

o pesquisador de química é forte. lida com as misturas imprevisíveis e perigosas no laboratório com um jaleco e luvas. é calado, mais absorve que oferece, e é compacto nos golpes. uma patrola que fecha uma guarda cerrada, abaixa a cabeça e sai passando por cima do oponente. eventualmente afasta o rosto por trás das luvas pra enxergar, mas muito rápido. não quer se molhar, tem a convicção de que se baixar uma das guardas vai perder a luta. mas não se permite o golpe, não dá a cara à tapa, a não ser quando, cabeça baixada feito um touro furioso, emenda o oponente contra uma parede, pra depois se afastar dando golpes crus e violentos. reage à luta evitando a luta. se defende de um belo direto no nariz (que, segundo o que diz, é um dos poucos lugares que não quebrou ainda), se encolhe de um gancho que levantaria seu peito e daria dor de estômago. prefere ser uma muralha. a maior eficiência do químico é que, assim como provavelmente o que reproduz em laboratório, explode com as luvas no couro sintético da luva alheia. seu calcanhar de aquiles é ser aquiles. uma muralha homérica de imortalidade, ao mesmo tempo amável e violento. um escudo erguido em torno de um corpo imortal. e um calcanhar à mostra.

a luta, como a vida, revela o que cada lutador tem dentro de si. os medos, principalmente. como na vida, a forma como cada um encara o combate define tudo. cada um evita um nocaute, que um dia virá. e quase sempre na forma de uma seta no ponto fraco, de um tombo não previsto no meio de uma esquiva quase genial, um soco desferido de perto, no calor da aproximação, um direto no meio do nariz aproveitando a guarda baixa. se aprende muito com o boxe, sabe? muito mesmo. especialmente sobre as pessoas. o golpe, o ataque, o soco é sempre a glória, o espetáculo. mas é a esquiva que evita que o lutador quebre a cara. e é na esquiva que vemos o medo, o que o lutador evita. aquilo que evitamos quase sempre é o que não sabemos como suportar.

[ Penkala ] 02:27 ] 0 comentários

 
eu uso óculos




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