] quarta-feira, junho 02, 2010
 
o não e o circo

eu pensava que a pior solidão era sempre a solidão que a gente sentia no meio de muita gente. aquela solidão de não poder alcançar, que nos aperta o peito no meio da madrugada e nos faz chorar até dormir de novo. mas eu me enganei. a pior solidão é aquela de deixar ir, de saber que perdeu, de entender que a vida nem sempre vai sair como pensado logo de início, como alguém prometeu. é aquela em que a gente mergulha quando entende que não estão nas nossas mãos algumas das coisas que a gente considera mais importantes pra viver. é simplesmente tudo da comanda da fatalidade.
a solidão de admitir que não ama, a de admitir que não nos amam. a solidão de perceber que tudo o que a gente faz de bom, tudo o que a gente é de legal, tudo o que a gente merece de melhor não é suficiente. parece mesmo que as pessoas canalhas dormem mais rápido com pés quentes pra se esquentar, enquanto a gente precisa conviver com um lastro enorme dos dois lados da cama ainda por muito tempo.
dói fininho sempre que alguém diz "que homem doido não ia te querer?!", ou "tu é A PESSOA", ou "tu merece muito mais" ou o msn repleto de contatos faz uma sinfonia de sonzinhos todos os dias. porque tudo isso podia desaparecer, tu não precisa de vários, tu precisa só de UM. tu não pode escolher, tu não decide simplesmente. porque existem doidos. porque tu é UMA pessoa, por melhor que sejas. porque tudo o que tu merece é completamente diferente daquilo que tu consegue conquistar.

quem tem culpa disso? ninguém, né? nem tu, nem os doidos.

o que dói mesmo é que quando a gente tá muito sozinho, a gente tem muita pressa de nunca mais estar. aí pesa muito isso tudo nas costas. aí chega alguém que te trata como tu precisa, alguém que tu pensa que é tão perfeito que só pode ser amigo imaginário. mas tu não pode simplesmente sair ceifando tudo e dane-se o resto. então tu tenta não fazer estragos e tenta esquecer. aí aparece alguém que te trata como tu acha que merece, e em torno de quem tu não precisa ceifar mil cabeças. alguém que talvez seja perfeito. mas tu não pode lutar contra as decisões alheias e muito menos contra um Oceano que começa a verter entre os dois. ou contra qualquer soco inesperado ou injusto. contra muros de pedra que se fecham.
e tu continua de pé, mas no meio de tantos, tão sozinho. e a pior solidão é aquela de quando tu te sente num pedestal recebendo oferendas de todos os fiéis e por cima da multidão tu tenta, na ponta dos pés, ver se enxerga o único fiel que interessa.
pessoas especiais que um dia tu não reconhece mais, que te fazem sentir feliz e depois te derrubam com um simples e covarde soco, e te deixam no chão. pessoa que tu um dia achou que não era confiável que se mostra a pessoa mais do bem do mundo e que te dá esperança de ter onde depositar aquilo que tu quer compartilhar com alguém. pessoas que te tratam com crueldade e vilania justo quando tu as tratou com todo o carinho. pessoa que se acha monstruosa justo quando faz a coisa certa e mais justa. gente que tenta ser feliz e que se culpa por isso e pra quem tu só pode desejar que seja, de fato, feliz. porque merece o melhor. apesar de não ser contigo, apesar de não ser tu...

e a ansiedade terrível de descobrir longe alguém que talvez entenda como é que funciona essa tua incapacidade nata de sentir pouco, de correr pouco, de viver pouco, de rir pouco, de amar pouco, de sofrer pouco. e a distância em que o avião dá jeito, mas permanece sendo distância. e, de novo, aquela sensação de quando eu era criança. a promessa de uma coisa feliz sempre me deixou sofrendo muito por antecipação. enquanto eu não agarro a coisa feliz com as duas mãos, aquele frio na barriga e aquela solidão imensa de quem tem mas não consegue tocar. de quando meu pai disse É HOJE QUE A GENTE VAI AO CIRCO e da sensação de tristeza muito profunda e traumatizante ao chegar e ver o circo sendo desmontado. tarde demais.
desde esse dia, com cada felicidade que me é prometida eu pego junto toda a frustração de que posso chegar a nunca ter a promessa cumprida. meu pai não teve culpa. ele esperava me dar aquela noite de alegria no circo. me queimei tomando sopa rápido pra caramba pra poder ir logo ver o maior espetáculo da Terra. e cheguei tarde demais. eu sempre acho que vou chegar tarde demais. eu sempre acho que entre a sopa quente que eu tomo rápido, junto com a promessa do meu pai, e a felicidade que eu mereço, a felicidade prometida, a felicidade que eu espero e persigo, vai estar algum evento maior que tudo que vai fazer com que o circo desmonte suas tendas mais cedo pra seguir viagem. mais cedo do que estava escrito no cartaz. meu medo é sempre chegar tarde demais. e não foi culpa do meu pai, que me prometeu. e nem do circo, que levantou acampamento por uma eventualidade. foi do evento, foi da vida, foi do que fez com que as coisas acabassem sem que antes eu pudesse ser feliz com elas.

essa, eu acho, é que é a sensação de solidão mais dolorida. e eu, que chuto as mesas que topam com meus dedinhos, não tenho a quem chutar desta vez. porque o evento é muito maior que eu, que tu, que todos nós. a fatalidade é fatal. até um dia em que fatalmente eu não vá chegar tarde demais. e eu espero que seja logo. porque não eu já tomei demais na cara, pão eu tenho, mas de circo eu preciso.

[ Penkala ] 16:47 ] 0 comentários

 
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