] sexta-feira, julho 23, 2010
 
the clinch

um dia eu fui convidada para uma festinha. nunca isso acontecia. ninguém queria saber de convidar a nerd tímida e estranha. mas como a aniversariante era minha amiga (algo raro quando eu tinha 10 ou 12 anos), eu fui convidada pra festinha. mais raro era dançar com alguém. ou melhor: nunca acontecia. eu jamais era "tirada pra dançar". enquanto os meninos se preocupavam com o famoso "carão", eu me preocupava em nunca ter tido a chance de dar carão. pois nesta festinha tinha um menino que eu nunca tinha visto na vida, e ele não estava acostumado ao fato de eu ser a nerd que ninguém queria tirar pra dançar. e ele quis dançar comigo.

e eu dei um carão.

porque fui covarde. porque nunca tinha acontecido de me tirarem pra dançar e eu não sabia o que fazer. porque eu era a nerd que estava acostumada a ser zoada pelos colegas. então eu tive medo de ele debochar de mim.

e ele me tirou pra dançar mil vezes. e mil vezes eu sorri, fiquei roxa de vergonha e disse não. e quanto mais dizia não, mais medo eu tinha. apesar de antes de ir pra festa eu ter me dedicado a treinar a dancinha em casa. ("eu coloco a mão na cintura do menino ou é nos ombros?")

quando eu tive coragem e disse pra mim mesma que ia aceitar, minha mãe apareceu pra me buscar. e eu nunca mais vi o menino. e fui pra casa chorando. karma is a bitch...



palavra fervida no sangue nem sempre deve ser servida quente. a gente normalmente se arrepende. mas cálculo não é meu forte, e sopas de letrinhas frias, pra mim, são culinária exótica demais. acordo da ressaca das palavras que deveria ter guardado pra mim, com a vergonha daquilo que é íntimo demais pra ser dito, com o constrangimento de ter levado pra fora aquilo que fora do contexto que só existe dentro de mim é cafona, ridículo, até um tanto quanto idiota.

mas palavras ditas não voltam. palavras ditas nunca mais são tuas. e por mais vergonha, por mais constrangimento, por mais que a exposição seja horrível, azar. então assuma. então assumo. é ridículo, é cafona, é até meio idiota. mas é o que eu sinto. não devo nada a ninguém (devo uns filmes pra locadora, só). não estou indo contra os meus princípios. não estou ferindo ninguém. nem ao menos estou errando um erro calculado. estou, na pior das hipóteses, servindo a sopa ao sujeito que estava esperando entrecot. às vezes o sujeito toma a sopa por educação, mas lembra o garçon, meio de canto, que "olha, eu pedi entrecot. bem passado".

o problema são os arrependimentos daquilo que não se fez. e eu tenho muitos nesta vida. eu costumo não me orgulhar dumas burradas que fiz, mas tem o não orgulho das coisas que não fiz. e esse é o pior arrependimento. porque as palavras fervidas em sangue, servidas ao ponto, essas são a coragem de um sentimento que não quer nem saber se vai soar ridículo.

mas o que não fiz... o que não fiz foi covardia. medo de parecer idiota, medo de invadir um espaço onde não sou desejada, de pegar aquilo que não me pertence, de estragar tudo. medo, principalmente, da porta fechada, do não, da entrega que nos faz ficar com o braço no ar, segurando aquele músculo que pesa tanto sem ter como devolver pro lugar nem onde guardar ele quentinho. medo do tropeço, da queda, de rebentar a cara.

que espécie de pimenta é essa que promete arder e se acovarda? que espécie de covarde alguém pode ser quando chega tão perto tantas vezes e não tem a cara de chegar mais perto? que merda de lutador é esse que inicia a luta aos pulos, dando socos no ar, e na hora do clinch não faz nada?

não sei. não entendo. os arrependimentos sobre as coisas que me fazem parecer ridícula eu suporto. o problema é que parecer ridícula quando já se fez papel de idiota a vida toda é barbada. mas a queda, o tombo, a porta na cara, o sorriso educado de "não, obrigado" machucam. e sim, eu tenho medo de doer mais. na verdade, eu continuo sendo aquela alemoazinha tímida (alemoa é o caralho. eu sou polaca, tá?) que tem medo que o menino me chame pra dançar e jogue um balde de sangue de porco em cima de mim (merda. isso é outro filme.)

porque se pra menina aquela era difícil entender que um menino chamar ela pra dançar umas 15 mil vezes queria dizer que ao menos ele queria dançar com ela, pra covarde que eu me tornei é difícil compreender o que é jogo, o que é brincadeira e o que é uma porta aberta. o que significa, exatamente, um abraço apertado, um beijo afetuoso no rosto, um interesse inusitado pelos meus desenhinhos que não saem no banho, uma chamada pra luta. porque eu tenho essa mania de levar coisa demais a sério. e se alguém literalmente me desafia pra luta, eu boto meu uniforme de guerra e vou preparada pra briga. se me encontrar por aí me desafia pra batalha? então bora brigar! e se ocorrer um clinch, eu vou logo pensando em aproveitar o momento de vulnerabilidade pra desferir algum golpe a nocaute.

só que na prática a teoria é outra. e no tchauzinho dado de longe eu já estou aqui com meus botões de menina pensando: droga (quando eu tinha 10 anos eu jamais falaria "caralho!"), se ele tivesse me chamado pra dançar de novo... eu teria enrolado meus braços nos ombros e dançado... mas não. eu sou a menina que tá ouvindo crying in the rain (a diferença é que eu ignoro a parte do "I've got my pride and I know how to hide all my sorrow and pain..."), voltando pra casa, e escrevendo no diário com canetinhas coloridas: como eu sou burra!

[ Penkala ] 01:13 ] 0 comentários

 
eu uso óculos




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