] quarta-feira, agosto 04, 2010
 
por onde andas, General?

sempre fui extremamente rígida. cabeça dura, guampa torta, peituda. dura comigo mesma, especialmente. porque na verdade, eu sou uma manteiga derretida, uma mãe, uma boba-chorona. minha fama de generalzinho acabava piorando quanto mais eu me sentia um lixo. porque uma pessoa frustrada, que se sente uma merda e se olha no espelho e precisa fazer um esforço tremendo pra achar algo que preste, essa pessoa está o tempo todo furiosa. uma pessoa que acaba sendo tratada feito lixo mesmo por quem menos deveria fazer isso acaba tendo que compensar nalguma coisa que imponha respeito. pois bem, eu sempre fui brabinha. então ficou fácil eu "impôr respeito" sendo a braba, o general.

palhaçada. idiotice de quem não tem controle, de quem vê tudo dando errado e não consegue mudar. de quem precisa arranjar uma maneira de se proteger. achar maneiras de se proteger tornam qualquer superfície dura e impermeável. seres humanos com medo usam armaduras. seres humanos machucados constroem muros. muralhas. seres humanos escaldados atacam pra se defender e só então se dão conta de que não era um ataque que vinha na sua direção. mas aí é tarde demais.

quantas vezes fizeram merda comigo até eu aprender que precisava ser dura pra não me machucar de novo? e quantas pessoas foram escrotas o suficiente pra me abrir a guarda e depois me derrubar do lugar mais confortável onde eu estava lá, desprotegida? e quantas pessoas me viram frágil e me deram as costas, ou, aí sim, me machucaram?

é muito mais fácil dar uma de durona, e brigar, e montar um exército cheio de armaduras, com escudos erguidos e escondido atrás duma muralha? não é mais fácil. é apenas necessário.

e quantas vezes eu tive que ser responsável quando deveria era estar curtindo o curto período em que me era permitido a loucura, a experiência? e quantas vezes eu tive que carregar nas costas os pesos que não deveria? e me responsabilizar por mim e pelos outros?

uma pessoa que cresce assim desenvolve uma hedionda rigidez. morre por dentro. morre pra vida. nega tudo o que não seja maduro. enxerga na aventura todos os empecilhos das coisas irresponsáveis. uma pessoa assim vive numa prisão carregando a chave das grades na própria mão. uma pessoa assim vive confusa.

e aí, quando sai pela primeira vez desse abrigo nuclear, quando se desarma, quando tira das costas os pesos, se despe da armadura e baixa o escudo, tem medo, fica confusa, faz merda. é muito cansativo viver num mundo onde tu finge que as coisas são normais e que tu sabe delas de cor, porque tu tem 32 anos e é suposto que tu saiba mesmo. tu finge tanto, pra que os outros não achem que tu é uma aberração, que tem horas que tu nem sabe mais quem é. ou tu experimenta coisas que tu nunca experimentou, porque tu não sabe se negava elas todas por medo ou porque de fato não era da tua índole fazer aquilo.

se é difícil o caminho que a gente trilha pra se conhecer, pior ainda é o caminho que a gente trilha pra descobrir quem se é depois de achar que já sabia muito bem. o resultado é a aberrante criatura fazendo coisa de 16 anos com 32. é a criatura besta que tem medo de fazer alguma coisa errada, de parecer ridícula. é a criatura que se expõe depois de 32 anos fazendo de tudo pra se esconder. é a aberrante criatura que sempre ouviu reclamações de que se escondia o tempo todo agora ouvir o sermão (apropriado) sobre as cagadas que faz se expondo.

a gente aprende. mas até aprender, sofre. a gente aprende, mas até aprender a gente passa vergonha ouvindo de quem supostamente seria menos experiente um sermão que te faz pensar: por que diabos eu fui sair de trás do muro, de dentro da armadura?

ou pensam que as tartarugas são duronas por causa daquela cápsula? que os bernardos são assustadoras estruturas de armadura? pois não são. são, pelo contrário, umas criaturas frágeis que nem sabem o que fazer quando estão sem os seus escudos. são generais que usam uma patente porque assim os outros tomam distância. antes, tomar decisões era fácil. era simplesmente dizer NÃO e deu, porque era suposto que eu dissesse não. que eu achasse que não devia. que eu fosse contra. que eu achasse feio, sujo, malvado. agora, a confusão. porque é dizendo sim que a gente experimenta, é dizendo sim que a gente aprende, é dizendo sim que a gente ganha. mas é dizendo sim também que a gente faz muita merda, que a gente se machuca, que a gente confia em quem não deve, que a gente comete erros.

não é fácil ser general. generais são uns merdas, uns cagões, no fundo uns covardes. e ninguém gosta deles. eles fingem que não têm coração, porque ter coração, numa guerra, é garantia de que uma baioneta vai vir direto onde? generais fazem merda porque foram criados em laboratório, ganharam patente sabe lá como, ganharam fama de durões simplesmente porque berraram mais alto. porque eram uns doidos obstinados que foram varrendo tudo usando concreto armado como uniforme. generais são aqueles sujeitos que choram escondido por causa das dores, mas não mostram pra ninguém que doeu.

eu cansei. e cansei de fazer bobagem. e cansei de me machucar. mas comofas? porque só ganha batalhas quem vai à luta. não se machuca quem não luta. eu sou quem? eu sou a guria da coleira no tornozelo? eu sou a guria da pulseira punk? eu sou a moça do maiô vintage de cerejas? do apê vermelho com abajur azul? eu sou Watts ou eu sou Amélie? Watts que é Amélie, por dentro... Amélie, que queria ser Watts?




an education

aí eu vi EDUCAÇÃO e chorei. e nem pensei, na hora, em por que tinha chorado (tá certo, TPM, né?). só percebi depois. chorei porque me senti assim, a Jenny. a menina de 16 que vive num mundo onde ou as mulheres casam com um sujeito que cuide delas, e viram mães e donas de casa, ou elas estudam e atingem seu potencial intelectual e estão condenadas a uma vida solitária. Jenny vai pra Oxford, ou é assim que os pais dela desejam. ela é inteligente porque sim, ela é culta porque estuda, porque gosta de saber.

e aí ela descobre a vida fora desse mundo. uma paixão, Paris, a vida de adulta. e se entrega, e questiona a Jenny que vai pra Oxford. até que um dia ela larga a escola pra casar com o sujeito aquele que foi diplomado "na escola da vida". os pais, por um lado, ficam aliviados. e demonstram que queriam que ela fosse pra Oxford, sim, mas como alternativa segura, caso ou enquanto não casasse. na perspectiva do casamento, os pais ficam felizes por ela ter conseguido um partidão.

a velha história de ser educada, culta e ir pra faculdade pra arranjar marido.

de outro, a professora durona que vê na Jenny um projeto de mundo e de mulher. uma mulher que estuda porque gosta, porque quer saber, e que com isso vai poder tudo.

me lembrou, tudo isso, do que uma mulher me disse uma vez, um tempo atrás. disse ela que eu tinha uma carreira e que agora era hora de me dedicar a isso, porque eu ia me dar bem ("o resto vem naturalmente"). eu, despedaçada, com o coração apertado. eu, sozinha, carente, sentindo falta de alguém do meu lado. eu, indo deitar todos os dias pensando em como fazer tese é um exercício da solidão. em como "ser inteligente" era, também, uma condenação. em como os caras acham que eu sou fodalhona por causa do meu cérebro e admiram o fato de que tudo o que eu quero, eu consigo porque sou inteligente; mas por quem eles se apaixonam? por quem eles largam tudo? por quem eles fazem loucuras? não pela professora durona, pelo generalzinho furioso. e tu fica pensando em por que desse castigo. qual o problema de gostar de alguém que goste de ti em troca?

me senti no lugar daquela professora solitária, agoniada com o erro da aluna, o desperdício. a professora escondida por trás de um ritual de endurecimento, de blusas fechadas até o último botão, de um óculos sóbrio e do cabelo preso.

quando a professora abre a porta de sua casa pra Jenny, a menina se assusta. um piano, obras de arte, enfeites e cartões postais de viagens que Jenny já conhece dos seus passeios românticos.

eu fui uma adolescente muito responsável, assim como a Jenny. eu me apaixonei e casei, como a Jenny ia fazendo. eu ia construir uma família, como a Jenny provavelmente faria, depois de largar a escola. e no dia em que minha aliança dourada mostrou ser de latão, ou pior ainda, eu caí. eu deixei os estudos de lado, eu amaldiçoei os anos em que fui me enfeiando, achando que meu cérebro era mais importante. e senti meu plano de ser mãe pra logo depois que recuperasse o fôlego do doutorado como uma piada de péssimo gosto. aprendi que talvez eu nem deva ter esse plano mais...

tarde, mas espero que não muito, descobri o que a Jenny viu acontecer antes de enveredar pelo caminho que ela não queria. um cagão fugindo porque ficou com medo de dizer a verdade machuca, mas é muito melhor assim. é quando tu vê a covardia onde antes tu via tudo de bom. é onde tu vê o guri mijado onde antes tu via um homem. é onde tu vê a merda em que tu ia te metendo, te atirando de cabeça.

e aí tu corre atrás da professora solitária e pede ajuda, pede uma chance. a vida te dá essas chances. às vezes.

mas por trás da Jenny inteligente que estuda porque gosta, e dos óculos sóbrios da professora, existe um mundo de músicas românticas e postais de cidades lindas ainda por serem conhecidas. existe uma cozinha arrumada com carinho e enfeitezinhos de mulher. existe alguém que não sabe fazer outra coisa, mas sente o peso dessa coisa de carreira e de trabalhar duro pra provar que uma mulher tem tanto cérebro quanto um homem e de que uma educação apropriada não é um meio de conhecer marido, mas um prazer pra quem gosta de conhecer.

é difícil, sabe? é difícil fechar os livros, colocar "ausente" no msn, fechar a casa, apagar as luzes e dormir, às 5h, porque o corpo tá cansado. demorar pra pegar no sono porque não tem jeito de esquentar as costas ou os pés. é difícil. muito, mas muito mais difícil que passar em primeiro lugar em seleções de doutorado, fazer tese, enfrentar turmas inquietas de alunos cheios de energia.


[ Penkala ] 17:41 ] 0 comentários

 
eu uso óculos




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