] quinta-feira, setembro 30, 2010
 
eleanor rigby, que vive em um sonho do qual nunca consegue lembrar depois de acordar. que veste uma expressão no rosto que não é à prova de lágrimas. que torce o lenço de papel na mão, no banco desconfortável do ônibus, vendo ir pelos ares mais um sonho, vendo no lenço sua expressão derretida, percebendo que não consegue mais parar de chorar.

eleanor rigby, que ainda tem um arroz jogado na saída dos noivos da igreja dentro da roupa. um arroz que não consegue tirar, embora queira. um arroz que só pinica. um arroz que nunca vingou, um arroz que machuca. e toda vez que deita, o arroz machuca a pele. e quando fecha os olhos, abre no dia seguinte sem lembrar de nada.

eleanor rigby, que não sabe mais amar. que não tem mais coragem. que não quer mais doer. que sofre olhando nos olhos dos outros uma lágrima que já foi sua. que sabe que está protegendo os olhos alheios de mais lágrimas. como nunca ninguém a protegeu. que deseja com todas as forças, mas quando recebe a encomenda dos seus pedidos mais esperançosos, não consegue querer tanto. não consegue não chorar de tristeza. não consegue enxergar aquilo como seu. então devolve. que olha pra perfeição de tudo aquilo que desejou com todas as forças e sente muita pena de não conseguir escrever seu nome a caneta, ou de tirar da caixa e ser feliz com tudo o que mais esperou.

eleanor rigby que está cansada de comer sozinha, que não tem pra quem arrumar a casa, que vê em brincar de casinha apenas mais um recado triste da vida, de que aquilo é provisório. que sente as dores todas sozinha, que não fica doente porque não pode ficar doente sozinha, que tem que dar conta de tudo, mesmo que o tudo seja pesado demais. que tenta criar uma casca grossa pra suportar os cortes, e músculos fortes pra suportar o peso, e ossos fortes pra suportar os golpes. que quando está preenchida sente um vazio. que quando é abraçada, sente medo. que quando tem o sono vigiado por quem está ali pra proteger, acorda tendo pesadelos. que nunca consegue descansar. que quando vê a cama onde vai deitar sozinha mais uma vez, sente alívio, porque ninguém vai precisar se assustar com os fantasmas que rondam seus sonhos, os monstros que sapateiam na sua cabeça, ou os tristes lamentos das vozes que nunca param de gemer.

eleanor rigby, que acorda com medo de nunca mais acordar. que acorda sem saber onde está. que acorda e não lembra mais como é dormir feliz. que vai dormir com cafuné e sente dor. que vai dormir enroscada dentro de um urso e sente falta de ar. que afasta todos de si porque foi contaminada. que tem medo de machucar qualquer um com seus espinhos, que quanto mais amor recebe, mais agonia sente. por não conseguir retribuir. que se pune aceitando a perversidade porque acha que merece. que aceita o veneno alheio porque quer se punir de um crime que não cometeu.

eleanor rigby, que escreve cartas que nunca manda, que compra flores que nunca rega, que dorme abraçada em si mesma pra que o coração não caia em migalhas no chão do quarto. que não se permite nunca ser feliz. que tem medo. que tem todo o medo do mundo. que não suporta mais chorar, mas não sabe sorrir. que olha pras sementes que vem plantando e diz: não presta, não tem valor, não vai vingar. que vê as crianças sorrindo e sente pena do que elas vão sofrer um dia. que olha os adolescentes às gargalhadas e sente que precisa contar que aquilo não dura.

eleanor rigby, que não morre por medo de morrer sozinha, que não vive por medo de viver sozinha, que transita entre os vivos sem estar viva, que caminha por entre os mortos sem ter morrido. que só quer ter uma noite de sono em que suas costas estejam sendo aquecidas sem que isso seja triste, sem que isso seja, logo mais, uma despedida. que faz um milhão de cartões de visita mas não dá nenhum a ninguém porque acha desperdício ou, pior ainda, porque tem medo que alguém um dia ligue pro telefone que está ali impresso. que quando lhe oferecem tudo e um tapete vermelho estendido, cai em prantos, porque não sente mais nada que não seja tristeza e medo.

[ Penkala ] 01:42 ] 0 comentários

 
eu uso óculos




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