] quinta-feira, setembro 09, 2010
 
eu sou adulta. apesar disso, cometo erros. aos montes. enormes. estúpidos. e eu tenho medo de escuro às vezes, embora ande pela casa, de madrugada, sozinha, sem acender uma única luz. e eu acredito em fantasmas. não em espíritos. neles, acredito e ok, não vamos discutir isso aqui. mas eu sou adulta e acredito em fantasmas. isso, sim, é coisa preocupante.

o pior não é ser preocupante. nem reconhecer aqui que acredito neles. é saber que isso é parte inerente de ser adulto.

fantasmas são seres inconvenientes. têm a pior das aparências, porque sempre se parecem com aquilo que a gente vê num dos piores momentos, quando o olho, triste, furioso, magoado, decepcionado, com ódio, enxerga tudo diferente. fantasmas são horrendos. fantasmas são ecos de algo que já morreu. por isso, sempre que aperecem trazem consigo um cheiro pútrido.

tu é adulta. tu paga as contas, cuida da própria vida, atravessa a rua sozinha e faz pequenos reparos sem recorrer a nenhuma ajuda externa. e tu sabe, por causa disso tudo, que fantasmas são coisas que já morreram.

mas eles sabem muito mais. eles são espertos. e é por causa do que eles sabem é que eles vêm assombrar. porque eles só aparecem porque sabem que tu não fez o enterro do corpo como deveria.

então o fantasma aparece nas piores horas. ele aparece de tempos em tempos. ele até se esconde, mas é desastrado e nem sempre consegue evitar que se veja o pé atrás de uma cortina, a sombra, etc... o fantasma finge que desapareceu pra depois aparecer quando tu tá desavisado. o fantasma deixa seus pedaços no meio das coisas que tu ainda usa, e por onde passa deixa um cheiro impossível de exterminar.

eu sou adulta. deveria ter sabido enterrar corretamente o corpo, pra que o fantasma não voltasse a me assombrar. eu sou adulta, eu erro, eu fico atordoada. especialmente se exigem de mim o comportamento de uma mulher de 32 quando, na verdade, eu estou estilhaçada em mil pedaços.

pois eu tentei me livrar do corpo. depois de um tempo fedendo na sala da minha casa, eu enterrei. eu tentei. ocorre que pra fazer isso às vezes a gente age como se aquilo fosse um tumor. aquele pedaço malígno da gente mesmo. um tumor. se fosse apenas uma, duas células, tudo bem, não faria vulto. porque células são boas. mas quando elas se multiplicam, e as células tortas começam a contaminar as boas e produzem aquela bola tóxica cancerosa, a gente precisa tirar. câncer não é uma coisa bonita. a gente não tira só a bola malígna que contaminou mesmo as células boas. a gente tira junto um pedaço da gente. e, com o resto, deformado, a gente tenta tocar a vida.

metade de mim eu enterrei com o corpo pútrido. porque ou era a metade cancerosa, ou porque era algo contaminado pela sua malignidade. a outra metade, já que estava deformada, destituída, rasgada, incompleta, fraca, doente... eu troquei. se eu tive que me desfazer de coisas que amava e prezava em mim porque estavam contaminadas, então as que eu não gostava e que estavam intactas iam pro saco junto.

só que nessa limpa eu não apenas me livrei de muita coisa legal de mim como não enterrei direito o corpo fétido. e então o fantasma, com olhar de quem sabe que tá ali porque fui incompetente no enterro, normalmente aparece quando estou frágil, usando novas peças com as quais não me acostumo, usando novas armas, nem sempre muito boas, e destituída das coisas que faziam de mim o que eu era.

eu me perdi. nalguma curva no caminho, me desfazendo desse câncer, eu me desfiz de algo muito importante de mim. e catei algo que me parecia mais confortável. embora agora tenha me dado conta de que não tem conforto nenhum em máscaras que a gente julga que vão nos fazer passar por outra pessoa nem em armaduras que vão nos defender enquanto uma nova casca não cresce. eu me perdi, e nesse processo eu afastei as pessoas que eram importantes na minha vida. algumas delas, inclusive, me salvaram do câncer. outras, ainda, estiveram do meu lado durante a quimioterapia.

eu me tornei uma pessoa insuportável. uma caricatura, um personagem. a líder de um movimento de uma pessoa só com a ordem do dia escrita num papel que carrego sempre no bolso: boicote.

não. o fantasma aparecer não ajuda. eu digo, na hora, que ele é apenas um fantasma. mas ele diz: se fosse SÓ isso, tu não tava falando comigo.

eu me quero de volta. eu quero minhas metas, objetivos, caminhos de volta! eu quero meus sonhos, quero meus valores sólidos, quero meu coração de volta! eu quero as pessoas de volta, e quero que elas me dêem uma nova chance. queria poder dizer pra elas que estou aqui, que eu tava de máscara, mas estou aqui.

eu quero meus tênis de trilha de volta, e aquela vontade que eu tinha de atravessar qualquer mato só com uma foice na mão e galochas pra evitar as cobras. eu quero o amor pelo meu trabalho, eu quero meus sonhos de professora de volta, eu quero a tese escrita com paixão. eu quero meu armário livre desse fantasma podre que, além de tudo, é a coisa mais assustadora que já vi. eu quero ser eu mesma de novo, sem câncer. eu quero recuperar o que eu joguei fora sem querer. eu quero me livrar do que eu catei nos brechós da minha imaginação pra poder jurar de pés juntos que eu era uma nova pessoa.

eu tive um câncer. ele destruiu muitas partes boas e saudáveis de mim. eu tive que tirar um pedaço do peito junto, um pedaço da cabeça junto, pra poder sobreviver. a quimioterapia já deveria ter acabado. chega, não aguento mais! enquanto o tratamento me defende duma proliferação cancerosa e mata tudo o que ainda poderia restar desta merda de tumor, me deixa enjoada, agressiva, burra, idiota, insuportável. e pessimista. chega. CHEGA! eu quero minha vida de volta, quero meu peito de volta, quero que meus cabelos cresçam sem eu ter que colocar essas perucas horrendas. chega de boicote, chega de me punir pelo crime alheio, chega de me punir pela falta de vergonha na cara alheia, chega de me punir pelo que eu não cometi, pelo que não tenho culpa. eu não consegui enterrar o corpo pútrido direito, eu sei. era muito grande e muito pesado. mas se não coloquei areia suficiente em cima desta porcaria, se um pé ficou de fora, lamento: vou mandar cimentar. e se quem causou meu câncer anda por aí faceiro, feliz e bem resolvido, eu, que nunca fiz nada de ruim pra ninguém, não vou ficar aqui me punindo.

eu sou adulta, eu acredito em fantasmas, eu administro uma casa sozinha, eu pago minhas contas e troco a resistência do chuveiro. eu acredito em fantasmas. eu só queria, às vezes, não estar sozinha quando eles aparecessem. porque os fantasmas só aparecem porque sabem que a gente não enterrou direito o corpo. e porque a gente tá sozinha. eu sou uma adulta de merda, fantasma. mas se tu é muito esperto, eu sou quase doutora.

[ Penkala ] 02:57 ] 0 comentários

 
eu uso óculos




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