] sexta-feira, novembro 26, 2010
 
quatro homens em uma mala

o grande paradoxo da vida é que a gente só chega aos caminhos onde chega por causa daquilo que carrega nas costas, mas só se anda por aqueles caminhos se se solta essa bagagem antes de começar a caminhar.

cada caminho é feito pros nossos pés, e cada par de pés tem um número de caminhos a trilhar. cada pessoa tem um itinerário. e se chegar até um determinado percurso exigir tomar um outro caminho, é isso que a gente tem que fazer, porque é isso que a vida oferece. não temos escolhas. pode parecer que sim, mas não temos. essas escolhas, pelo menos, não.

eu lembro tão bem da copa de 86. eu lembro do mascote, e eu lembro da bola de plástico que as crianças tinham, com o mascote pintado com os verdes e amarelos. o sombrero mexicano e o bigode. a copa de 86 foi a 13a. copa da FIFA. eu lembro, porque eu tinha 8 anos. mas muita gente nasceu naquele ano. essa bagagem, até aqui, eu carreguei. eu tinha 8 anos e lembro da copa do México como uma das lembranças mais nítidas da minha infância. foi quando eu comecei a me dar conta de muita coisa na vida. foi quando minha vida sofreu o primeiro assalto. e esse tijolo eu carrego na mala até hoje. um tijolo que eu carrego desde os 8 anos.

eu acumulei muita bagagem desde cedo. minha vida foi meio monótona. mas eu carrego muita bagagem mesmo. como quando comecei a ser militante em 89. como quando fui cara pintada em 92. e mais tijolos. com 13 anos, mais tijolo. que eu carrego pra toda a vida. mesmo que eles só sirvam, às vezes, pra sair rolando da mala e me fazer tropeçar. tem criança que joga o bico fora com 5 anos, enquanto, ao mesmo tempo, outras crianças perdem algumas de suas coisinhas mais sagradas.

eu me apaixonei muito, mas muito fortemente muito cedo. eu tinha 16, eu tinha cabelo comprido, eu andava de calça rasgada. eu já sabia que não acreditava em deus. eu já sabia de muita coisa. eu já queria ser cinegrafista de guerra. eu ia fazer química, mas desisti, porque eu não entendia nada disso mesmo. eu precisei estudar muito pra passar em química na recuperação pra poder me matricular no jornalismo no ano seguinte. a minha bagagem estava cada vez maior. eu queria ser criança, mas tinha a faculdade. muita gente era criança nos anos 90. eu, não mais.

eu carrego muita bagagem porque eu sou uma pessoa que não consegue se desfazer de muitas coisas. eu simplesmente vou amontoando na mala. e pago o preço, os pés doloridos e as costas cansadas, de não saber me desfazer daquilo que não deveria ocupar mais do que apenas a lembrança. eu tive muita dificuldade em me desfazer da infância, por isso fui criança na cabeça até uns 22 anos. enquanto isso, muita criança, que podia ser criança, já trabalhava duro.

eu casei. e fui acumulando ainda mais bagagem. eu sofri muito com esse rasgo que foi sair da casa dos meus pais, mas eu queria trilhar meu caminho sozinha. até então, se alguma parte da bagagem tava pesada, meu pai me dava carona. a mãe aliviava. algumas, claro, eles não puderam ajudar. eu casei, eu tinha 23, e eu me mudei umas quantas vezes carregando essa mala pesada.

a gente não pode soltar as malas que carrega antes do tempo. elas pesam, mas é preciso. é lá que alguma coisa necessária à sobrevivência vai estar guardada. ou carrega a mala, ou é fim de caminhada. um homem dentro da mala pesa. um homem, sua mala, e suas manias. e suas pedras. e seus tijolos. e tu carrega essa mala porque precisa. esse homem deveria estar do teu lado, te ajudando a carregar. mas não está. ele está dentro da mala. ele, sua mala e seus tijolos.

só se sabe o que é peso morto quando se carrega um homem morto nas costas. ele, sua mala e seus tijolos. e sua morte, que pesa. só sabe o peso de um homem morto quando se carrega um. e só se carrega um homem morto quando dentro dele tu ainda tem guardadas algumas coisas preciosas. se esquartejar o homem e ir largando no caminho aos poucos fosse uma opção válida, todo mundo faria. não pode. enquanto nas entranhas desse homem morto tiver jóia tua, tu carrega.

como o homem está morto, e as circunstâncias são essas, e envolvem tuas jóias, tu continua carregando o homem morto mesmo quando pega a mala de mão de outra pessoa. na vida, não tem cavalheirismo. cada um deve carregar a própria mala. e carregar uma mala de mão cheia de esperança ajuda a aliviar a dor nas costas. os mil alfinetes cravados nos pés, o suor pesado. este homem te ajudou a levantar quando o homem morto que tu carregava pesou a ponto de esmagar. nada mais gentil, tu pensa assim, que ajudar ele no caminho. e aí tu coloca nas costas mais esse homem, que é vivo, não pesa tanto, e basicamente só faz teu caminho menos dolorido e chato. só que ele pesa.

tu colocou ele lá pra cima das costas. e não tira porque tu tem esperança que ele vá te ajudar a, quando chegar a hora, esquartejar o morto, pegar dele as jóias e seguir caminho. a esperança. as malas carregadas de esperança também pesam, embora não façam volume. tu não enxerga. elas se disfarçam. e quando tu vê, tá carregando dois homens nas costas. e tu jura que largou os dois quando avista um terceiro homem, nos olhos de quem tu vê que tudo é perfeito. tu só desviou um pedaço do teu caminho original, porque nos olhos dele tudo parecia claro. e sem ele querer, já está nas tuas costas. ele reluta, ele tenta sair, mas ele é pior que um peso morto. é um homem fantasma, é um homem imaginário.

os amigos imaginários são assim. a gente precisa deles pra atravessar coisas na infância que não atravessaria sozinho. os homens imaginários são amigos imaginários que cresceram. eles pesam como o morto. mas tudo aquilo que no morto é pesado porque é passado, no homem imaginário pesa porque é a projeção de um futuro. e o futuro pesa o infinito.

os homens imaginários pesam porque tu carrega com eles todos os ideais. os homens imaginários, de quem tu não enxerga as malas e nem os tijolos, porque enrola eles num tapete comprido de perfeição. é um peso mais pesado que o do morto. de um tu não te livra porque é teu passado. de outro tu não te livra porque é teu futuro. ou assim tu imagina, já que ele é imaginário.

aí tu avista um homem que te ajuda a carregar tua mala. e tu pensa que vai poder subir nas costas dele, porque ele é tão perfeito e ainda quer carregar tua mala. é um homem gentil, e diz que está indo pelo mesmo caminho que tu, então tu deixa ele carregar tua mala uns metros, até que tu te dá conta de que um companheiro de estrada não deve ser aquele por quem tu sente muita gratidão por ter segurado tua mala. esse homem pesa, porque sobre ele pesa toda a culpa que surge de dentro de ti. a culpa por declinar do convite pra trilhar o caminho, a culpa por declinar do convite depois de ele ter te sido tão gentil. uma culpa porque tu pensa que ele tem tudo o que tu pediu, na hora que tu rezava por paz, alento, e alívio daquele peso todo. porque tu pensa que se tu tiver que colocar aqueles três homens nas costas de novo, tu quase desiste de andar.

e aí tu diz que vai ter que dobrar essa esquina. e seguir sozinha. então tu coloca esse homem nas costas mesmo sem querer. e ele pesa muito porque é promessa. tu coloca nas costas porque esse homem foi paz quando tu tava cansada, sozinha e sem abrigo. tu coloca nas costas porque tu não consegue te desfazer, embora tu saiba que não deva carregar ele desse jeito. na verdade, tu carrega a promessa, não o homem. mas como tudo vem num pacote só, tu carrega esse, o quarto homem, nas costas.

quatro homens nas costas. um pesando porque carrega com ele tuas jóias, carrega nele 14 anos, e do corpo de quem tu não te desfaz porque, embora morto, ele pesa 14 anos. o outro, uma mala de mão, pesa pouco, mas pesa significativo, porque é esperança. o outro pesa tanto quanto o ideal pode pesar. pesa o peso do futuro e, perto do infinito que o futuro é, o passado pesa pouco demais. embora pese significativo, porque é um peso morto e carrega tuas jóias. e a promessa, que pesa tanto quanto a esperança, pesa pouco também, mas ocupa um volume considerável.

quatro homens nas costas machucam os pés. e te impedem de olhar o caminho. e te fazem sofrer. teu trajeto fica cada vez mais difícil com quatro homens nas costas. e embora tu esconda todos eles dentro dessa mala bonita, tu não parece mais que um entulho de mágoa, medo e tristeza pros homens que, devagar, pelo caminho, trilham a mesma trilha que tu. não são eles que te enxergam assim. é tu quem te projeta assim neles.

mas os quatro homens nas costas foram diminuindo teu passo. e embora não pareça, isso te serviu de lição. o tempo, caminhado com a dor nos pés, ensina. os que vinham caminhando lá atrás passam por ti. os que nem viram a copa de 86, nem tinham tirado o bico ainda quando tu perdeu tua inocência... eles emparelham contigo. e em vez de enxergar tua mala nas costas, vêem no teu olhar algo que não é nada daquilo que tu carrega, mas só existe por causa do esforço que tu vem fazendo em carregar.

esse homem não oferece ajuda pra carregar essa mala, que sabe lá quantos mil homens mortos terá dentro. não está interessado nessa parte da bagagem porque tem medo que ela te prenda a esses cadáveres. não se oferece pra só fazer a travessia contigo, e não tem muito a prometer como entretenimento de um pedaço pequeno de caminho. segura na tua mão. pura e simplesmente segura na tua mão. tem uma calça furada do ácido de suas escolhas. tem as unhas roídas pela raiva que nunca sai do fundo do seu estômago. tem o sorriso aberto de um principezinho que mal saiu das muralhas do castelo, e a sobrancelha levantada de um tirano que já enterrou mil exércitos. e segura a tua mão. te promete um passo de cada vez, mas toma o cuidado de saber que tu ainda quer dar muitos passos, porque é o que ele pretende também.

debaixo dos teus pés, uma terra diferente indica que o caminho mudou. num pórtico mal iluminado, te pedem o peso morto. se os pesos machucam quando carregados, machucam também quando nos livram de sua pressão. tu entrega o homem morto, diz que ali dentro daquelas entranhas existem as tuas jóias, e, em troca delas, te entregam uma pedrinha qualquer, de valor incrível. que tu não vai trocar nunca, com a qual tu nunca pode pagar por nada, e que vale muito mais do que todo o peso em ouro daquele homem morto multiplicado por mil. e a pedrinha vai naquela niqueleira, no bolso auxiliar da mochila. ela não pesa, não ocupa espaço, mas vale o imensurável.

o segundo homem se despede, sempre tão amigo, sempre tão querido. ele tem coisas a fazer, e uma delas é estar sempre ali, na memória, ou ao lado, mas não será mais a mala de mão da esperança. tu realiza quem é esse homem, agradece por ter te ajudado, e guarda um amigo no coração pro resto da vida.

e o homem imaginário, quando tu vê, foi embora. sem deixar vestígio. algumas marcas, mas sem deixar vestígios. um homem imaginário que tu não vai precisar carregar mais, porque tu sabe que ele não é o futuro. que ele não é o ideal. é apenas um homem de pedra, esculpido perfeito por um artista que da vida não entendia nada. os homens imaginários são engraçados. quanto mais enxergamos nele o que de ideal projetamos, mais eles se desfazem, por ação da luz.

o último homem, a promessa, também segue seu caminho, porque se desfaz a culpa que te prendia a ele. uma cola tão poderosa é a culpa.

quatro homens numa mala. tu te livra dos quatro homens numa mala, e quando tu vê, ainda tem alguém segurando a tua mão. tu não sabe rezar, então tu apenas torce, com todas as forças, que ele nunca largue da tua mão. tu tem as marcas de quem já carregou tanto peso, mas foi por causa disso que teu passo pode ser alcançado. tu tem várias desvantagens. o medo te acompanha a cada passo. mas não é mais um medo paralizante. tu só tem a teu favor o tempo que tu teve pra pensar, as jóias que tu foi juntando no caminho e essa estranha sensação de que o trajeto pode ser duro daqui pra diante. mas que tu sabe lutar muito bem pra que, seja qual for o obstáculo, dessa mão tu não vai soltar.

[ Penkala ] 21:31 ] 0 comentários

 
eu uso óculos




CLICA QUE VAI:
www.flickr.com
Penkala's eu, casa & coisas photoset Penkala's eu, casa & coisas photoset

BLACK BIRD SINGING:

Get Firefox!








Powered by Blogger


RSS