] terça-feira, novembro 02, 2010
 
sobre o que não vai mais crescer dentro de mim

algumas palavras jamais devem ser ditas. elas não podem ser resgatadas, não há reembolso, elas não podem ser lavadas, amenizadas, não há desculpa possível. as palavras, depois de ditas, não voltam jamais ao seu lugar. elas pairam sobre nossas cabeças. elas tornam o ar pesado. elas fazem um véu sobre nossos olhos. elas não voltam para seu lugar de origem, esse lugar escuro e protegido de onde algumas delas jamais deveriam sair. por um lado, é bom. não viram tumor. por outro, são agora um peso que carregaremos pra sempre nas costas.

quando saem, certas palavras emanam o cheiro pútrido de seus humores. tornam o ambiente insuportável. deixam um rastro amargo, do veneno que por vezes as reveste.

mas essas palavras são as verdadeiras. quando ditas, são o que se pode proferir de mais verdadeiro. e é por isso que machucam tanto. tanto a quem atingem, quanto de quem são vomitadas, como quando se precisa tirar de dentro de si a toxidade que delas nunca vai parar de sair. seu poder destruidor é imensurável. e a culpa que provocam ao saírem é quase tão tóxica quanto elas.

do arrependimento que fica depois do ato violento de as expelir, a dor maior é tê-las tido, crescendo, por dentro. e, como isso não machucasse o suficiente, a constatação mais cruel de que elas só têm origem no ódio mais puro, na raiva mais genuína, na comoção mais legítima de um coração em agonia. e a certeza quase científica de que as palavras de ódio, desprezo, ira e crueldade só crescem no húmus fértil no solo que enterra sentimentos como o amor. o amor, palavra dita com tanto desprendimento, com tanta sinceridade, com tanta força e verdade. o amor, palavra que não volta nunca mais. de onde se originam as palavras mais repletas de toxidade, o amor enterrado.

as paixões, essas são cegas. porque se enxergarem a face feia e má, despencam de sua escadariazinha frágil. o amor, não. o amor celebra a face bonita, boa e viva enquanto se encarrega de manter sob controle o escuro que se projeta da face mais perturbadora de um ser. por isso, onde há o amor, há um trabalho infindável de controle. um controle que fecha as portas dos armários onde o outro guarda o que é de ruim e terrível. um controle que mantém a calma quando os demônios escapam, vez ou outra, por descuido.

mas quando os demônios enterram o amor à força, o amordaçam, o humilham, o maltratam; quando os demônios machucam, com suas palavras malditas, com suas facas afiadas, com suas risadas assustadoras e sarcásticas; quando o amor é dilacerado, estraçalhado, consumido pelo desprezo e deixado ao relento do desapego; quando o amor conhece e não mais controla a face inteira daquilo que suportava pra seguir em frente, pra viver e celebrar o próprio amor; aí, então, por uma transformação química qualquer, o amor vira ódio. em defesa, o amor agonizante vira ódio, e vira raiva, e vira revolta, e se torna depositário de todos os cânceres que resultam dessa violência.

é daí que surgem as palavras mais cheias de veneno, que tornam vil quem as profere, que rebaixam o coração de quem as vomita, que estragam o ar, o chão, as paredes da convivência civilizada daqueles por entre quem circula. é do amor mais sincero que o ódio mais profundo se origina; e da dor contida, do choro engolido, da humilhação controlada que surgem, tóxicas, nefastas, hediondas e cruéis, as palavras mais horrendas que alguém pode proferir contra outra pessoa.

mas elas são um último grito de sobrevivência. um último sopro de razão antes de se cair em loucura. um último fôlego de luta antes da desistência mórbida. elas são uma forma de matar, de exorcizar, de consumir, de destruir o que ainda resta de veneno desse processo lento de recuperação. elas são uma declaração de ódio que mais diz a quem as vomita que a quem elas se dirigem. elas são uma carta de alforria, uma tentativa desesperada de tomar o controle, uma forma de dizer "chega! não aguento mais ser machucada, humilhada, desrespeitada, constrangida e destruída! chega! eu não aguento mais sentir dor!". dizê-las é extirpar um câncer. e deixar, na porta do genitor, o aborto da aberração que ocupava no ventre o lugar do que já teve um dia a idéia de ser o filho bonito de um amor. enrolado em um enxoval improvisado de bordados ainda por terminar, esse aborto berra o que é de sua natureza berrar, e diz, pra esse genitor que se redime de responsabilidade, que agora ele veja o monstro que ele gerou, o tome nos braços, e arque também com a culpa da violência que cometeu. ao menos com a culpa, já que depois de violar o último lugar sagrado do que um dia foi amor, só se fez costas, só se fez ausência.

uma gestação interrompida assim deixa marcas. marcas da curetagem de um tumor crescente e maligno. e as palavras, malditas, ditas com tanta violência, são esse corpo morto e feio que não vai mais crescer aqui dentro de mim.

[ Penkala ] 18:45 ] 0 comentários

 
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