] quinta-feira, dezembro 30, 2010
 
corações de 1,99

aprender lições é difícil. não que eu seja burra. mas aprender lições na vida é muito difícil. porque a vida é o que acontece enquanto está acontecendo. é como tu querer estudar tua própria anatomia enquanto está vivo. difícil. e eu odeio admitir quando tou levando pau numa disciplina.

tu sabe, em teoria. só na hora do exercício é que tu erra. tu sabe no ensaio, mas quando a coisa é de verdade, tu faz tudo errado de novo. e o pior de tudo é que tu erra e dói. tu erra e fica mal. tu erra e é humilhado. tu erra e fica te sentindo um lixo.

mas tu vai aprendendo. aos poucos. devagar tu aprende que dar valor demais aos outros é bom. se eles merecem. se não merecem, isso dói. tu aprende aos poucos que se doar, só se for 10%. só se for com um pé atrás. porque depois tu fica sem nada. porque todo mundo sempre foge na hora em que tu mais precisa. e foge com aquele pedaço teu.

tu aprende aos poucos que se entregar é lindo, mas só funciona em filme. porque no mundo real, normalmente tu te entrega numa caixa linda, com um laço de fita rara, e a pessoa olha e diz: nossa, isso é tudo o que eu pedi na vida! isso é sensacional! isso é a coisa mais especial do mundo! e, na verdade, por trás daquelas palavras, quando a pessoa fecha a porta de casa e está sozinha na sala junto com o próprio coração, ela joga a caixa num canto. porque certamente existem coisas mais importantes. só que pra ti, tudo o que tu é e o que tu tinha, tá entregue naquela caixa.

ninguém tem noção, né?, do quanto dói. ninguém tem noção do quanto tu investe. e do quanto tu arrisca. e do quanto dói ver aquilo que tu tem de mais valor sendo tratado como qualquer porcaria que tu usa e joga fora. ninguém tem noção de que pessoas têm sentimentos. de que pessoas sofrem. de que pessoas saem machucadas quando arrancam tudo de dentro do peito enquanto o outro oferece um coração de 1,99.

sozinho, tu e a tua insônia, tu pensa que da próxima tu devia comprar logo uns 5 corações de 1,99 e, quando chegar a hora, dar eles. na próxima, tu pensa, é hora de entregar só 5%. é hora de fazer sofrer, é hora de chutar, de magoar.

mas tu não consegue.

porque tu é honesta com as pessoas. tu não usa as pessoas. ainda que seja pra matar a carência. tu é honesta e tu joga limpo. e tu sempre te fode por isso.

falta tu aprender a te dar valor. a te dar o devido respeito. porque se tu não souber te dar o respeito que tu merece, ninguém vai fazer isso. se tu correr atrás de quem não vale as tuas lágrimas, tu não tem respeito por tudo o que tu é. se tu ficar magoada porque aquela pessoa promete, promete, promete e promete e nunca cumpre, sempre te deixa na mão, tu não tem respeito por ti. porque se ela te deixa na mão, é porque tu entregou pra ela o que não devia.

da próxima tu aprende a ser cruel. tu vai penar, mas talvez isso mostre aos outros, mesmo que seja um sacrifício pra ti, que tu tem valor e que ninguém te achou no lixo, não. da próxima, tu aprende a dizer não.

tu aprende, aos poucos, que ser o estepe pra rodar os quilômetros que restam até uma borracharia é coisa de quem não se dá valor. tu aprende que estepe é estepe. tu aprende que tu pode salvar uma viagem numa madrugada de chuva. mas na hora de sair pros roteiros divertidos, estepe é lá debaixo da traseira.

tu aprende aos poucos que é fácil dizer que tu é foda. difícil é te querer mesmo quando nem tu mesma te tolera mais. fácil dizer que tu é especial. na hora da vida real, tu pode estar morrendo e ninguém liga. tu aprende aos poucos que tu é amiga, que tu é a pessoa com quem é muito bom conversar madrugada a dentro, que tu é sonho, tu é quimera, tu tá no pedestal. tu faz coisas tão bem que o diabo duvida. tu é a mocinha pra quem o vinho libera toda a verdade. só que quando tu mostra teus sentimentos, e pede apenas pra ser levada a sério... quando tu te torna real e a tua humanidade é feita de sangue com gosto de ferro e lágrimas salgadas... aí é conveniente fugir. é conveniente dizer o quanto é difícil dizer que não. tu aprende que pessoas que enchem a cara e te tiram pra dançar e te dizem a letra da música no ouvido, são as que no dia seguinte vão te ignorar no corredor. mesmo que no dia seguinte encham a cara de novo e te tirem pra dançar de novo.

tu aprende que em vez de ir pra festa com a tua melhor roupa e perfume, tu ficaria melhor em casa lendo um livro. tu aprende que por mais que tu te iluda com o misterioso interesse que certas pessoas têm por ti, na hora em que tu vê a morte de perto, só quem está do teu lado de verdade sabe o quanto tu tá sofrendo e assustado e com medo de morrer sem ter feito quase nada daquilo que tu planejou. e tu pensa que não tem ninguém pra quem tu possa ligar que vai sair de onde estiver correndo à pé se for preciso pra ir lá te tirar daquela porra daquele carro destruído numa vala, no meio duma chuva.

tu aprende, aos poucos, e com muito sacrifício, que a vida dá jeito de ir te mostrando quem merece aquela caixa decorada com a fita rara. é quem jamais vai te ignorar, mesmo que pra isso precise sacrificar seu conforto. porque não é fácil assumir esse pacote, que vem com todos esses poréns que tu cultiva há tanto tempo. mas só merece que tu perca teu respeito por ti mesmo aquele que não te faz perder o respeito por ti mesmo. que segura essa caixa bonita, decorada com a fita rara, abre na tua frente e vê que tem milhões de poréns saltitando. mas estica a mão pra pegar aquela coisa de mais valor, tira de dentro da caixa e diz: eu gosto tanto disso. e, ainda olhando no teu olho, coloca de novo na caixa, junto com todos os poréns, aperta a caixa contra o peito e te convida pra entrar. e coloca a caixa num lugar especial.

tu aprende que tu só deve colocar aquela combinação vintage linda com lacinhos pretos, ou aquelas rendas bordô, ou aquelas garters tão delicadas, pra quem um dia mandou todo mundo sair do carro pra te dar carona, só porque te viu caminhando na chuva, com os coturnos cheios de lama. porque essa pessoa vai correr o mundo contigo no sol, no calor, no seu horário de almoço, pra procurar o lenço de pinup que tu tanto quer. e é essa pessoa que vai te olhar nos olhos e ver que tu vale muito mais que conforto, que os amigos de confraria, ou o que quer que seja que sirva de desculpa pra ela não tomar uma decisão. que tu vale enfrentar todo mundo. que te respeitar está acima de tudo. alguém que vai preferir lutar contigo a transar com qualquer outra, como diria aquela frase famosa.

tu aprende a ser forte de verdade e perde o medo de bater o pé pelo que tu quer. tu aprende que enquanto tu continuar sendo a estepe boazinha que deixa todo mundo tranquilo, ou a amiga legal que serve pra tudo, ninguém vai te dar valor de verdade. tu aprende a ser corajosa pra enfrentar o "sinto muito, mas não posso" quando tu cansa de ficar te iludindo e só se dando conta de que tá se enganando sozinha, depois. e quando tu cria coragem e diz, com as mãos na cintura: "ou toma coragem, enfrenta o mundo e assume o risco de receber tudo o que eu tenho pra dar, ou vaza já"; aí tem o perigo de aparecer um punhado de covardezinhos declinando do tentador convite. mas é quando talvez tu vá ver um merdinha que sobra e que de repente decide correr o risco porque o benefício, considera ele, é maior. mas pra isso tu precisa colocar mesmo a mão na cintura e mandar vazar quem não tem cojones.

o primeiro passo é difícil. mas ele começa já. começa colocando as mãos na cintura.

[ Penkala ] 03:17 ] 0 comentários

 
] quarta-feira, dezembro 29, 2010
 
sabe quando a gente se sente totalmente idiota?

pois eu estou me sentindo totalmente idiota.





*da série COISAS QUE TU PODERIA TER TUITADO

[ Penkala ] 04:24 ] 0 comentários

 
] terça-feira, dezembro 28, 2010
 
não tem muita graça. especialmente eu sendo uma cientista. mas eu não tenho resposta pra umas coisas que eu sinto. umas coisas que não consigo esquecer. umas que mexem comigo de forma tão drástica. umas que fazem meu coração bater mais forte. me intriga essa capacidade que certas coisas, tão pequenas, têm de me tocar. me intriga que distância e tempo virem algo sem sentido em alguns momentos, como se eles não existissem. me intriga esse jogo de xadrez que não acaba, cada lado fazendo seu esforço lógico pra comer a rainha um do outro. desses jogos de xadrez em que o tabuleiro está ali, o jogo parece feito, e cada um dos jogadores faz um movimento enquanto vive a própria vida.

me intriga mesmo. é uma tortura, às vezes. mas, como cientista, eu sinto uma curiosidade enorme de sobreviver pra poder ver qual será a intensidade da próxima sensação...

[ Penkala ] 04:13 ] 0 comentários
 
 
o dia em que a terra parou

talvez exista, mas eu ainda não conheço solidão maior que passar muito perto da morte, sentir muito desespero mas não poder gritar ou chorar, pegar o celular na mão e não ter pra quem ligar e dizer: só queria dizer que estou viva.

desculpa, mundo. tem gente que sofre bem mais. mas este blog é meu, e a minha dor é muito forte porque é minha. e eu só queria dizer o que eu sinto.

queria falar de frustração, de humilhação, de raiva. de dor. de todas as coisas que eu segurei com as costas até aqui. de coisas que pesam na minha cabeça. queria falar de quando eu quase desisti tantas vezes, e de quando vi que não valia a pena. de quando perdi a esperança. e quando ganhei de volta. e de quando quase perdi de vez. outra vez. queria falar do quanto estou cansada disso, e do quanto não quero mais falar disso. nem vou falar das decepções, de não ser nunca boa o suficiente, apesar de ser boa demais, de ser muito especial, de ser muita areia. de estar sozinha, de me sentir sozinha, e de querer tanto e não poder nada.

mas eu não vou falar de nada disso. eu queria falar de quando a terra parou. de quando eu tive a sensação mais desoladora que já tinha sentido na vida. queria falar de quando sofri dois acidentes de carro na estrada em um só dia. de quando vi a morte de perto e, sem saber o que fazer, sobrevivi.

difícil explicar o que foi acordar com um susto, ouvindo meu pai gritando. depois de um acidente no meio da madrugada, numa manhã de chuva quem dirigia era minha mãe. e eu cochilei. meu pai dirige há 38 anos e roda muita estrada. nunca teve um acidente, até 4h da manhã de 23 de dezembro. minha mãe, que dirige há 35, e roda muita estrada, nunca tinha tido um acidente. quando começou a chover, a pista era dupla. ela ia com calma. sempre muito segura na direção. e eu peguei no sono outra vez. quando acordei, as coisas todas estavam acontecendo ao mesmo tempo. meu pai deu um grito horrível. eu nem tenho condições de descrever o horror que foi aquele grito. só sendo filha dele, só estando naquela situação. e depois foi só um silêncio. eu acordei e enxerguei um caminhão se aproximando. o grito do meu pai era porque íamos todos entrar debaixo das rodas de um caminhão enorme.

as únicas coisas que eu lembro de sentir/ver/ouvir nada têm de muito místico, nem nada de muito comum a todas as descrições que ouço de acidentes... eu ouvi um grito no meio do silêncio absoluto, depois de acordar sentindo como se fosse um dèja-vu do outro acidente (não quero sentir aquilo de novo nunca mais), e vi as rodas de um caminhão. e vi minha mãe segurando a direção. e só lembro de estar parando, em mais uma vala, depois de quase capotar.

o carro escorregou na pista molhada, rodou depois de cair na grama molhada (sim, um acostamento com grama!) e girou várias vezes na estrada até parar numa vala, na grama. as duas primeira vezes em que girou, bateu na traseira de um caminhão. perda total. mas nenhum de nós se machucou. eu não rezei. eu sequer ensaiei um "meu deus, por favor". eu só senti uma confiança absurda na minha mãe. uma confiança de que ela nos tiraria dali. e uma tristeza muito grande de ver minha mãe passando por aquela situação. de ter que lidar com tudo aquilo ao mesmo tempo em que lidava com o trauma. a tristeza do grito do meu pai, que foi uma das coisas mais terríveis. e uma sensação estranha de pensar, em microssegundos, que aqueles eram os momentos antes de morrer, onde eu não poderia fazer absolutamente mais nada. eu simplesmente não estaria mais viva. nem meus pais. e o mundo simplesmente deixaria de existir. só.

eu não pensei em dor. não, não passa um filme diante dos olhos da gente. só se enxerga aquilo que é e só se tem tempo de pensar no quanto dá pena morrer. o filme, mesmo, passa depois. a cada piscada de olho, o acidente passa de novo diante dos olhos.

uns me dizem que ganhei um presente estando viva. bom, eu sou cientista, pragmática, lógica. eu tenho a minha vida e se eu quase perco isso e depois volto ao normal, então minha vida continua sendo um presente que ganhei lá em 1977, quando meus pais me fizeram. mas eu sou um ser espiritual também. e eu sei que ganhei um presente. meu presente foi enxergar que estou viva por um motivo. foi ver que apesar de tanta merda que os últimos anos me trouxeram, eu tou viva porque alguma coisa eu preciso fazer. e é importante. algo que nenhuma outra pessoa pode fazer por mim. algo pro que eu me preparei sendo eu desde 1978. algo pro que eu me preparei sobrevivendo a todas as coisas ruins dos últimos anos. algo que está reservado e é o motivo pelo qual eu não desisti de verdade quando achei que não ia suportar a dor, há pouco mais de um ano.

eu estou viva por um motivo. meus pais estão vivos por um motivo. meu presente foi ter ganho essa noção estranha de que agora é uma questão de honra. ou é por birra. e daí que eu vou reclamar, sim, de quando estiver sofrendo, e triste, e deprimida, e sozinha. mas eu nunca mais vou me perguntar pra que que serve esta merda de vida. porque, sirva pro que quer que ela sirva, existe um motivo pra eu estar aqui. não liguei pra ninguém pra dizer que estava viva. é verdade. mas estarei viva pra poder, um dia, ligar pra alguém e poder falar de qualquer coisa melhor.

e a terra, afinal, volta a girar de novo. como sempre.

[ Penkala ] 02:08 ] 0 comentários

 
] quinta-feira, dezembro 09, 2010
 
eu sou um homem das cavernas, e venho caminhando sobre este mundo há milhares de anos
eu ando em círculos. dentro da minha caverna, eu ando em círculos. até minhas pernas doerem...

meu coração de milhares de anos é um felino que carrega solidão
na guerra, ele luta. e depois, cansado, dorme ao lado de todos os mortos no chão.
e na minha caverna eu ando em círculos. eu e meu coração. espada e escudo. e os mortos no chão...

o mundo é meu há tanto tempo, eu tenho a terra, e tenho o céu, e tenho uma estrada diante de mim, mas dentro da minha caverna eu ando em círculos. a terra submetida à minha caminhada, o céu caindo sobre minha cabeça. eu seguro ele nas costas e ando em círculos

eu sou um homem das cavernas e tenho milhares de anos. eu já amei todos os homens que nasceram, e já lutei contra todos os homens que estão mortos. é uma sina, é uma missão
eu avanço, eu ando longe, minhas pernas suportam o peso do que carrego dentro de um peito cansado, sobre minhas costas largas
e dentro do meu coração, eu ando em círculos

meu cetro sobre esta terra não me manda ser homem, e eu sou. há milhares de anos eu reino sobre minhas próprias pernas. dentro dessas muralhas, minha palavra é lei
mas sou um idiota. sou apenas um idiota andando sobre esta terra sem nome
em círculos

eu sou um homem, e este mundo é meu. carrego todas as coisas dentro de mim
eu ando em círculos dentro de um forte, eu ando em círculos dentro da minha caverna
eu sou um homem preso ao meu próprio coração
com grades do diâmetro dos meus medos, e da densidade das minhas fraquezas

eu sou um homem, e eu mando nesta terra
e dentro deste território, eu sou o mais rico de todos
mas eu não consigo ver outra coisa que não meus pés cansados
andando em círculos

eu domino até onde se pode enxergar, eu domino o fogo, eu domino a luz
eu sou o mestre, mas eu tenho dúvidas
na verdade, não passo de um homem sozinho, sentado sobre a pedra, no pico de uma montanha
de onde enxergo meu mundo, e nele o chão infértil de mil mortes

eu penso em círculos, eu estou sozinho
e minha cabeça me engana
meu coração nunca pára, meu pensamento nunca cansa
eu estou aqui amando em círculos

eu sou um homem das cavernas que quer negar tudo, eu estou sobre a terra há milhares de anos
eu estou sozinho, andando em círculos, as pernas doendo, meu coração parando
mas ainda sou rei, e até onde eu sei, mestre dos meus domínios
mas ando em círculos há tempo demais agora...

[ da série: AS MÚSICAS FALAM COMIGO. episódio de hoje, Je suis un homme/Zazie ]

PS: não deu pra evitar de essa música grudar na minha cabeça também. maldição!

[ Penkala ] 22:59 ] 0 comentários

 
] domingo, dezembro 05, 2010
 
última quimera

parte mulher, parte dragão, parte leão. parece um castigo de algum deus do olimpo. a formidável mística de uma quimera. a inatingível profundeza desse monstro. o pedestal alto demais. a quimera, essa criatura especial, intocável, mágica, atemporal e incorpórea. que assusta pela sua grandeza, que causa choque com seu olhar, que afasta os mortais, que vivenciam o abalo dos sentimentos. aos poetas, as quimeras escondidas pelo véu de musa. aos poetas, que morrem cuspindo sangue, o rosto inabalável dessa mulher especial. que precisa ser adorada, que merece ser muito amada, mas que torna em pedra todo homem que ousa olhar nos olhos.

que pégaso adorável ela não montaria, indo, distante, na direção contrária de qualquer coração. que dragão furioso não levaria pro céu suas pernas de leão. que fênix tão colorida não pousaria em seu ombro, ao mínimo chamado. cabeça de cabra. cabeça e cornos de cabra. a monstruosidade petrificada na fachada de um prédio clássico. olha, com os olhos lá do alto, a entrada de qualquer mortal pelos portões.

espero que morra, essa quimera. que esse castigo seja revogado em assembléia. que apenas um ser humano fique, mortal, crivado de defeitos, frágil. um ser humano que sim, tem coração de leão, mas tem medo. que embora seja dragão e solte pelas ventas o fogo que sua natureza de dragão fez, também chora lágrimas de água salgada. que embora arda no fogo muitas vezes, e em geral de combustões rápidas e luminosíssimas, não quer o corpo carbonizado resultado de sua paixão. como o poeta, em seu pessimismo tuberculoso, quero que enterrem essa última quimera. e que no lugar dela reste um ser humano imperfeito, atingível, falho. que não transforme em pedra o homem que ousa aproximar dos seus portões.

[ Penkala ] 14:49 ] 0 comentários
 
 
estiva

o melhor chefe que eu poderia ter tido na vida tem o nome do meu pai. uma ironia, aliás. eu tinha 22 anos e era meu primeiro emprego na área, e eu era estressada. estava exausta com a quantidade de trabalho e cada tarefa que ele me passava era motivo pra que eu entrasse em crise. e aí eu explodi com ele. e ele, no alto daquela jovem paciênca búdica, me disse: a gente só recebe o peso que pode carregar, a gente só ganha o trabalho que pode fazer.

com isso ele estava me dizendo que tudo aquilo que ele confiava em mim, uma pirralha, pra fazer, era aquilo que ele achava que eu daria conta.

meu avô era estivador. depois foi pra II Guerra. eu sei lá tudo o que este homem não deve ter passado. e ele sempre chorava quando cantavam parabéns pra ele. eu sou de uma longa linhagem de trabalhadores. operários de costas largas. meu pai é um desses. polaco das costas largas e não vê problema quando se estopora cumprindo algum trabalho. eu fui pra faculdade, eu fiz o que meus pais sempre me mandaram fazer: estudei. mas tá no meu sangue ser estivador. (afinal, se alguém acha que ser professor é fácil, que ser respeitado pelo que pensa é simples, se viver no meio acadêmico é mole, não sabe o que tá dizendo.)

a vida adulta não tem graça. porque boa parte do tempo tu não acha que pode carregar aquilo que te colocam nas costas. ou que cai nas tuas costas. e não tem um Paulo pra dizer que tu tá indo bem, que tu precisa acreditar mais em ti. se eu estivesse perto de ele agora, ou se meu pai estivesse do meu lado, falando aquelas coisas que ele sempre dizia sobre a vida real não dar "culé de chá", eu diria que acho que mandaram carregamento extra e não se deram conta. eu sempre fui de reclamar. mas sempre fui de baixar a cabeça e fazer. mas a vida não se trata de carregamentos apenas, chefe. se trata de baques. carregamentos que tu precisa levar nas costas, jornadas que tu precisa caminhar, baques que tu toma.

é como quando um boxeador tá levando porrada e não consegue nem revidar, nem se defender. dentro daquela angústia toda ele deve tentar tirar todas as forças de sabe lá onde. mas a vida continua batendo. ele tem duas escolhas: ou ele se entrega, ou ele levanta.

eu não duvido que a vida me coloque nas costas o peso que eu posso carregar. do contrário, eu acabaria desmaiando e não trabalhando mais pras suas empresas. e isso não teria sentido. a cada peso extra que as minhas costas sentem, eu acho que vou cair. acho que é demais. então eu me conformo e carrego adiante, levo até onde ele deve ser levado. na estiva, a lida é dura. e o sistema não perdoa. as mãos do estivador são fortes, meu bem, mas sabe lá quanto ele não sente os ossinhos fechando em si mesmos... as costas do estivador são largas, mas sabe lá quantas vezes as pernas não suportaram e pediram, por favor, que o dia acabasse?

o negócio é que a cabeça do estivador é dura, querida. as minhas mãos crisparam já. não faz muito tempo eu perguntei, de novo, que carga era essa que sempre subia nas minhas costas. mas a cabeça aqui é dura. não importa que o navio aporte com um carregamento de montanhas. não importa que eu tenha que carregar viga sobre os ombros. e não importa que eu tenha que bater em muro de pedra de cara lavada, logo de manhã cedo. o pior que pode acontecer é eu largar a estiva. só que se eu tiver que largar a estiva, minha amiguinha, não vai ser pra ir pra casa. eu vou é pra guerra.

[ Penkala ] 14:07 ] 0 comentários

 
] quarta-feira, dezembro 01, 2010
 
quando meu melhor amigo casou, eu escrevi sobre isso. sobre o casamento do meu melhor amigo. assim, fazendo referência ao filme mesmo. eu me lembro da sensação de horror. eu fui apaixonadinha pelo meu melhor amigo. mas já tinha passado. preferi a amizade dele. eu conheci ele com 13 anos. eu era a pessoa que melhor conhecia o Anderson. e ele arranja uma namorada, ela invade a vida dele, ele se apaixona, e se casa. no início do namoro deles, eu sofri. calada, mas sofri. porque significava que outra pessoa saberia mais dele do que eu. que outra pessoa teria preferência nos programas com ele.

eu sofri de um ciúme besta e natural. eu sofri pelo amor que eu sentia por ele como amigo. que é muito parecido com amor que a gente sente por namorado. só que eu engoli tudo. eu fingi que não tava me importando. eu fingi que não doía. porque doía, viu? mas eu engoli. porque uma coisa era a amizade que eu tinha com ele, outra era o que ele sentia pela namorada. é fácil a gente achar que é apaixonada pelo melhor amigo. mas amor mesmo, de namorada, é bem diferente.

e uma coisa me ajudou. o fato de que a namorada dele, hoje esposa dele há muitos anos, nunca tentou competir comigo. eu tinha meu lugar e ela o dela. e o meu lugar de SABER DE COISAS BIZONHAS A RESPEITO DELE ela deixou pra mim. ela respeitou meu direito de ser a única a chamar ele de cuzão. e ela dá risada porque eu também sou a única na Terra que pode e chama, de fato, ele de bichona.

porque ela sabia que eu era a melhor amiga e ela era a mulher. e, apesar de todas as coisas que me fazem muito diferente dela, eu respeito isso pra caramba, porque foi um sinal de maturidade da parte dela. ambas fomos maduras. afinal, só duas idiotas pra gostar tanto assim do Anderson. (mentira, o Under é um guri jóia. só não dá pra dizer isso pra ele porque ele fica idiota) claro que minha amizade com ele mudou. é normal. e é claro que ela conhece melhor ele do que eu. eu me contento em saber de podres dele, me contento em ser a memória viva dele. e me contento em, com todo o prazer do mundo, dizer que ele é um cuzão. porque eu amo muito o Anderson. apesar da guitarra cor de cozinha de vó que ele tem. eu amo ele de verdade. e essa mulher, que também se chama Ana, também ama. cada uma tem um espaço. e cada uma respeita o espaço da outra.

porque eu tenho certeza de que por mais amor que eu sinta por ele, um casal a gente jamais poderia ser.

é duro perder o melhor amigo pra mulher que ele começa a amar, e pra mulher com quem ele agora quer passar muito tempo. eu sei, já estive nessa situação. é duro, dói, e desespera, porque tu perde aqueles domingos, tu perde aquelas palhaçadas, tu perde muita coisa. mas uma coisa é amizade. outra é o amor que faz de duas pessoas um casal. e por mais que amigos de verdade (sim, existem amigos de verdade) se amem, é preciso algo pra que eles sejam um casal. algo que a gente não cria por decreto. algo que surge num olhar. algo que nasce devagar. algo que acontece no coração de duas pessoas. confundir é normal, mas pra ser um casal é preciso algo que não é o tempo que cria, mas uma fagulha. um átimo de segundo depois de uma longa caminhada. uma reação química.

eu tenho respeito por amigas. eu costumo ficar amiga delas. sempre fiz isso. costumo gostar delas, sempre fiz isso. porque eu também tenho amigos. e com elas eu sempre espero ter aquele acordo tácito de que cada uma ocupa um espaço que a outra não invade.

é duro. é muito duro fazer esse recuo e deixar que a namorada do teu melhor amigo tome o espaço que é dela. mas dói bem menos que não ter como lutar com a melhor amiga do teu namorado. especialmente quando a primeira coisa que tu pensou foi em jamais interferir no lugar que era dela. tu te coloca no lugar dela, que estaria perdendo um pouquinho do amigo. mas ninguém nunca se coloca no lugar da namorada, que não tem material pra lutar contra algo tão grande como a amizade...

[ Penkala ] 23:44 ] 0 comentários

 
eu uso óculos




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