] domingo, dezembro 05, 2010
 
estiva

o melhor chefe que eu poderia ter tido na vida tem o nome do meu pai. uma ironia, aliás. eu tinha 22 anos e era meu primeiro emprego na área, e eu era estressada. estava exausta com a quantidade de trabalho e cada tarefa que ele me passava era motivo pra que eu entrasse em crise. e aí eu explodi com ele. e ele, no alto daquela jovem paciênca búdica, me disse: a gente só recebe o peso que pode carregar, a gente só ganha o trabalho que pode fazer.

com isso ele estava me dizendo que tudo aquilo que ele confiava em mim, uma pirralha, pra fazer, era aquilo que ele achava que eu daria conta.

meu avô era estivador. depois foi pra II Guerra. eu sei lá tudo o que este homem não deve ter passado. e ele sempre chorava quando cantavam parabéns pra ele. eu sou de uma longa linhagem de trabalhadores. operários de costas largas. meu pai é um desses. polaco das costas largas e não vê problema quando se estopora cumprindo algum trabalho. eu fui pra faculdade, eu fiz o que meus pais sempre me mandaram fazer: estudei. mas tá no meu sangue ser estivador. (afinal, se alguém acha que ser professor é fácil, que ser respeitado pelo que pensa é simples, se viver no meio acadêmico é mole, não sabe o que tá dizendo.)

a vida adulta não tem graça. porque boa parte do tempo tu não acha que pode carregar aquilo que te colocam nas costas. ou que cai nas tuas costas. e não tem um Paulo pra dizer que tu tá indo bem, que tu precisa acreditar mais em ti. se eu estivesse perto de ele agora, ou se meu pai estivesse do meu lado, falando aquelas coisas que ele sempre dizia sobre a vida real não dar "culé de chá", eu diria que acho que mandaram carregamento extra e não se deram conta. eu sempre fui de reclamar. mas sempre fui de baixar a cabeça e fazer. mas a vida não se trata de carregamentos apenas, chefe. se trata de baques. carregamentos que tu precisa levar nas costas, jornadas que tu precisa caminhar, baques que tu toma.

é como quando um boxeador tá levando porrada e não consegue nem revidar, nem se defender. dentro daquela angústia toda ele deve tentar tirar todas as forças de sabe lá onde. mas a vida continua batendo. ele tem duas escolhas: ou ele se entrega, ou ele levanta.

eu não duvido que a vida me coloque nas costas o peso que eu posso carregar. do contrário, eu acabaria desmaiando e não trabalhando mais pras suas empresas. e isso não teria sentido. a cada peso extra que as minhas costas sentem, eu acho que vou cair. acho que é demais. então eu me conformo e carrego adiante, levo até onde ele deve ser levado. na estiva, a lida é dura. e o sistema não perdoa. as mãos do estivador são fortes, meu bem, mas sabe lá quanto ele não sente os ossinhos fechando em si mesmos... as costas do estivador são largas, mas sabe lá quantas vezes as pernas não suportaram e pediram, por favor, que o dia acabasse?

o negócio é que a cabeça do estivador é dura, querida. as minhas mãos crisparam já. não faz muito tempo eu perguntei, de novo, que carga era essa que sempre subia nas minhas costas. mas a cabeça aqui é dura. não importa que o navio aporte com um carregamento de montanhas. não importa que eu tenha que carregar viga sobre os ombros. e não importa que eu tenha que bater em muro de pedra de cara lavada, logo de manhã cedo. o pior que pode acontecer é eu largar a estiva. só que se eu tiver que largar a estiva, minha amiguinha, não vai ser pra ir pra casa. eu vou é pra guerra.

[ Penkala ] 14:07 ] 0 comentários

 
eu uso óculos




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