] terça-feira, dezembro 28, 2010
 
o dia em que a terra parou

talvez exista, mas eu ainda não conheço solidão maior que passar muito perto da morte, sentir muito desespero mas não poder gritar ou chorar, pegar o celular na mão e não ter pra quem ligar e dizer: só queria dizer que estou viva.

desculpa, mundo. tem gente que sofre bem mais. mas este blog é meu, e a minha dor é muito forte porque é minha. e eu só queria dizer o que eu sinto.

queria falar de frustração, de humilhação, de raiva. de dor. de todas as coisas que eu segurei com as costas até aqui. de coisas que pesam na minha cabeça. queria falar de quando eu quase desisti tantas vezes, e de quando vi que não valia a pena. de quando perdi a esperança. e quando ganhei de volta. e de quando quase perdi de vez. outra vez. queria falar do quanto estou cansada disso, e do quanto não quero mais falar disso. nem vou falar das decepções, de não ser nunca boa o suficiente, apesar de ser boa demais, de ser muito especial, de ser muita areia. de estar sozinha, de me sentir sozinha, e de querer tanto e não poder nada.

mas eu não vou falar de nada disso. eu queria falar de quando a terra parou. de quando eu tive a sensação mais desoladora que já tinha sentido na vida. queria falar de quando sofri dois acidentes de carro na estrada em um só dia. de quando vi a morte de perto e, sem saber o que fazer, sobrevivi.

difícil explicar o que foi acordar com um susto, ouvindo meu pai gritando. depois de um acidente no meio da madrugada, numa manhã de chuva quem dirigia era minha mãe. e eu cochilei. meu pai dirige há 38 anos e roda muita estrada. nunca teve um acidente, até 4h da manhã de 23 de dezembro. minha mãe, que dirige há 35, e roda muita estrada, nunca tinha tido um acidente. quando começou a chover, a pista era dupla. ela ia com calma. sempre muito segura na direção. e eu peguei no sono outra vez. quando acordei, as coisas todas estavam acontecendo ao mesmo tempo. meu pai deu um grito horrível. eu nem tenho condições de descrever o horror que foi aquele grito. só sendo filha dele, só estando naquela situação. e depois foi só um silêncio. eu acordei e enxerguei um caminhão se aproximando. o grito do meu pai era porque íamos todos entrar debaixo das rodas de um caminhão enorme.

as únicas coisas que eu lembro de sentir/ver/ouvir nada têm de muito místico, nem nada de muito comum a todas as descrições que ouço de acidentes... eu ouvi um grito no meio do silêncio absoluto, depois de acordar sentindo como se fosse um dèja-vu do outro acidente (não quero sentir aquilo de novo nunca mais), e vi as rodas de um caminhão. e vi minha mãe segurando a direção. e só lembro de estar parando, em mais uma vala, depois de quase capotar.

o carro escorregou na pista molhada, rodou depois de cair na grama molhada (sim, um acostamento com grama!) e girou várias vezes na estrada até parar numa vala, na grama. as duas primeira vezes em que girou, bateu na traseira de um caminhão. perda total. mas nenhum de nós se machucou. eu não rezei. eu sequer ensaiei um "meu deus, por favor". eu só senti uma confiança absurda na minha mãe. uma confiança de que ela nos tiraria dali. e uma tristeza muito grande de ver minha mãe passando por aquela situação. de ter que lidar com tudo aquilo ao mesmo tempo em que lidava com o trauma. a tristeza do grito do meu pai, que foi uma das coisas mais terríveis. e uma sensação estranha de pensar, em microssegundos, que aqueles eram os momentos antes de morrer, onde eu não poderia fazer absolutamente mais nada. eu simplesmente não estaria mais viva. nem meus pais. e o mundo simplesmente deixaria de existir. só.

eu não pensei em dor. não, não passa um filme diante dos olhos da gente. só se enxerga aquilo que é e só se tem tempo de pensar no quanto dá pena morrer. o filme, mesmo, passa depois. a cada piscada de olho, o acidente passa de novo diante dos olhos.

uns me dizem que ganhei um presente estando viva. bom, eu sou cientista, pragmática, lógica. eu tenho a minha vida e se eu quase perco isso e depois volto ao normal, então minha vida continua sendo um presente que ganhei lá em 1977, quando meus pais me fizeram. mas eu sou um ser espiritual também. e eu sei que ganhei um presente. meu presente foi enxergar que estou viva por um motivo. foi ver que apesar de tanta merda que os últimos anos me trouxeram, eu tou viva porque alguma coisa eu preciso fazer. e é importante. algo que nenhuma outra pessoa pode fazer por mim. algo pro que eu me preparei sendo eu desde 1978. algo pro que eu me preparei sobrevivendo a todas as coisas ruins dos últimos anos. algo que está reservado e é o motivo pelo qual eu não desisti de verdade quando achei que não ia suportar a dor, há pouco mais de um ano.

eu estou viva por um motivo. meus pais estão vivos por um motivo. meu presente foi ter ganho essa noção estranha de que agora é uma questão de honra. ou é por birra. e daí que eu vou reclamar, sim, de quando estiver sofrendo, e triste, e deprimida, e sozinha. mas eu nunca mais vou me perguntar pra que que serve esta merda de vida. porque, sirva pro que quer que ela sirva, existe um motivo pra eu estar aqui. não liguei pra ninguém pra dizer que estava viva. é verdade. mas estarei viva pra poder, um dia, ligar pra alguém e poder falar de qualquer coisa melhor.

e a terra, afinal, volta a girar de novo. como sempre.

[ Penkala ] 02:08 ] 0 comentários

 
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