] terça-feira, janeiro 25, 2011
 
um tanque entupido

Freud sempre vai explicar o motivo pelo qual, na casa dos teus pais, tu sempre dorme melhor e mais tranquilo. tu saiu de lá faz tempo, tu não gosta de como as coisas funcionam lá, tu não quer voltar a morar lá e nem quer deixar de ter a tua vida independente. mas alguma coisa faz com que tu durma decentemente na casa dos teus pais enquanto na tua própria tu não consegue ter uma noite de sono boa.

Freud diria que é porque tu sente conforto e proteção na casa dos teus pais. (a não ser que teus pais ou qualquer um deles que morasse lá fosse tão insuportável que tu não conseguisse nem ouvir a voz dele/s. o que não é meu caso). é porque lá tu não é o rei que precisa tomar decisões, é porque lá tu não tem que dar conta de tudo, é porque lá tu volta, virtualmente e de forma simbólica, a ser filha de novo.

mas tu pode fazer de algum outro lugar o teu lar. e a não ser pelo detalhe de que tu vai ter que dar conta de tudo, ser responsável pelas trancas e pelo gás e tudo o mais, tu pode, sim, transformar alguma outra casa em lar. seja morando sozinha, seja com marido, seja com marido e filhos. e eu sei que eu posso porque já fui feliz - um pouquinho - assim. morando de aluguel, o que era chato. e num apê que tinha lá seus problemas, o que me incomodava. mas eu fui feliz. um pouquinho.

só que aqui, onde eu achava que era infeliz porque EU tornava a casa o lugar de despejo das minhas frustrações e tristezas, eu sou infeliz porque não há jeito de uma pessoa ser feliz aqui.

desde o primeiro dia em que este apartamento foi escolhido, o passo foi infeliz. e como que um castigo por ter tomado a decisão de escolher ele sozinha, eu tive que cuidar de tudo sozinha também. este apartamento foi escolhido no meio de uma recuperação bem ruim de uma cirurgia chata. no meio do stress de um final de mestrado. no meio de uma crise no casamento. no meio de uma frustração pessoal que me deu um tombo apesar de parecer que tava tudo bem. o financiamento ocorreu no meio de uma negociação que envolveu uma corretora mau-caráter cretina e duas velhas filhas da puta e completamente loucas que só faltaram me internar, de tanto que me enlouqueceram. tudo nas minhas costas.

a reforma leve, que me dava a idéia de que tudo estava começando a entrar nos eixos, e a mudança, tudo se deu no meio de um encerramento de mestrado. tudo nas minhas costas. desde cuidar pros pedreiros não fazerem merda (eu, que nunca tinha lidado com nada parecido) até limpar a sujeira e o estrago que eles fizeram, passando por encaixotar minha vida toda num apartamento, limpar o apartamento que estava entregando e limpar este depois da "obra"... tudo nas minhas costas. minha vida pessoal desmoronando, minha frustração "profissional" piscando na minha cara, minha dissertação travada, minha saúde indo pelo ralo e no meio disso tudo ainda um encerramento de mestrado e duas seleções de doutorado.

desde que botei os pés neste apartamento, só fui infeliz. infeliz com pequenos momentos de alívio. mas infeliz. infeliz doente, infeliz frustrada, infeliz exausta, infeliz traída, ignorada, tratada feito idiota. e, além de tudo, infeliz obesa e com uma auto-estima (não tinha nem ajuda pra essa auto-estima melhorar, na real) quase inexistente. nas paredes deste apartamento estão todas as frustrações, e todas as solidões que eu passei, mesmo quando não estava sozinha. estão decepções, deslealdades. estão todas as vezes que fiquei doente. estão todas as vezes que chorei sozinha. estão todos os stress e todas as rasteiras que eu recebi do mundo.

nestas paredes estão todas as tentativas de deixar este apartamento legal e por mais que os outros digam que ele até é bem bonitinho, eu só vejo horror aqui dentro. nessas paredes estão eu e um cachorro nos virando pra lidar com a sacanagem alheia. nessas paredes estão as tantas vezes em que não consegui comer ou dormir porque já não tinha força pra viver. estão gravadas todas as vezes em que tentei acabar com tudo logo de uma vez. e todas as vezes em que andei de um lado pro outro por mais de 2 horas sem parar, chorando. estão eu ter enlouquecido. estão eu voltar sempre sozinha. estão eu sentir humilhação, estão eu ter que mandar meu cachorro embora porque não podia mais cuidar dele. estão eu ter que cuidar de 4 passarinhos quando eu não tinha mais condições nem de ouvir um som sequer. aqui estão todas as vezes em que fui tratada feito lixo, e todas as vezes em que achei que ia ser feliz e tomei logo em seguida uma resteira absurda.

minha irmã disse pelo menos umas duas vezes, quando conheceu este apartamento, que não se sentia bem aqui. eu juro que tentei ignorar e até dizer que ela tava fantasiando. mas EU também nunca me senti bem aqui.

é incrível como uma casa pode ser um lar ou pode ser uma prisão. uma solitária escura de onde tu não consegue sair, no princípio, porque tá trancado. depois, porque tu enlouqueceu. nada dentro deste apartamento funcionou e jamais vai funcionar. se eu acreditasse nessas coisas, eu diria que este lugar foi construído sobre um cemitério indígena, enterraram uma cabeça de cavalo debaixo desse chão, emparedaram um homem nesses tijolos e o cimento que reveste as paredes foi misturado ao sangue de 2 milhões de crianças inocentes. e que várias velhas morreram aqui, agonizando.

eu me sinto melhor em qualquer lugar. aqui, eu não durmo direito. e quando durmo, tenho pesadelos. aqui eu vivo provisoriamente. aqui eu moro como se estivesse numa prisão. eu tenho um teto sobre a minha cabeça. mas parece que ele está me esmagando. eu tenho certeza de que infelicidade é uma coisa que as paredes absorvem e concentram. eu nunca mais abri janelas. ou porque elas são um saco de abrir, ou porque estragaram e não tem mais como abrir. está cada vez mais difícil manter dentro disso um lugar onde eu consiga manter alguma sanidade. o tanque que entupiu de forma irreversível é só mais uma metáfora. pra minha vida que simplemente TRAVOU.

[ Penkala ] 17:54 ] 0 comentários

 
eu uso óculos




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