] quinta-feira, agosto 04, 2011
 
eu lembro de quando o professor novo entrou na sala de aula. recém saído do mestrado, 32 anos. não apenas era um alienígena (o sujeito saindo do mestrado, pra gente, naquele momento de 1999, era como se hoje chegasse pra dar aula na graduação um phd em neurociência quântica com alguma experiência em viagens ao espaço e uma pós-graduação obscura com algum filósofo recluso alemão) como era "gringo da serra" e tinha feito mestrado num idioma morto de uma civilização alienígena irmã dos maias chamado semiótica.

tudo o que ele falava era de popper e peirce, dois deuses dessa civilização que divinam um tipo de doutrina quase ininteligível. dizem os antigos que a compreensão da doutrina requer absoluta entrega e profundo desapego do mundo material e da vida normal. a disciplina que o professor novo dava era uma doutrina religiosa chamada metodologia da pesquisa científica.

não que não gostássemos do professor. era apenas impossível gostar daquela disciplina. era uma reação normal. éramos alunos de graduação. nada mais normal que odiar pesquisa, popper, peirce e todos os malditos catetos das hipotenusas das hipotesis da maldita semiótica. não fazia sentido gostarmos daquilo.

e por mais que fizesse sentido pra mim amar fazer pesquisa, amar semiótica e essas coisas absurdas todas, o show tinha que continuar e eu tinha que continuar parecendo odiar isso tudo. afinal, aluno de graduação praticamente nunca tem noção do que é o mundo real lá fora. o mundo da pesquisa de verdade, onde tu tem que matar os leões todos. aluno de graduação que é aluno de graduação precisa temer o tcc de morte. amargar horas diante dos livros pra produzir sua monografia. bradar aos céus pelo horror do trabalho de conclusão. odiar o professor de metodologia da pesquisa. odiar popper, peirce, hjelmslev, deleuze, essas coisas bonitas e líricas das quais o inferno é repleto.

mas não tem nada, não. o mundo dá voltas. eu mesma reclamei, de barriga cheia, o horror do tcc. eu mesma morri deitada em travesseiros feitos com as duras penas do mimimi acadêmico amador. agora sou eu aqui, depois de seis anos de pesquisa (vamos lá: peirce, hjelmslev, deleuze, e mais um monte de gente menos francesa, menos semiótica, menos infernal), enrolada em cobertinhas, rodeada de livros de metodologia da pesquisa científica. porque segunda, meus amiguinhos, eu vou ser a alienígena quatro olhos doutorinha de merda, pregadora da doutrina infernal que assombra alunos de graduação de todas as gerações. eu serei a A PROFESSORA DE METODOLOGIA DE PESQUISA.

vai lá, Rudi. pode rir, professor.

[ Penkala ] 19:15 ] 0 comentários

 
eu uso óculos




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